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Mercado Central: espaço histórico de BH

Publicado por Sebastião Verly em Crônicas, Memórias
data: 29/04/2010

Mercado Central: espaço histórico de BH
Não dá falar do Mercado Central sem esticar um pouco a conversa. Aliás, para recordar mesmo, temos de voltar no tempo. Quando eu ainda morava no interior lá pelos idos de 1950 a 1960, os comerciantes do mercado iam pessoalmente ou mandavam seus prepostos ao interior comprar frutas, legumes, aves, especialmente galinhas, e animais para venderem na Capital. A compra era feita de casa em casa e os compradores levavam dois ou três meninos para ajudar a colher as frutas ou pegar as aves e os animais.

Nós que estávamos acostumados a esperar os cachos de banana amarelarem no pé, os abacates roxearem para cair, laranjas só em junho, bem madurinhas, ficávamos estupefatos de ver como colhiam tudo “verde”, ou seja, muito antes de se granarem ou estarem de fatos prontos para colheita. Eu, pessoalmente, comentava com os amigos como o povo da cidade grande comia mal.

Quando me mudei para Belo Horizonte, fui conhecer o Mercado Central. Fui lá, na primeira vez, creio que para receber um pagamento para meu irmão que vendia produtos para um conterrâneo. Fiquei impressionado com a confusão. Barracas de madeiras cobertas de folhas de flandres, ou de zinco, caixas de madeira quebradas por todo lado tomavam o espaço que ainda hoje ocupa o Mercado, além do quarteirão em frente, chamado Triângulo. Nas imediações descarregavam os caminhões vindos do interior e muitos comercializam seus produtos no meio da rua. O ambiente das redondezas era infecto e mal cheiroso. Mesmo porque havia um abatedouro de aves e animais chamado Caldeira, logo em frente e que funcionava o dia todo sem nenhuma higiene e com a maior sujeira. Sem falar nos restos de couve e repolho e os excrementos dos eqüídeos que puxavam as carroças.

Por volta de 1964, o triângulo foi vendido em leilão numa operação pra lá de polêmica. E o Mercado ficou só no espaço que se mantém ainda hoje. Passada a propriedade aos barraqueiros, logo recebeu uma sensível melhoria.

Mercado Central: espaço histórico de BH

Com a reforma, dava gosto ir ao Mercado Central mesmo que fosse mais para ver a variedade de produtos e a diversidade do comércio. Frutos do cerrado, como o pequi, o araticum e as frutas dos quintais como a jabuticaba são comercializadas na parte externa e raramente no interior. São mais de 400 lojas, que vendem de quase tudo: gêneros de primeira necessidade – até há pouco tempo era o único lugar em que se comprava feijão enxofre, roxinho e a fava verde; hortifrutigranjeiros em sua ampla variedade; raízes, e ervas medicinais raras, mandioca, cará e batatas de várias espécies; frutas pouco ou muito conhecidas; pimentas das mais ardentes até a pimenta “doce” própria para geléia; doces os mais diversos; carnes, tanto as fresquinhas quanto as carnes de charque, jabá e carne de sol; lingüiças de todas os tipos, frescas e defumadas; peixes frescos e salgados; queijos de todos os tipos e formas; cachaças da roça, envelhecidas em barril de carvalho, com bálsamo e de alambique; artesanatos feitos em todas as regiões do estado e os mais variados artigos religiosos e esotéricos. Há ainda o polêmico comércio de aves, pássaros e mamíferos, que causa a discórdia maior sobre o local. Não dá mesmo para relacionar tudo que se pode comprar no Mercado. É uma loucura!

Outro dia senti vontade de comer o mangarito que só saboreei na minha infância. Fui ao Mercado Central e ao encontrar a banca onde vendia aquela espécie do pequeno cará, o produto já não mais havia, pois naquele dia o próprio dono o havia cozinhado para seu desfrute. Ofereceu-me, gentilmente, alguns para degustação ali na hora. Deu para matar a saudade. De outra vez, há alguns anos, meu filho, ainda no pré-escolar, me pediu uma varinha de anzol para levar para a escola no próximo dia de aula. No dia seguinte era feriado. Recorri ao Mercado Central e estava salva a pátria, pois lá funciona aos domingos e feriados até o meio-dia.

Nos últimos tempos, fui freqüentador assíduo do local, uma vez que minha saudosa namorada era encantada com tudo que ali encontrava. Comprou até semente de sucupira para eu tomar como remédio. Ela passeava comigo no meio de tanta gente e era conhecida pela Terezinha, a ascensorista, e por muitos donos e empregados de lojas, especialmente, as de queijo, que eram sua paixão. Nas últimas eleições, tanto a ascensorista como uma proprietária de banca candidataram-se a vereadoras à Câmara Municipal. A Terezinha teve uma votação surpreendente de mais de 1.500 votos, apesar de não ter se elegido.

Mercado Central: espaço histórico de BH

A freqüência ao Mercado Central transcende ao simples centro comercial. Há alguns anos, li nas colunas sociais que ali freqüentava um amigo de infância, o saudoso comendador Tamir de Souza Halabi. Também a imprensa registrava a freqüência ao local do ex jogador do Atlético, famoso na década de 60, Mário Lima, meu ex-colega de exército.

“Se levada em conta a arquitetura, o prédio fez 80 anos em 2009 e conserva pouca coisa do traçado original, mas por si só é um daqueles locais onde se apresenta como um verdadeiro shopping cultural”, escreve um comentarista.

O Mercado Central mistura tradição e memória com aspectos da vida moderna, tornando-se mais do que uma grande feira ou um centro de abastecimento: é um espaço descontraído de convívio social e de cultura. Muita gente vai lá para passear ou levar os filhos para conhecer tanta coisa. O local é uma miscelânea de arte, gastronomia, cheiros e sabores, num frenético movimento do dia a dia mineiro. E logo nas entradas são oferecidas as famosas talhadas de abacaxi de massa amarela no palito de doçura singular. A melancia também pode ser encontrada em pedaços ou talhadas. Isso gerou até uma gozação com os baixos preços dos salões de barbeiro no local, dizendo que os clientes além de cortar o cabelo ainda tinham o direito a um pedaço daquelas frutas.

“Decidido a cativar as crianças, os comerciantes do Mercado Central criaram o projeto “Consumidor do Futuro”: escolas e outras entidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte são convidadas a trazer seus alunos e funcionários ao Mercado, para conhecerem a história desse centro comercial e cultural que é parte da história de Minas. Nessas visitas, os participantes ouvem palestras ministradas por estagiários da Faculdade Estácio de Sá, assistem a um vídeo que mostra o Mercado, desde sua fundação, em 1929, e ainda passeiam, acompanhados por seguranças e guiados por estagiários do curso de Turismo”, noticia o site do Mercado Central.
Em 2009 foi realizado com sucesso a 1ª Edição do Festival Gastronômico, e o Mercado Central anuncia para Setembro/2010 a 2ª. Edição.

De um lado passou a fazer parte obrigatória dos roteiros turísticos de BH devido à grande diversidade dos produtos regionais e nacionais. Mas o outro lado da moeda precisa ser registrado. Por oportunismo abriram ali um magazine do Ricardo Eletro, rede especializada em eletrodomésticos, que certamente irá roubar os espaços, ameaçando descaracterizar o local. Também as lojas que vendem os suplementos alimentares cheios de anabolizantes e outras drogas para “emoldurar” os músculos não param de invadir o espaço. A outra reclamação de todos os que ali freqüentam é quanto aos altos preços ali praticados. Mas a explicação não é difícil, e talvez a solução também nem tanto.

Quando, em meados dos anos 60 o Mercado Central, então chamado Mercado Municipal já apresentava saturação, a prefeitura projetou o chamado “Mercado Novo” na Avenida Olegário Maciel, na mesma região. Ofereceu os terrenos de alto valor, onde ficavam as oficinas e garagem do DBO, Departamento de Bondes e Ônibus da Prefeitura.

Aí então os condôminos do “Mercado Velho”, como passou a ser chamado, reagiram, criaram uma estrutura de concreto para substituir as velhas estruturas de madeira e criaram uma estratégica área de estacionamento de veículos na cobertura, e o velho mercado passou a ocupar lugar de destaque nos pontos turísticos da Cidade.

Recentemente a revitalização da Avenida Augusto de Lima, onde ficam as entradas principais, deu um novo alento ao pessoal que ali trabalha. De uns tempos para cá, os comerciantes são bem orientados pelos modernos métodos de gestão e os dirigentes marcam presença na Cidade como a Páscoa do Mercado Central realizada, anualmente, no dia de Nossa Senhora de Fátima, 13 de maio, há muitas décadas.

Políticos pegam “carona” no sucesso do Mercado Central. Os eventos da cidade utilizam aquele símbolo para maior atração.
Lendas não faltam. No site do Mercado Central podem ser encontrados muitos causos, sendo que o da origem do jiló com fígado merece destaque, porque hoje quem entra no Mercado Central aos sábados e domingos é assediado por uma multidão de vendedores que gritam com a cerveja “estupidamente gelada” na mão e oferecem aquele prato especial.

Mercado Central: espaço histórico de BH

Para finalizar, voltando ao “fracassado” Mercado Novo, lembramos que a falta de estacionamento passou a ser o ponto fraco daquele Centro Comercial, além do projeto arquitetônico deficiente que o torna escuro e sem ventilação. Essa desvalorização fez com que a maioria dos espaços fosse usada para depósitos ou atividades de baixo valor agregado e discutível utilidade. Há alguns anos, nesta primeira década do século XXI, houve um princípio de incêndio naquele local e a Câmara Municipal foi acionada. A mídia deu uma boa cobertura, mas dada a complexidade do assunto, rapidamente tudo esvaziou.

Quem sabe se o nosso prefeito Márcio Lacerda se anima a bancar um projeto de revitalização do Mercado Novo? Fica aqui nossa sugestão.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Paulo Renato Guimarães

    Boa noite, obrigado por divulgarem o mercado central, só fico triste porque não consigo matar a saudade vendo fotos e comentários dos meus amigos que fazem parte da verdadeira história do mercado. Sou filho de Eugênio Cirilo da Silva, o qual foi um dos fundadores do mercado. sei que hoje está tudo mudado, infelizmente não é mais aquela grande família, como era antes daquele incêndio quando as lojas eram de madeira e os fretes eram feitos por carroças e as éguas e cavalos chupavam abacaxi nas horas de folga, que saudade. Por favor, façam comentários sobre; João Pureza, Luiz do balaio, Peroba raizeiro com seu filho Totó, o sr. Augusto da umbanda com dna. Alda, o sr.Carlos e filha Lídia, O sr. Paulo do Espírito Santo Andrade, o Sr. Olímpio Marteleto, o Sr. Aguiar os irmãos Ari e o Zi do restaurante, o sr. Orlando do passarinho, o Deuclides do abacaxi e o Pelé, e o Mala e o Juquinha da pimenta e o Antônio dos côcos, e o Pereira do estacionamento? por favor conte a história destas pessoas e verdadeiramente o mundo vai conhecer o mercado. Fui nascido e criado na Alumínios e ferragens Nova Esperança. Moro no Rio de Janeiro há 20 anos e a saudade é muito grande, sô!

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