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Medicina popular e curandeirismo – parte I

Publicado por Sebastião Verly em Curandeirismo, Plantas Medicinais, Xamanismo
data: 23/02/2018

medicina popular

Na Medicina Popular, diferente da Medicina considerada Científica, o indivíduo que vai ser tratado é analisado sob dois aspectos básicos: a saúde de seu corpo e a de seu espírito. Pois, muitas vezes, acredita-se, a pessoa não está com uma doença do corpo e sim uma doença espiritual, como o “mau-olhado”, doença onde a pessoa fica abatida, sem ânimo, provocada pela inveja de outra pessoa.

Muitas vezes as curas são ligadas a um universo religioso onde se busca a explicação do fenômeno e, então o tratamento sempre obedece a um ritual, no qual são observadas as fases da lua, a posição da raiz com relação ao sol, as estações do ano e outros segredos. Em algumas situações utilizam-se rezas visando a cura do corpo e também do espírito enfermo.

A medicina popular é empregada para curar restaurar a saúde e até para estancar sangue numa ferida, nos casos de engasgos, dores diversas, eliminar vermes e ainda muitas outras aplicações.

Na prática, a Medicina Popular utiliza várias fontes para tratar a pessoa que está doente: são plantas, animais, rezas ou simpatias. Em alguns casos, estas três formas podem ser empregadas juntas, como é o caso das rezadeiras ou benzedeiras que utilizam plantas para realizar as orações nas pessoas doentes. Um dos ramos usados por quase todas as benzedeiras é o de arruda. Aconselha-se a usar um galhinho atrás da orelha para evitar inveja e mau olhado.

Todos os povos da humanidade tiveram no início de sua existência grandes privações e duras necessidades. O abrigo, alimentação, o vestuário e os remédios sempre foram carências e privações primordiais e as necessidades que mais exigiam ocupações de pessoas providas de curiosidades. Em nossa cultura sempre existiram costumes, crenças e tradições rudimentares que representam vestígios de épocas imemoriais que foram se aprimorando, como conhecimentos formais, científicos, pedagógicos, etc. Registra-se a permanência da farmácia caseira ou popular com seu universo de conhecimentos, crenças mitos, ritos, agouros e superstições para cuidar da saúde.

Os primeiros recursos para a saúde humana nasceram justamente nos conhecimentos de pessoas simples e até rudes que na luta pela sobrevivência foram buscar a cura nos seres que os circundavam: os vegetais. E como obtiveram bons resultados, devolveram suas observações e foram levados a criar uma prática médica, para conhecer e distinguir os fármacos, ou o que lhes era útil nos vegetais.

Dado o primeiro passo da pesquisa, o gênio inventivo de cada um foi sendo transmitido de geração em geração com observações acumuladas, que foram aperfeiçoando e alargando o campo do conhecimento da saúde humana e dos recursos para restaurá-la.

A Medicina Popular no Brasil é uma prática muito antiga, bem antes dos primeiros portugueses aqui chegarem já era praticada e muito bem conhecida pelo Índios, daí que seu conhecimento e prática serem tão bem apurados por eles. O conhecimento indígena também contribuiu para a utilização da grande maioria das plantas como medicamentos. São várias as maneiras de utilizá-las, em chás, garrafadas, xaropes, cheiros e defumadores, em banhos e em banhas.

Grande número de pessoas de pequenas comunidades do interior do Brasil conhece e usa as plantas medicinais, são conhecimentos sempre transmitidos dentro de uma família, especialmente entre as mulheres. Eu mesmo tive uma muito querida tia, Tia Ciata, que fazia benzeções de eficiência testemunhada por amigas e filhas que ainda estão vivas. Em Pompéu, a Maroca, viúva do Mathias, era muito procurada e eu mesmo levei meu filho para ela benzer quando a medicina chamada científica não conseguia recuperar-lhe a saúde.

Há alguns anos, num período que passei por certa desorientação, recomendado pelo lendário sociólogo Alaor Passos, fui a Buritis, cidade mineira quase na divisa com Brasília consultar o Juquinha Benzedor. O Alaor, quando voltou do exílio no Chile, comprou um jipe velho e rodou o Brasil de Norte a Sul, afundando em tudo quanto é grota, assim conheceu o Juquinha.
Só para não perder a oportunidade, abro um parênteses para dizer que o Alaor, ao me recomendar o Juquinha, tão longínquo, mencionou que este havia ajudado o Fernando Henrique Cardoso num momento que passava por grande desorientação, fazendo uso de alucinógenos escapistas. Alaor ficou muito amigo de seu colega de profissão no Chile e me dizia que ao visitar o Juquinha, FHC se encantou com o lugar, onde veio a comprar uma fazenda, que usava muito quando estava na presidência.

Voltando para o Juquinha, durante a visita fiquei sabendo que era nascido em Pompéu, portanto meu conterrâneo, e falamos horas e horas sobre o Abdon, pompeano que vivia de benzer fazendas, gado e pessoas, sempre usando paletó cáqui e chapéu cinza. O Abdon, por ser zarolho e ter um nariz muito adunco e os olhos fundos, morando sempre em casas arruinadas, fazia bem o tipo de feiticeiro. Já o Juquinha estava mais para Xamã, morava em uma casa muito boa e vivia das doações espontâneas que seus clientes deixavam numa caixa colocada próximo à porta de saída para esse propósito. Em sua casa havia uma mulher bem mais nova que ele que imagino ser sua esposa. Não se pode dizer de maneira nenhuma que explorava, mas era um bon vivant convicto.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Sebastião Verly

    Senhor Editor, agradeço o incentivo enorme com a publicação de meus artigos. Para uma nova palestra em 2018, pretendo melhorar e acrescentar comentários de amigos.

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