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Logística Reversa: é dando que se recebe!

Publicado por Sebastião Verly em Residuos Sólidos e Saneamento
data: 22/09/2011

O título não é nada original. E a logística reversa também é coisa antiga. Ainda haverá quem se lembre dos tempos que tinha que levar o casco, a garrafa vazia, para se comprar o leite, a cerveja ou o refrigerante. A logística reversa é a área da logística que trata, genericamente, do fluxo físico de produtos, embalagens ou outros materiais, reversamente, desde o ponto de consumo final até o local de origem.

O objetivo da Lei Federal 12.305 que está regulamentando este assunto no Brasil é tornar acessível e prático o retorno dos materiais espalhados incessante e insensatamente pelo país, como o são pelo mundo inteiro, para que sejam reciclados e reaproveitados, evitando a produção de lixo e a poluição.

O princípio lógico é que o produtor da embalagem deve ser responsabilizado por sua reciclagem. Quem espalha embalagens e produtos por toda parte, se necessário deverá recolher seus restos de volta. Isso certamente irá obrigá-los a produzir embalagens mais fáceis de serem recicladas.

As grandes empresas aprimoraram as formas de levar seus produtos a todos os rincões do mundo a partir de suas fábricas e pontos de distribuição. E usam um conceito moderno para rotular esse complexo processo: LOGISTICA OPERACIONAL.

Hoje é certo que em lugares remotos como a Reserva Indígena Iuaretê, Amazônia, Taoudeni, Saara, Sunzhenskiy, Cáucaso, ou nas margens do Rio Citarum, na ilha de Java, na Indonésia, foto acima, no mais recôndito buteco de beira de estrada de terra você pode tomar um desses refrigerantes “universais” ou comprar uma bateria de rádio, e ali mesmo descartar a embalagem vazia ou o produto, contaminando o ambiente.

As grandes distribuidoras levam suas embalagens de plástico, vidro ou metal e mistas de papel e outros materiais, o que, pelo fato de não haver retorno, possibilita-lhes cobrar um preço irrisório. Não gastam um centavo sequer com o recolhimento dos vasilhames.

O pobre índio, beduíno, camponês ou barqueiro ingenuamente e sem alternativas para matar a sede e até para enganar a fome, fica obrigado a receber embalagens que levarão anos juntando larvas de mosquito, sujeira e podridão pelos campos e nascentes outrora cristalinas e saudáveis.

E tudo parece ser assim mesmo. O que há de se fazer? Alguns, mais simplórios, chegarão a dizer que isso é progresso. Os resíduos deixados pelo consumo de líquidos e sólidos trazidos tão bem acondicionados pelos caminhões de entrega emporcalham o mundo. O capitalista voraz não sente piedade, e no futuro… estaremos todos mortos! Para os executivos dessas empresas globais o que importa é o resultado financeiro, o lucro imediato. Uma única empresa embaladora de um desses xaropes vale, só pela marca, 50 bilhões de dólares!

Durante décadas, o poder público gastou muito dinheiro para limpar uma pequena parte desses resíduos e, mais recentemente, para sensibilizar e envolver a população numa nova atitude e comportamento que chamou de “coleta seletiva”. O poder público aplica também recursos para identificar e apoiar milhões de pessoas que vivem do trabalho de recolher uma ínfima parcela dos materiais recicláveis, mas seus ganhos são também ínfimos, o que não lhes permite uma vida minimamente digna. São geralmente moradores de rua das grandes cidades, ou pessoas que moram em casebres no entorno de pequenas cidades. Esses trabalhadores aos poucos se unem para recolher, triar e comercializar os materiais recicláveis pelos preços que lhes impõe o mercado competitivo.

Hoje uma boa parte da população já tem consciência de que os materiais recicláveis devem retornar à cadeia produtiva. Mas, sabe também que é caro, trabalhoso e complexo executar este retorno.

Milhões de catadores dos grandes centros se organizam com muito custo e esforços em cooperativas e associações para recolher e/ou apenas triar o que conseguem dessa enorme quantidade de materiais descartados. As prefeituras investem somas consideráveis nessa coleta especial. Algumas grandes cidades, como Belo Horizonte, colocam caminhões – uma vez por semana – para coletar de porta em porta os materiais recicláveis. A maioria é constituída de garrafas PET, sigla do politereftalato de etileno, plásticos em geral, papel e vidro. A prática e conseqüente legislação mostram que os fabricantes e intermediários desses produtos devem arcar com os custos do recolhimento de tantos materiais recicláveis espalhados pelo planeta.

A Secretaria de Planejamento da Prefeitura de Belo Horizonte firmou acordo com seus fornecedores de lâmpadas fluorescentes para que os mesmos recolham as lâmpadas usadas. Simples, não? Basta que os órgãos públicos e as grandes empresas firmem esse acordo e um dos mais sérios problemas, que é este das lâmpadas, estará resolvido.

Muito mais simples do que elaborar complicados planejamentos estratégicos, táticos e operacionais, é aproveitar essa idéia simples de coletar semanalmente esses materiais, entregá-los aos “catadores”, para que estes, depois de triá-los e enfardá-los, possam receber um pagamento digno pelo serviço prestado.

Algumas empresas, que ainda há pouco negavam suas responsabilidades, já antecipam as obrigações em recolher suas embalagens e até apóiam os trabalhadores que recolhem os recicláveis. E o fazem com grande alarde na mídia gerando um marketing espontâneo muito eficiente e barato, tendo em vista os bilhões que investem em campanhas publicitárias. Este é caso da Coca Cola em parceria com os trabalhadores da cooperativa dos Catadores de Gramacho, município de Duque de Caxias, foto abaixo, no Rio de Janeiro, divulgado exaustivamente na mídia.

Iniciativas pontuais indicam que este pode ser o caminho mais fácil: apoiar financeiramente ou contratar os serviços das cooperativas já existentes para recolher tudo que é espalhado pelo mundo afora, por grandes grupos produtores, embaladores e distribuidores.

As cooperativas de catadores e triadores organizam-se cada dia melhor. Agora chegou a hora das grandes empresas integrarem-se ao sistema, financiar a coleta e ampliar as formas e procedimentos de realizar o caminho de volta dos materiais: a LOGISTICA REVERSA.

E as empresas que saírem na frente podem até ganhar mais dinheiro com o aumento das vendas e conquista da simpatia da população. Como dizia São Francisco de Assis: “É dando que se recebe!”

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
3 Comentários
  1. Fernando Alan

    Caro Amigo Tião,

    Excelente seu texto. Vou divulgá-lo para minha rede de amigos.

    Abraço

    Fernando Alan

    • Sebastião Verly

      Prezado amigo Fernando,
      Fico feliz quando você lê meus textos. É um dos poucos amigos que comentam.
      Sugiro o artigo anterior que o Milton deu o título de Hamurabi que é o que eu mais gosto.
      Esta questão da Logistica Reversa exige ler a Lei 12.305 e o decreto 7.404 que a regulamenta e entrar em contato com todo tipo de empresário da cidade para fazer acordos para a reversão dos materiais gerados.
      Já pensou todos os comerciantes de Pompéu organizando a coleta seletiva com seus recrusos?
      Vamos lá grande Fernando.
      Muito obrigado. Meu abraço

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