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Histórias que meu pai contava

Publicado por Sebastião Verly em Memórias
data: 10/04/2014

Meu pai era um exímio contador de histórias. Narrava com segurança e tranquilidade as histórias do mundo inteiro. E agia com uma sensibilidade como poucos. Eu e meu irmão mais velho ainda estamos vivos e temos outros três mais novos, do que ainda resta daquela prole numerosa de 34 irmãos, acreditem se quiserem.

Aquele nosso velho tão querido, ninguém sabe de onde tirava uma história para cada noite para nos servir de diversão e exemplo.

Convoquei uma reunião na minha casa, com meus irmãos, meu filho, meus sobrinhos e até uma sobrinha neta que tinha uma vontade danada de tê-lo conhecido.

A proposta é resgatar um pouco do tanto de histórias que ele nos contava e até selecionar as melhores. O que me fascinava é que ele era completamente analfabeto e eu queria saber de onde ele tirava tantas fantasias que nos encantavam nos anos de infância e até hoje ainda nos levam a viajar na imaginação livre, leve e solta.

Recordo-me para começar do momento simples, mas que para mim foi mágico, quando ele nos ensinou a fazer uma jangada. Primeiro, fizemos a mais pobre, de troncos de bananeira atravessados com três varas de bambu.

Logo a seguir ele cortou 12 mastros de piteira bem sequinhos, aparou-os no tamanho de dois metros – mais ou menos – e chegou a vez de escolher o bambu para tirar os melhores para a junção das levíssimas toras de piteira. Meu pai mostrava-nos que os bambus mais fortes, eram aqueles que ao invés de se encherem apenas, mostravam uma cor verde-amarelada e uma maior consistência material.

Com um chanfrado pontiagudo forçávamos a ultrapassagem de todos troncos da piteira, para depois serrar os bambus bem rentes para maior segurança.

O remo, melhor para a jangada são as próprias mãos. Mas, para nos ajudar, ele nos ensinou a lavrar um pedaço de um velho pranchão que ele insistia em chamar de pranchão, para tornar bem mais fácil do jeito de manejar o “equipamento” e forçar a partida da nossa nau de marinheiros de primeira viagem.

O primeiro teste era feito ali no fundo do nosso quintal, onde eu e meu irmão abrimos um rego que ligava ao córrego, independente da vazão comum nos tempos de chuvas.

Horas passávamos indo de um lado para outro na lagoa artificial.

Treinávamos bastante e todos os dias, inspirados nas viagens que meu pai promovia todas as noites.

As chuvas começavam e aí sim, a lagoinha se estendia por todo o pasto de capim angola que inundava rapidamente e ali permaneciam com aquela água barrenta que não baixava tão cedo.

Meu pai, com uma vara comprida do bambuzeiro ou bambuzal, mostrava-nos como as enchentes arrastavam o terreno solto, aquele areal comum durante a seca e deixava todo o leito mais profundo.

Por um lado, dizia ele, era muito mais perigoso nadar e mergulhar naquelas águas profundas e bem mais velozes, por outro, era um bom momento para usar nossa jangada, dia e noite como ele sempre fazia em sua obstinação.

Durante o dia, ele nos alertava ao passar por baixo dos arames das cercas vizinhas e lembrava-nos sempre de andar com o mínimo de coisas sobre a embarcação.

A noite, as viagens eram longas, meu pai nunca respeitava nem propriedades, nem limites geográficos e chegava a invadir outras cidades, estados e até países. E durante essas lindas viagens, ao contrário, ele nos autorizava a levar tantas e tantas coisas, além de utensílios que ele mesmo criava e comida quase sempre preparada pela mamãe. Minha preferida era a paçoca de carne guardada numa sacola também chamada capanga ou embornal de brim que minhas irmãs costuravam.

De hoje, até o dia de minha partida, quero contar com detalhes, lembranças e relembranças que se corrigirão no próprio escrever as narrativas e aqui deixarei para meu filho o dever de continuar a viagem de meu pai.

Peço licença para fazer como aquele meu velho dervixe interiorano e contar-lhe a cada dia um pouco das aventuras que ele nos estimulou a realizar com muito entusiasmo, coragem e ousadia. Se não servir agora pode formar o livro que tanto sonho escrever e de hoje até 27 de janeiro de 2016, quando terei terminado as Mil e uma noites.

Até amanhã…

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
2 Comentários
  1. Edméia Faria

    Sebastião Verly, eu também participei das grandes navegações em jangada de pita (que meu irmão fazia). O nosso remo era feito da folha verde da própria pita. Quando for navegar de novo, experimente! Ah, as folhas de pita eram também o nosso facebook de hoje,(risos) onde deixávamos recados e escrevíamos versos.Você também fazia isso? Saudade. Ainda tem pita em Pompéu? Continue sua navegação! Com o meu abraço. Boa viagem!

  2. Edna Ferreira de Oliveira

    Que coisa boa era ouvi as histórias dos pais. Meu pai também adorava contar histórias e interessante que ele além de contador de histórias, era também artista. Nas histórias que contava, fazia também as coreografias. Gostava tanto de encenar que criou um cinema. Os filmes eram exibidos de trás de um lençol branco dentro do banheiro iluminado. Meus irmãos, minha mãe e eu ficávamos no escuro sentados nos banquinhos no outro cômodo da nossa singela casa. Meu pai criava a história, imitava as vozes e os personagens eram feitos de recortes de cartolina, papelão, o que tivesse. Era como estar em um shopping hoje. Adoro poder compartilhar lembranças dessa época. É gratificante! Que saudade!

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