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Folia de Reis

Publicado por Sebastião Verly em Datas Especiais
data: 05/01/2011

Folia de Reis é um festejo de origem portuguesa ligado às comemorações do culto católico do Natal, trazido para o Brasil ainda nos primórdios da formação da identidade cultural brasileira, e que ainda hoje se mantém vivo nas manifestações folclóricas de muitas regiões do país. As variações são muitas, diferentes até mesmo numa única localidade. É uma das festas mais animadas que mistura folclore, cultura e religião tem seu início no dia 24 de dezembro, véspera de Natal, prosseguindo até o dia 2 de fevereiro, sendo que na maioria das regiões encerra-se em 6 de janeiro, o dia de Reis consagrado aos três Reis Magos: Melchior, Baltazar e Gaspar.

Folia de Reis é tanto o nome da festa quanto o nome do conjunto de pessoas que compõe o cortejo. A Folia de Reis é composta por músicos tocando instrumentos, em sua maioria de confecção caseira e artesanal, como tambores (caixa), reco-reco, flauta e rabeca (espécie de violino rústico), cavaquinho, pandeiro, chocalho, triângulo, além da tradicional viola caipira e do acordeon, também conhecida em certas regiões como sanfona, gaita ou pé-de-bode.

Os personagens que compõem a folia somam em geral doze pessoas, todas trajando roupas bastante coloridas, sendo que dentre elas estão o mestre e contra-mestre, donos de conhecimentos sobre a manifestação e líderes dos foliões; além do palhaço, dos foliões e dos três reis magos.

Os foliões, geralmente homens simples e de origem rural ou interiorana, são os participantes da festa, dando exemplo grandioso através de sua cantoria de fé. Os foliões cumprem promessa de, por sete anos consecutivos, saírem com a Folia. Diz a lenda que quem não cumprir esses sete anos será castigado, e, geralmente, morre no fim do período que deveria cumprir.

Além dos músicos instrumentistas e cantores, o grupo muitas vezes contempla lendas e tradições regionais ou locais, com figuras folclóricas devidamente caracterizadas. Todos se organizam sob a liderança do Capitão da Folia, título este que também varia de acordo com a região, e seguem com reverência os passos da bandeira, cumprindo rituais tradicionais de inquestionável beleza e riqueza cultural.

Há uma organização das vozes em tons e contratons, durante a cantoria, o que leva a formação de um coro muito agradável aos ouvidos, mesmo que muitas vezes constituído de sons ininteligíveis. Os pedidos para serem recebidos e para receberem a esmola e a despedida são feitos nas musicas tiradas a frente de cada casa. A coordenação tem nomes diferentes em diferentes regiões. Em algumas, o Mestre, por sua vez, tem papel especial de iniciar o canto, que é feito em versos e de improviso, pedindo e agradecendo os donativos da casa visitada. Os outros componentes então repetem os versos, cada qual em sua voz, na cadência definida pelo Mestre, acompanhados pelos instrumentos que portam.

As canções são sempre sobre temas religiosos, com exceção daquelas tocadas nas tradicionais paradas para jantares, almoços ou repouso dos foliões, onde acontecem animadas festas com cantorias e danças típicas regionais, como catira, moda de viola e cateretê. Na minha infância cheguei a presenciar algumas apresentações de um tosco lundu incluído nas danças mostradas nas casas que os recebiam.

Ao som dos instrumentos musicais os foliões efetuam longas caminhadas levando a “bandeira”, um estandarte feito de madeira, pano e até de papelão ornado com motivos religiosos, à qual tributam especial respeito. A bandeira segue á frente, que ganhou estrofe em música popular

O propósito da folia não é o de levar presentes como a cultura atribui aos Três Reis Magos, mas de recebê-los (comida, bebida e esmolas) do dono da casa para finalidades filantrópicas, exceto, obviamente, as fartas mesas dos jantares e as bebidas que são oferecidas aos foliões e devoradas ali mesmo.

Em nossa casa e em alguns vizinhos, servíamos um lanche para o pessoal e dávamos uns trocados parta ajudar. Mas, o interessante mesmo era no dia seguinte ao que a folia de reis passava por ali, quando tentávamos repetir, a nosso modo, aquela manifestação coreográfica e religiosa. Conseguíamos algumas tintas e pintávamos rudes mascaras que fazíamos com as tampas das caixas de sapato. Arranjávamos algumas varas ou cabos de vassouras aos quais pregávamos algumas tampinhas de garrafa amassadas. Dançávamos desajeitadamente e praticávamos um cateretê exageradamente fajuto. Imitávamos também uma batida de bastões que mais se assemelhavam ao maculelê. Durante dois ou três dias das nossas férias, virávamos foliões e vivíamos a mais pura alegria. Era verdadeiramente um folia, ou melhor, fulia com u mesmo. Quanto à musica, nos prendíamos a uma simplificação que dizia mais ou menos:

“Olé de casa, olé de fora, oi quem nesta casa mora.

Santos Reis pede esmola mas não é por precisão.

Santos Reis pede esmola pra ver quem dá de bom coração.”

Fico com uma vontade doida de levar meu filho a Bocaiúva para conhecer uma autêntica festa que quando é original tem uma rara beleza e que foi uma das minhas alegrias na infância. Mas tenho medo de que com a intervenção dos poderes públicos, mais os intelectuais e promotores de eventos esta festa tenha se tornado muito cheia de artifícios com a finalidade de promover apresentações para turistas.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
2 Comentários
  1. Muito bom artigo, gostei mesmo. Lendo esta infomação me dá alegria e vontade de sair promovendo esta tradição. Infelizmente não vou ver este acontecimento pois vivo em Lima-Perú e aqui nossa embaixada está muito longe de promover a cultura brasileira em suas principais festas.
    De toda maneira sigam em frente e parabéns pelo trabalho!

    Edson, Lima-Perú

    • verly

      Fico feliz que você tenha gostado. E achei excelente o toque para que as embaixadas brasileiras promovam um pouco da cultura imaterial e também a material que ´pe mais fácil em todos países que tanto admiram nossas festas e nosso festar.
      Ainda hoje estava no Mercado Central em BH e vi o tanto de coisa que os estrangeiros compram aqui para mostrar la: castanha de caju, do pará, pé de moleque, paçoquinha, cachaça, pó de urucum e um tanto de outras coisas que também nós curtimos aqui.

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