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Festas Juninas

Publicado por Sebastião Verly em Datas Especiais
data: 21/07/2010

A festa junina é uma dessas doces lembranças de minha infância. Na cidade de Pompéu, onde vivi até a adolescência, ainda não havia a dança da quadrilha, e só mais tarde agregaram-se as roupas dos falsos “caipiras”, as chitas bem regateiras para as moças e as calças remendadas e chapéus de palha esgarçado para os rapazes.  A festa começava cedo permitindo a presença de crianças e jovens que se encantavam com a festança e encantavam o ambiente com suas presenças. A quadrilha, dançada por casais ao som da sanfona ou acordeon, sempre me encantou por poder dar uma dançadinha com todas as outras damas, além da minha, é claro. O “marcador” anima a dança com comandos em francês, “en arrière”, “en avant”, “tour”, e português, “caminho da roça”, “olha a chuva”, “é mentira”, “vôa andorinha”, “voa gavião”, e eu considero uma das mais espontâneas e alegres festas brasileiras.

O Casamento na Roça passou a ser um dos principais eventos das festas juninas. A história do Casamento na Roça, com todas as suas variações é sempre a mesma; a noiva grávida é obrigada pelos pais a casar com o namorado que lhe “fez mal”. O noivo por sua vez, tem uma outra namorada ou então é pai de outras crianças. Com tudo isso, nega-se a casar, mas o pai da moça com a ajuda do delegado obriga-o a enfrentar o casamento. No final, tudo dá certo, o casório é realizado e todos saem para dançar a quadrilha.  A dança de quadrilha nada mais é que a comemoração através de um casamento. Em algumas ocasiões os personagens exageravam na tentativa de se fazerem mais engraçados e às vezes acrescentam piadas apimentadas demais para o tipo de festa. 

É a época mais fria do ano, ideal para as fogueiras. Lá no terreiro, a fogueira era acesa, ainda cedo da noite. Grandes troncos colocados na base ardiam em brasas até a madrugada. Havia até uns marmanjos que ameaçavam, poucos arriscavam de fato, a pular a fogueira. Era abusar demais. Um dos costumes era colocar batatas doces para assar na brasa que ardia por baixo. Muitas vezes, pela manhã, os restos da fogueira ainda soltavam fumaça. Era uma festa boa demais. E parece que está cada dia melhor.

Na cozinha, em cima da fornalha ou fogão de lenha, uma ou mais panelas secavam o leite da canjica que a cada momento ficava mais grossa e mais saborosa. E muita gente abusava. Havia canjica para todo mundo. Numa próxima crônica revelarei alguns segredos sobre a preparação da canjica e suas variações no nordeste e no sudeste do Brasil.

As moças casadoiras aproveitavam a ocasião para fazer pedidos e realizar as mais variadas crendices. A maior parte dessas simpatias ou crendices, contava com uma bacia d’água e brasas da fogueira. Acreditava-se que se jogasse uma brasa viva na água da bacia, era possível ver a letra inicial do futuro noivo.

Dependendo da organização muitas brincadeiras são feitas durante a festa: correio elegante, pau de sebo, corrida do ovo na colher, corrida do saci, corrida do saco, quebra pote e tantos outros.

Para completar, corria uma grande vasilha de quentão, bebida quente, como o nome indica, feita de cachaça, canela, cravo, gengibre e uma pitada e açúcar. Muito gostoso e animador, mas um perigo pra botar cada um tonto demais.

Fogueira, canjica, quentão, caldos, dança e rezas se misturavam. Hoje creio que a reza anda meio em desuso. E a festa, em todo o Brasil, esquentava e ainda esquenta os ânimos por dentro e por fora. No nordeste brasileiro, o dia de São João é tão festejado como o Natal no resto do país. É comum as pessoas trocarem cartões de “Feliz São João”. Em Campina Grande, Paraíba temos o que é chamado o Maior São João do Mundo. E ao contrário do restante do Brasil onde as férias escolares do meio do ano são em julho, no nordeste elas são em junho, para permitir estas comemorações. Talvez o motivo de tudo isto seja a celebração do único mês realmente frio naquela ensolarada região, o único em que é possível acender uma boa fogueira.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
3 Comentários
  1. Caro Tião,
    Li seu artigo pela segunda vez. Agora com mais calma e tentando lembrar-me dos detalhes das festas juninas de Pompéu. Lembrei-me então que o “marcador” da quadrilha, era o prefeito “Zezé Furdinho” ou “Fordinho”, ex-gerente do Banco de Minas e que embora se chamasse José Carvalho Vasconcelos — “importado” da vizinha Pitangui — ganhou este apelido por usar um par de óculos com uma armação escura, muito grossa, que, segundo os autores do apelido, se assemelhava aos faróis dos antigos carros “Ford 29″. E todos vestiam a caráter.
    Você diz que essas festas continuam cada vez melhores. Mas, por aqui, em nossa Pompéu, acho que não existem mais, há muito tempo. Pelo menos, nem ouço mais falarem delas. Ler seu artigo fez-me, mais uma vez, como sempre sói acontecer, voltar no tempo e relembrar os bons momentos de nossa Pompéu, o quê me traz grande prazer.
    Um abraço,
    Carlos

  2. Almerinda

    Que informação, maravilhosa, como professora de cultura Hispânica, simplesmente somente tenho a dizer-lhes parabéns.
    Muy bién iso me gusta, aquisisión de otros idiomas, por médios de la cultura locale. Me he encantado. hasta la otra vece.

  3. Sebastião Verly

    BUSCO NA MEMÓRIAS NOSSAS LEMBRANÇAS, MUITO MAIS DO QUE POR VAIDADE PARA PRESERVAR OS VALORES REAIS.
    AGRADEÇO MUITO SEU COMENTÁRIO.

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