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Ester

Publicado por Sebastião Verly em Crônicas, Memórias
data: 01/12/2009

Em 1981, quando faleceu sua esposa, Maria Tereza, com quem viveu durante 64 anos e teve 7 filhos, Alceu Amoroso Lima, o grande mestre Tristão de Athayde, em lugar de tecer um rosário de penas, escreveu uma linda crônica onde esclareceu que quando a pessoa querida se vai, após a sua proficiente passagem aqui na terra, esse ente querido continua presente em nossa vida.  Continua porque a vibrante energia que chamamos de “vida” flui por todo o universo para sempre. A constância dessa energia faz com que as pessoas a quem amamos permaneçam eternamente conosco. Este é mais um mistério que presenciamos em nossa transitória passagem pela terra. As pessoas a quem amamos são seres humanos especiais, gente preciosa e querida, a quem contemplamos com toda nossa ternura e o fazemos apenas pelo prazer e pelo bem que o fato de amá-las nos proporciona.

Lembro-me hoje de nossa amada Ester que partiu no dia 23 de novembro de 2009. Em vida, a sua presença pura e simples, nos ajudou a enfrentar desafios grandes e pequenos e nos deu força e confiança para levar adiante os nossos grandes projetos e concluir empreitadas de todos os portes. Sim, falo no plural porque Ester ajudava a muita gente. Doravante, todas as vezes que assumirmos uma nova tarefa desafiadora ou uma ousada aventura, logo sentiremos o conforto de sua presença oferecendo-nos o seu inestimável apoio.

Ester renascerá – tão viva como dantes – em momentos significativos de nossa existência e, mesmo com uma saudade imensa, gozaremos a alegria de tê-la de volta em nossos corações, espírito e mente, para estimular grandes jornadas e apreciar nossas realizações. A cada lembrança de seus exemplos de vida e da nossa agradável convivência, Ester retorna tão pura como sempre a quisemos, trazendo a ternura que nela imaginamos e a fé que nela depositamos.

Reservaremos um tempo, em nosso santuário íntimo e em templos sagrados, para que juntos com aqueles que continuam a caminhada aqui na terra, possamos reverenciar a memória de Ester, que se foi tão cedo. Às pessoas a quem amamos e a quem de verdade nos ama, orgulhosamente, apresentamos a nossa escolha inteligente de manter conosco para sempre, essa maravilhosa Ester, deixando a sua contribuição em amor, outro tanto em conhecimento e toda espécie de bons exemplos, reunidos num aprendizado que nos comprometemos disseminar e juramos enaltecer ainda mais. São momentos de contemplação entre almas em que aprofundamos nossos sentimentos, recordando só o que houve de bom, reconhecendo essa capacidade do amor recíproco que sempre traz o tácito perdão que mutuamente nos concedemos.

É fundamental crermos em uma suprema deidade de nossa crença ou religião, que permite essa magia e mantém esse mistério: a ressurreição da Ester e a perpetuação da sua vida em toda a sua beleza, força e luta. Essa pessoa tão importante para nós durante a vida, pela força do amor, ressurge agora integralmente, renovando em sua inteireza seus bons ensinamentos. Reavivam os grandes valores que se tornaram parte de nossa vida, todos os bons sentimentos cultivados em nossos corações e até sua beleza física e alegria de sempre se refazem presentes agora. Ester se retira para nos dar o prazer e o direito da autonomia. Aprenderemos a viver com nossos recursos e caminhar com nossas pernas.

Seu legado é a crença de que a nossa missão mais importante se resume em praticar o bem, disseminando o amor por toda parte, para que, depois da nossa vida, também nós tenhamos um período de descanso – como o sono – no qual a nossa essência restaura suas energias e se prepara para um novo ciclo. Nós, seres efêmeros, descobrimos com nossa querida Ester que é esse amor que faz a eternidade presente no Universo, e que as vidas ungidas pelos laços do amor criam o eterno retorno.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Muito significativo o testemunho do autor. É precioso carregarmos a certeza de que aquele que nos deixa a inevitável dor da ausência, permanece presente não só na memória mas de fato. É nesta certeza que repousa a imensa benção dos laços de amor que cultivamos na vida.

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