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Bar do Portuga – III

Publicado por Sebastião Verly em Crônicas Culturais, Memórias
data: 07/02/2018

bar do portuga iii

Com passos curtos, chegou, pediu a pinga e sentou-se a espera de audiência.

Daí a minutos chega um cidadão pede uma cerveja estupidamente gelada e é convidado a compartilhar, dividir a mesa e ouvir seus causos.

Começou a explicar algumas palavras pertinentes ao que ia contar e que caíram em desuso. Lembrou dos seus tempos de mais jovem e da prostituição.

Engrenou conversa: – As prostitutas da capital vinham do interior. Muitas delas “defloradas” pelo namorado que depois se negava a casar, ou pelos parentes com boa proximidade. A família, principalmente o pai, nunca perdoava o deslize moral.

Vinham para a capital com uma velha mala daquelas de papelão imitando couro, com umas roupinhas pobres, algumas desbotadas e, mesmo as peças íntimas, puídas e descosturadas.

Desciam na Rodoviária e parece que estava escrito na testa da mocinha a que tinha vindo. Logo aparecia um gigolô, que faz pequenos préstimos para conseguir ficar com a mulher uma ou duas vezes. A conversa demorava um pouco para ganhar confiança. Depois de cinco dez minutos de prosa, já pareciam íntimos.

O cara pegava de leve no cotovelo da menina e caminhavam para uma pensão de mulheres mais perto ali da rodoviária, um daqueles pardieiros de dar medo.

Apresentava a menina com os maiores fingimentos e mentiras por demais conhecidas da cafetina que a alojava num quartinho com cama e um guarda roupa de compensado empoeirado e caindo aos pedaços. Já ia mostrando o caminho para o banheiro com sanitário, chuveiro e lavatório.

No outro dia era certa a visita do gigolozinho.

Depois de alguns dias, ainda meio assustada, aprendia a cantar os ‘fregueses” presentes com o famoso “vamos fazer amor?” e “apanhava a chave”, lá ia para o quarto de entrar e sair, sob a supervisão cerrada da “gerência”. Freguês era o termo usado e era a maneira de classificar a pessoa que estava ali interessada.

Com mais algum tempo, nas horas do dia em que havia muito pouco movimento na casa, a moça, que havia chegado tímida do interior, saia ali por perto, ia se aventurando mais, e com um pouco da malicia aprendida, trazia fregueses que aliciava nas redondezas. Nessas saídas descobria que na Capital havia casas de mulheres, conhecidas na época como Rendevous, ou simplesmente Redevus. Lá se ganhava mais dinheiro. Os fregueses eram em maior número, mais ricos, pagavam melhor!

Ai, a aprendiz já havia comprado umas pecinhas mais sensuais sob a orientação das colegas mais antigas e no velho guarda roupa ia trocando as roupinhas de menina pobre que trouxe do interior por peças provocantes.

Com as informações dadas por um senhor que ela abordou na rua, soube do endereço de duas casas famosas. O informante deu-lhe a dica: com a dona, você fala que é novata, que foi deflorada recente pelo namorado e acaba de chegar do interior. As donas dos Rendevous têm muitos fregueses doidos com esse tipo de mulher que são anunciadas como … Novidade!

Na chegada ao Rendevous de luxo era feita uma triagem completa. De onde veio, nome verdadeiro, idade comprovada pelo documento de identidade, Saúde!, quando havia dúvida era mandada ao posto de saúde conseguir um atestado, para demonstrar o Zelo da casa de clientes de Alto Padrão!

Dali em diante, abolia o nome Belchiolina que trouxe de casa e passava a usar o nome de guerra: “Evita”, foi um nome de época!

O quarto que deveria ser pago no primeiro dia do mês, a dona do Rendevous concedia a permissão de esperar os primeiros michês, o termo usado para se referir à entrada e saída do freguês.

Nos primeiros dias, a preferência era estimulada pela Proprietária com um cochicho ao pé do ouvido e uma piscadela aos fregueses habituais. Para aumentar o desejo masculino, justo na entrada para o quarto entregava a “Evita”, um pote de vaselina, sussurrando “se precisar, use”, afinal era … Novidade!

Uma exigência da casa sofisticada era usar sempre vestido provocante. A proprietária contava com a ajuda de uma baiana que sempre aparecia oferecendo a lingerie que era a “última moda!”. Tudo a bom preço e pagamento facilitado.

Era proibido fumar durante o horário de trabalho que começava geralmente após o almoço e ia até depois da meia noite, 1 ou 2 da manhã.

Com o tempo conseguia sair durante o dia com algum freguês que passava a chamar de amigo. Começava a tomar cerveja, um conhaque, que muitas vezes abria as portas para o vício. Nessa ocasião fazia confidências, revelava queixas, podia compartilhar mágoas, até sentimentos! Com o tempo, o amigo vinha todos os dias e contribuía apenas com o exigido pela dona da casa, mais ou menos 20% do michê convencional.

Os anos passavam e a mulher começava a chegar ao ponto de retorno e trilhava o caminho de volta aos lupanares da beira da Rodoviária.

Os tempos foram mudando. Veio a onda de que virgindade dava câncer e a liberalização tomou conta de tudo. Concorrência desleal! E o amadorismo venceu o profissionalismo.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
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