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À Mestra, com carinho!

Publicado por Sebastião Verly em Memórias, Personalidades
data: 23/10/2017

a mestra, com carinho

foto: Lara Montenegro

Como sempre volto à minha Pompéu para fazer aqui uma homenagem a Dona Elza Afonso Tavares filha de família tradicional na cidade, que se despediu de nós no último dia 15/10/2017, por coincidência o dia dos professores. Não pude ir render-lhe minha última homenagem presencialmente, mas soube que seu velório foi animado com uma cantoria puxada pelas netas que contagiou a todos. Não podia ter sido melhor para uma professora de artes.

Recém-formada na Escola Normal de Abaeté, no período que coincidiu com o final da 2ª Guerra Mundial, ou seja, por volta de 1945, chegou em Pompéu para melhorar a escola. Logo depois do recreio, que durava mais ou menos 10 minutos, Dona Elza a linda professorinha, ali mesmo no galpão, ou no pátio, quando era brincadeira em rodas, assumia o ensino a todas as crianças.

Exercícios de respiração ensinando a soprar imaginárias velas, pequenas flexões, movimentos de braços e mãos. Quem não se lembra do “pirulito que bate, bate, pirulito que já bateu” e as batidas de mãos com o colega ou a colega da frente? Cantar músicas tradicionais, algumas trazidas para cada momento, encantavam a gente, mesmo em casa cantávamos com gosto. Cantigas de roda, músicas caipiras especialmente ensaiadas para as festas juninas.

Trouxe das ruas e de onde esteve as cantigas de roda que a partir daí passaram a fazer parte de todos os festejos na escola. E devem ser ainda hoje, creio. Ainda deve ter gente que se lembrará da primeira festa junina com a dança de quadrilha fora dos muros da escola. Nunca mais esqueci os ensaios com Dona Elza: “Iaiá pula a fogueira, ioiô não pulo não, iaiá pula a fogueira que eu te dou meu coração.” As palavras em francês eram habilmente supridas por expressões mais comuns para a realidade: “Olha a chuva”, “É mentira”, “Olha a cobra”, “Caminho da roça”, “De mãos dadas”!

Dona Elza trouxe para a Escola o gosto de frequentar as aulas. E, sempre me lembro de Dona Elza, que há poucos meses havia perdido a mãe, cantando a valsa dos patinadores que dizia “por que mamãe quer dançar com papai”, chorou e nos liberava para chorar quando nossos sentimentos demandavam choro.

As cenas foram há mais de 67 anos e ainda estão presentes na memória de quem as viveu. Na vida lá fora, Dona Elza contribuiu em grande parte para melhorias de costumes e para a manutenção da cultura local. Onde houvesse um evento social ou cultural lá estava Dona Elza com sua cultura avançada trazendo gosto e alegria para os acontecimentos e festejos comunitários.

Com pureza d’alma afirmo que, depois da morte de minha mãe foi a que mais senti. Ao ver sua foto no Facebook meu coração disparou e levei segundos para recuperar a capacidade e ver a realidade.

Passada a emoção da inesperada notícia, sonho que Dona Elza na eternidade brinque com o sentido do amor e espalhe a felicidade e onde estiver siga alegrando gente que está aqui como filho, filhas, netos, parentes afins, ex-alunos, pessoas conhecidas e pessoas amigas.

No meu coração e na minha memória ela continua viva para sempre.

E recebo e-mail do Verlim, meu irmão:

“Tem pessoas que cremos que deviam ser proibidas de morrer porque farão significativa falta. Este é o caso de dona Elza, para quem teve o privilégio de conviver com ela em quaisquer períodos de sua vida.

Lembro-me duas peças declamadas por ela: a primeira relacionada com a morte da mãe onde uma criança pede a Papai Noel que traga a mãe de presente, cujo nome era “O pedido do menino rico” e a outra era a que seque:

“Oração de um órfão de guerra na noite de Natal:

Papai Noel, você que não se atrasa
Na visita anual que faz à Terra,
Veja se faz voltar à minha casa
O meu papai que foi brigar na guerra.
Você que pode muito mais que a gente
E que tem uma força sem igual,
Bem que podia dar-me este presente
Na noite milagrosa do Natal.

Eu tenho um coração como uma brasa
Nesta hora triste em que rezar eu venho.
Todos têm o seu papai em casa,
Só eu, Papai Noel, é que não tenho.

Ele partiu numa noite estranha
Que da lembrança nunca mais me sai;
Disse que ia brigar lá na Alemanha
E desde então não vejo mais papai.

Ele escrevia sempre. Mamãe lia
Suas cartas baixinho, devagar…
“Eu voltarei em breve”, ele dizia
Que esta guerra está prestes a acabar.

Depois, passaram meses, muitos dias,
Notícia alguma de papai nos veio
E mamãe, na maior das agonias,
Esperava a passagem do correio.

Nada vinha. O silêncio era completo
E a razão até hoje eu não sei bem.
Mamãe passou a se vestir de preto
E nunca mais sorriu para ninguém.

Até que enfim com a última batalha
– Só de pensar o coração me dói –
O correio nos trouxe uma medalha
Com as cinco letras da palavra “HERÓI”.

Por que será Papai Noel? Arrasa-me…
Essa coisa que a alma me corrói
Se os tais heróis não voltam para casa
Será que vale a pena ser herói?

Papai Noel, meu santo e bom paizinho,
Me dê o presente e acabe com a revolta,
Eu sei que você vai dar um jeitinho
E me mandar o meu papai de volta.

E dormiu abraçado a um retrato,
Sonhando sonhos de venturas mil,
E encontrou de manhã no seu sapato
Uma enorme bandeira do BRASIL!”

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
2 Comentários
  1. Lara Montenegro

    Lara Montenegro em 15 de outubro 2017
    das partidas e despedidas
    hj voou minha 3a vó. tive sorte mesmo, 3 avós não é pra qualquer um. duas avós de sangue e uma “vódrasta”, a vovó Elza, que eu ganhei com o segundo casamento do meu pai, ainda pequena. essa vó que fugia a todos os padrões. era a antítese das duas outras quando o assunto era fé, duas devotas e ela ateia, desbocada e sem culpa nenhuma. era a melhor contadora de causos, recitava cordel e fazia a gente chorar de dar risada, pintava, costurava, desenhava, cantava… só cozinhar que realmente nao tinha jeito. ela chegava na cozinha, todo mundo corria…

  2. Sebastião Verly

    Agradeço a publicação da minha homenagem tão espontânea para uma pessoa de alta significância em minha vida.

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