Tamanho da Letra: [A-] [A+]

A Folhinha Mariana

Publicado por Sebastião Verly em Cotidiano
data: 27/05/2014

Belo Horizonte, como há muito não acontecia, amanheceu, nesta terça feira, dia 27/05/2014 com uma intensa neblina cobrindo toda a capital. Espontaneamente, a memória que guarda zelosamente as lembranças, reativa expressões e ensinamentos dos velhos ancestrais.

A previsão do tempo era tema recorrente o ano todo e anos seguidos. Eram comuns, as consultas de lavradores para ter uma ideia do tempo e das temperaturas que viriam. Os sinais que a natureza emitia eram indicadores dos tempos futuros, próximos e para meses seguidos.

Os sinais passaram ser divulgados muito cedo pela famosa Folhinha Mariana de leitura nacional. Era comum, a Diocese de Mariana, detentora dos direitos da Folhinha receber pedidos de norte a sul do país. “Publica-se em Mariana desde 1870, a tradicional “Folhinha Eclesiástica de Mariana”, fundada por D. Silvério para ser um sucedâneo aos calendários, por vezes, uns tanto licenciosos. Ela foi precedida em 1830 pela “Folhinha de Rezas do Bispado de Mariana” que apresentava preces e informações de utilidade pública.

Famosa pelo Regulamento do tempo a folhinha de Mariana que se firmou, no decorrer dos anos, como infalível, tem uma tiragem de cerca de trezentos mil exemplares. É conhecida em todo o Estado e em outras regiões do País. Apresenta feitos em torno do ano lunar, cujo início se fez coincidir com lunação que começa em Dezembro. Cada lunação tem a duração exata de 19 dias, 12 horas e 44 minutos. De dezenove em dezenove anos se repetem os fenômenos causados pela influência lunar.

O Lunário Perpétuo oferece as regras para se poder calcular as variações do tempo, conforme registra o referido Regulamento estampado na Folhinha. É claro que tais previsões valem para o contexto geográfico assinalado no referido Lunário Perpétuo. Assim que junto do povo por vezes se diz que “é mais fácil em galinha nascer dente do que a folhinha de Mariana falhar!” Conta-se também que alguém telefonou para um amigo de uma cidade vizinha, dizendo-se decepcionado porque a Folhinha de Mariana marcava chuva e nada de chuva. A resposta foi imediata: “Você não perde por esperar!” Pouco depois uma tempestade confirmava lá a previsão “tempo revolto”, repreendendo a dúvida daquele Tomé! E, em uma crônica, recomenda Carlos Drummond de Andrade; “Vamos à boa, veraz, singela e insubstituível Folhinha de Mariana”. Esse calendário apresenta orações, instruções religiosas, tabela do amanhecer e do anoitecer, das festas móveis, dos feriados, época de plantio, resoluções da CNBB, dados biográficos do Papa, além de reservar um espaço 11×15 para a propaganda das casas comerciais que distribuem aos fregueses como brinde de fim de ano. Lá estava a previsão anual do tempo, quase todos através da sabedoria tradicional e transmitida oralmente.”

Mas, o que vigia mesmo era a voz dos mais velhos. E sabia-se o que é tempo revolto, brusco ou nebuloso.

Se chovia no dia 13 de dezembro, conhecido como data de Santa Luzia, era certo que teríamos Janeiro e Fevereiro com boas chuvas. A previsão das chuvas aproveitava, para o curto prazo, dos mais incríveis sinais.

No mês de Novembro, era certa a chuva, nem que fosse uma chuvisqueira, no dia de finados. Depois retornava o sol causticante. Aí, quando a rã, ou mais conhecida perereca, coaxasse num seu tom característico (rapando a cuia) a chuva estava por vir; até o sabiá com seu canto interpretado pela voz popular já anunciava a chegada das chuvas. Esta era uma forma agradável duplamente. Primeiro porque naqueles meses a chuva já fazia falta. Depois era linda a cantiga: “tomara que chove pro capim nascê, pro boi cumê, pro boi c…, pro sabiá catá”. Todo mundo sabia de cor. Nos dias de véspera das chuvas ainda havia o cupim que, no terreno do campo, começava a acrescentar seu murundu ou reformar partes quebradas pelos humanos ou pelos animais. A umidade do solo subia e o inseto aproveitava a terra molhada para sua construção, crescente ou reforma. Restava até a dor nos calos que os mais velhos afirmavam ser um sinal “evidente” que iria chover logo.

Havia sinais muito difíceis de entender, como voo dos mosquitos, os bandos de andorinhas e muitos outros que eram pouco conhecidos e explicados. Alguns traziam esperança, como o enorme circulo em volta da lua, e o sol poente encoberto com nuvens escuras ou, mesmo vermelhas, indicava chuvas para os próximos dias. Durante o verão, quando a chuva desaparecia logo que se viam as nuvens em formas de pedras era comum ouvir: “céu pedrento, é chuva ou vento”.  As aves também traziam suas informações: “especialmente o caburé que começava a “chamar o gado” com seu repetitivo “tchó, tchó, tchó”, dava uma sensação de boas vindas para a chuva. Até o pio do nhambu lá praqueles cafundós, serviam para anunciar a chegada das águas.

Os anos passam e a gente vê esses sinais, mas, recorre à previsão transmitida no rádio e na TV.

Mais ainda, no início do ano, é comum ouvir, de pessoas bem mais velhas, as afirmações: este ano vai ser de fartura, prenunciando boas colheitas. Ou ainda: este ano vai fazer muito frito ou muito calor.

E para fechar o assunto aprendemos que neblina na serra é chuva na terra e a de hoje, neblina baixa é sol que racha.

Vamos conferir.

Compartilhar este Artigo

Leia mais artigos em Cotidiano

Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. verly

    Confirmado. O sol está causticante nesses três dias. Vou ver se encontro a Folhinha de Mariana para comprar e certificar da previsão.

Deixe um comentário