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A Escola Partida

Publicado por Sebastião Verly em Educação, Memórias, Política Educacional
data: 30/10/2017

a escola partidária

Depois de no meu último artigo neste site ter homenageado a Dona Elza, professora de Artes e Educação Física em Pompéu no final da década de 1940, que nos deixou recentemente, mostrando que sua missão era tornar a escola mais alegre para todos os alunos, independentemente da condição social, escrevo esse relato de minha percepção de como as desigualdades sociais “partiam” e seguramente ainda continuam “partindo” o ambiente escolar.

O século XX chegava ao meio. 1948, 49 e 50 ainda era privilégio entrar na escola para fazer o curso denominado primário. Nas cidades do interior, que tomo como referência, crianças pobres e ricas misturavam-se na mesma sala. As professoras, recém-formadas, uma e outra mais antiga, misturavam-se às leigas que ocupavam o cargo por indicação.

O ensino era tradicional. As professoras ensinavam o “bê-á-bá”, numa cartilha bem simplória que trazia frases simples, algumas bem distantes da cultura local: “Lili toca piano”, quem já conhecia piano? “Ivo vê a uva”, aonde? Ensinavam os algarismos arábicos, de 1 a 10, podia contar nos dedos da mão, que atendia a quantidade ensinada. Ensinavam a tabuada, de somar e de multiplicar. Aprendia a somar e subtrair. Multiplicar e dividir, a partir do segundo ano.

As crianças ricas levavam merenda, pão com manteiga, bolos, biscoitos, frutas, até maçã, na época só havia as importadas da Argentina. Os pobres, a maioria recebia uma sopa de fubá ou macarrão que era servida por uma funcionária contratada e posta em uma enorme mesa ladeada por compridos bancos. Alguns meninos pobres, levavam banana ou outra fruta fácil de descascar e fácil de comer. Manga não!, dava muita lambança, manchava as camisas. Laranja usava-se cortar uma rodela da casca nas pontas e riscá-la com cortes paralelos aos gomos, o que permitia descascar com as unhas. As meninas ricas levavam a merenda num alvejado guardanapo muitas vezes com lindos bordados. Na porta da escola muitas vezes apareciam garotos vendendo pirulitos num tabuleiro perfurado, quebra queixo ou puxa-puxa. Mas era coisa de pobre, rico comia doce em casa.

As crianças de famílias ricas muitas aparentadas com as professoras, que naquele tempo só se formavam normalistas nas famílias mais ricas, eram tratadas com privilégios especiais. O uniforme era também discriminatório. As meninas ricas, saias plissadas ou pregueadas de um tecido melhor. Os meninos com calças de brim azul, feitas por alfaiates e blusas de fustão branco caprichosamente feita pelas melhores costureiras da cidade. Os pobres, aqueles mesmos que tinham direito à sopa de fubá, eram chamados dos meninos da caixa, caixa escolar, e recebiam um brim bem barato para a calça ou saia e um morim para fazer a blusa ou camisa.

As crianças das famílias ricas vinham calçadas com sapatos de couro e meias brancas para as meninas e pretas para os meninos.

As crianças ricas traziam cadernos e livros encapados com papel impermeável das cores vermelha, azul e verde. Os pobres quando muito conseguiam mal e porcamente encadernar os livros com papel de embrulho cinza do comércio comum. Sorte quando conseguiam aquele papel cor de rosa mais liso das casas de tecidos. As pastas de couro algumas até com enfeites era outro privilégio discriminatório.

A discriminação aparecia até nos dias de chuva. As crianças ricas eram geralmente conduzidas por empregadas ou alguém da família com guarda-chuvas ou sombrinhas. As pobres chegavam encharcadas, cobertas por um saco de aniagem ou melhorzinho com os sacos de algodão dobrados ao meio para encaixar na cabeça. A diferença era gritante.

No pátio havia uma cobertura, geralmente chamada de galpão onde ao som da sineta, as crianças se formavam em filas, por turmas de primeiro ao quarto ano. Ali cantavam o hino nacional com a mão direita colocada sobre o peito e depois seguiam silenciosamente para as salas de aula.

As crianças ricas não usavam nem a latrina que, diga-se a bem da verdade, eram lavadas uma vez por semana quando muito, e pelo menos no lado dos meninos do lado de dentro das portas das “privadas” era onde o inconsciente aflorava com considerações grosseiras e sexualmente agressivas contra as professoras mais carrascas.

Nas salas de aula a monotonia e alguns gritos histéricos de professoras impondo silêncio. Muito bom quando a professora mandava fazer a composição, que era uma redação, geralmente motivada por uma série de cartolinas com desenho totalmente alheios à cultura local.

Um alívio quando tocava a sineta anunciando o fim das aulas. Saindo no portão, as crianças ricas eram aguardadas por empregadas ou familiares e as pobres saiam em carreira embalada numa espécie de prazer por estar livre de mais um dia de aula.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Rodolpho Torquato de Oliveira

    Prezado Sebastião Verly!

    Li sua homenagem a Dona Elza e gostei muito.
    Sou neto de Dona Aurora Torquato de Pompéu e vivo atualmente em Gotemburgo na Suécia. As filhas de Dona Aurora foram grandes professoras em Belo Horizonte e lembrei-me delas com carinho.
    Gostei também da “Escola Partida”, e lembrei do primeiro livro “Lili, Lalau e o lôbo mau”. Cordialmente, Rodopho

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