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Essas mães interioranas

Publicado por Roberto Lima em Crônicas, Literatura
data: 08/05/2009

Eu quis escrever um poema homenageando minha mãe. E não só a minha. A intenção era homenagear todas as mães. Mas o poema acabou não saindo, como não tem saído nenhum outro verso da fábrica inativa, que tem sido esse baleado coração.

Dona Marocas, dona Ercília, dona Dózinha, dona Filhinha, dona Lola, dona Esmeralda, dona Niquinha e dona Rute, a minha, eram, todas, maravilhosas. Lembro-me claramente daquelas senhoras em meus primeiros anos em São Raimundo.

Dona Cilinha cantava no coro da igreja.

Dona Marocas – mãe das moças mais bonitas – era sábia, dava conselhos, e não carregava nenhuma tristeza no olhar.

Dona Ercília ajudava os pobres.

Dona Dózinha estava sempre de mau humor. Seu marido virou garimpeiro e foi viver no Pará.

Dona Lola freqüentava uma igreja crente.

Dona Niquinha cuidava do jardim.

Dona Vilma plantava hortaliças.

Dona Esmeralda chorava às escondidas.

Dona Filhinha mentia.

Dona Socorro fazia biscoitos

Dona Ireni aprendeu a cortar cabelo.

Dona Isaura estudava à noite. De dia vendia laranjas no ponto final do ônibus.

Dona Maria era a melhor amiga de dona Conceição.

Que era esposa de Expedito, que era maquinista de trem.

Dona Laura, de tão elegante, parecia mulher da capital. Quando andava pelas ruas deixava um cheiro de alfazema no ar. Estava sempre assim, refrescada, pronta para o calor do inferno nas tardes de Governador Valadares.

Dona Ana era calada.

Dona Angélica alfabetizava meninos.

Dona Joana criava cabritos. Seu único filho morreu atropelado por um caminhão Scânia Vabis.

Dona Rita organizava a novena.

Dona Juraci cresceu senhora de terras, teve gado, era filha de doutor. Envelheceu pobre e feliz, concubinada com um vaqueiro, ex-empregado de seu pai.

Dona Jandira teve filho prefeito, outro vagabundo e um outro meio artista.

Dona Lourdes era viúva. Não teve a mesma sorte de dona Adelaide, que se casou pela segunda vez.

Dona Cássia foi abandonada pelo esposo. Ela, que na juventude quis ser cantora e atriz, teve um filho que fugiu de casa e uma filha meretriz. Mudou-se para São Paulo e dela ninguém nunca mais ouviu.

Dona Selma lavava roupas para fora. Assim como dona Auxiliadora e dona Idalina.

Dona Norma conversava com o vento, aprisionava passarinhos e fazia tricô na varanda da casa até escurecer.

Dona Teresa dançava catira.

Dona Ivonete sabia bordar. Suas filhas eram costureiras. Seu marido, alfaiate.

Dona Rute lidava com um garoto meio louco, que queria sobreviver das palavras que bebia do Rio.

Maravilhosas, aquelas mulheres. Lindas, marcantes, cada uma do seu jeito. Como esquecê-las?

Com o avançar da idade elas acabaram virando outra coisa. Se na infância eram nossas heroínas, com o passar dos anos viraram santas. E, como tal, merecem que todo filho lhe construa um altar enfeitado com as flores do amor eterno e recheado de oferendas da mais profunda gratidão.

Santificadas, sejam, as nossas mães.

Santifiquemos. Santificai!

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Roberto Lima - nasceu em Pedra Corrida, Minas Gerais. É o atual presidente da Associação Brasileira de Imprensa - Internacional (ABI – Inter). Jornalista e escritor, publicou Colosso Ciclone e Tango Fantasma. Residente em Newark, New Jersey, nos Estados Unidos, desde 1984.
Comentário
  1. Rozana/Belo Horizonte

    Roberto,

    Tive a sensação de conhecer todas as donas do texto escrito poeticamente, aliás, reconhecemos essas Donas em todos os estados brasileiros, mas, especialmente para as mineiras, o poeta Gonzaga Medeiros fez a poesia:
    MULHERES DE MINAS

    Mulheres existem muitas,
    tantas quantas são as saias do mundo.
    Só é, porém, uma grande mulher,
    a que se veste com a saia do amor
    conjugado no tempo
    mais-que-profundo.

    Ah! Mulheres existem tantas
    quantos são os lábios do beijo doce.
    Será, porém, uma grande mulher,
    aquela que sorrindo puder
    beijar também com o sorriso,
    como se este um doce beijo fosse.

    Vós, mulheres de Minas,
    lavadeiras, artesãs e rezadeiras,
    professoras, operárias lavradoras,
    parteiras, parideiras e outras mais,
    sois todas heroínas,
    porque escreveis com suor
    a própria história,
    defendendo a pátria da vida
    no peito, na dividida,
    numa luta nem sempre de glória.

    Ah! Se todas fossem iguais a vós,
    mulheres de Minas …

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