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Festas religiosas no Grande Sertão – parte I

Publicado por Padre Joao Delco Mesquita Penna em Crônicas Culturais, História, Religião, Turismo
data: 29/05/2018

Festas religiosas no Grande Sertão – parte I
O povoado de Serra das Araras, distrito do município de chapada Gaúcha, cravado no coração do enigmático Grande Sertão Veredas, no Norte-noroeste de Minas Gerais, há mais um século recebe anualmente milhares de peregrinos por ocasião da Romaria de Santo Antônio, uma das maiores festas religioso-culturais da região. O nome do povoado tem origem nas cabeceiras dos rios Preto e Pardo, afluentes do Paracatu, onde se formam grandes cânions de até 300 metros de altura onde, nos barrancos rosáceos, as araras fazem os buracos de seus ninhos. A localidade vizinha, Vão dos Buracos, abrigou vários quilombos e foi onde, segundo Guimarães Rosa, “nem o mais destemido dos jagunços ousava ir atrás de seus desafetos”.

No seu passado já foi terra de inconformismo, com diversos movimentos de lutas, motins e revoltas. Basta lembrar, que foi por lá, que viveu no final do século XIX e início do XX, o justiceiro Antônio Dó, tido como o mais temido Jagunço do Alto Médio São Francisco, chamado por Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas de Severo Bandido. No romance do escritor sanfranciscano Petrônio Braz, Antônio Dó aparece como o Robin Wood do sertão, uma mistura de herói e bandido, um Lampião norte-mineiro, que a polícia cansou de perseguir e cujos causos ainda hoje são contados com admiração e assombro pelos sertanejos mais velhos da região. Ainda é possível conhecer, a poucos quilômetros do povoado de Serra das Araras, o tumulo onde o carrasco do sertão em 1929 foi sepultado, depois de ser assassinado por um membro de seu bando. Assim está registrada na memória da população daquela região e vem sendo perpetuada pela oralidade.

Este tão emblemático e misterioso sertão é também hoje, dono de uma cultura religiosa inigualável, palco de grandes festividades religiosas e diversas Romarias. Queremos REFLETIR neste artigo, a relação existente entre a fé, a vida e a espiritualidade do HOMEM do sertão, de modo especial manifestados, durante os festejos dedicados a Santa Cruz, quando inicia o ciclo de festas religiosas que antecede a Grande e centenária Romaria de Santo Antônio, que acaba de celebrar, os seus jubilosos 100 anos de peregrinação do povo sertanejo pelo Grande Sertão Veredas.

A referida festa tem sua origem em meados do século XIV, e vem sendo transmitida de geração em geração. Embora o calendário litúrgico oficial da Igreja Católica tenha transferido a Festa da Exaltação da Santa Cruz para o dia 14 de setembro, aqui se mantém a tradição de celebrá-la no dia 3 de maio. A festa, na formatação que se encontra hoje, é realizada há mais de 30 anos sob a coordenação do Sr. Geraldo da Mota Primo, conhecido na região como Senhor Gera, que por sua vez recebeu-a dos descendentes da família Bito, historicamente conhecidos como fundadores do povoado e acolhedores das Primeiras Romarias de Santa Cruz e Santo Antônio.

As festividades de Santa Cruz acontecem anualmente com início no dia 24 de Abril e com encerramento em 3 de Maio. Durante este período de preparação para os festejos a comunidade se reúne no santuário durante os dias da novena. Em clima de devoção, fazem suas orações e saem em procissão até os pés da Cruz, saudando com rezas, ladainhas, “benditos” antigos, ainda cantados em Latim, e fazem seus pedidos, louvores e agradecimentos a Deus por graças recebidas. Em seguida retornam ao santuário onde romeiros e visitantes são acolhidos já em clima de festa, quando também acontecem as noites de barraquinhas, leilões e muita animação nos dias de quermesse.

A festa propriamente dita acontece entre os dias 2 e 3 de maio. A véspera do dia 3 parece ser dia normal como no restante do mundo, mas naquela pequena localidade é um dia emblemático. Para os moradores do Grande Sertão, é um dia cheio de simbolismo e significado. Um destes momentos de fé encarnada na vida e na realidade do sertanejo, com descontração, entretenimento, causos, prosas, moda de viola e um encontro singular do povo simples com o Sagrado e o Sublime.

Ao amanhecer do dia, todos os sentimentos dos romeiros convergem para o povoado da Serra, onde está o santuário de Santo Antônio, mas onde também está uma CRUZ alta, feita de madeira de cedro resistente ao tempo, exuberante, cravada bem ao meio da rua Principal do povoado.

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Padre Joao Delco Mesquita Penna -
Comentário
  1. João Delço Mesquita Penna

    Meus agradecimentos ao meu amigo Milton Tavares por abrir este espaço para podermos mostrar de forma simples o jeito dos povos do grande sertão veredas viver. Meus agradecimentos também ao companheiro José Raimundo Gomes,o Mundinho,Ex-Prefeito de Chapada Gaúcha,filho da comunidade de Ribeirão do Areia,aos arredores da Serra das Araras,Pleno conhecedor da realidade dos povos do sertão, que muito ajudou a construir o texto.

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