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Festas religiosas no Grande Sertão – parte 2

Publicado por Padre Joao Delco Mesquita Penna em Crônicas Culturais, História, Religião, Turismo
data: 07/06/2018

Festas religiosas no Grande Sertão – parte 2
A Festa começa com preparativos da sua maior atração inserida na tradição a poucos anos atrás, que é a Cavalgada. Um dos pontos altos deste dia é mesmo a Cavalgada, que caiu no gosto de todos: crianças, jovens e adultos, esperam com ansiedade o ano inteiro, pela chegada do momento da Festa.

Depois de degustar um belo café da manhã com pão de queijo e biscoito de peta, polvilho, é hora de pegar a montaria, e começar a cavalgada estrada afora. Cada cavalgada sai de uma região diferente das diversas comunidades do município de Chapada Gaúcha e de municípios vizinhos. Durante o trajeto é preciso fazer uma parada, pois é hora de almoçar. Ao chegar o local já demarcado pelos organizadores, ali põe-se a mesa com as mais diferentes comidas do sertão, feijoada, feijão tropeiro e o tradicional churrasco introduzido pelos sulistas que chegaram povoando a região e enriquecendo as suas tradições culturais.

Como numa magia marcada pelo encontro, pelas refeições feitas ao longo do caminho da cavalgada, pelas bebidas compartilhadas juntos, que tem sabor de união, pela descontração do bate papo entre amigos e conhecidos, a festa vai sendo celebrada no decorrer do dia. Quem vem pela primeira vez, logo faz amigos e entra na animação coagidos pelos acontecimentos do dia.

O grande encontro se dá na praça do santuário. Depois de circular Igreja por três vezes seguida, é hora de receber a benção ritualizada por um sacerdote, que pacientemente vai abençoando com a água benta a cavalgada, uma por uma, e cada cavaleiros que passam recebe a benção com devoção. Este ano foram em número de sete cavalgadas com mais de setecentos cavaleiros.

Enquanto as cavalgadas vão chegando as mulheres rezam insensatamente aos pés da Cruz e fazem seus pedidos de auxílio e proteção, principalmente para que não falte chuvas no sertão para alimentar as veredas e garantir uma boa colheita. Também é celebrada uma missa festiva, geralmente pelo Bispo Diocesano de Januária. Todos participam com fé e devoção. Neste ano a celebração também foi marcada pela emoção de uma homenagem feita ao Senhor JONAS PEREIRA GOMES, grande liderança da tradição de folia de Reis, folião de guia da comunidade de Ribeirão do Areia. Tinha falecido a poucos dias antes da data da Festa.

A Festa entra noite a dentro com suas atrações, são shows com artista da região, rodeio e o grande forró pé de serra. O Povo entra na festa para esquecer um pouco as amarguras da vida. O povo precisa da festa para não cair nas tristezas profundas impostas pelo sofrimento da vida no sertão. Vida muitas vezes vivida, Distante de TUDO, principalmente dos bens de consumo de primeiras necessidades, falta assistência na saúde, falta projetos de sustentabilidade, trabalho, e de geração de renda para enfrentamento da pobreza.

Enquanto no mundo político e nos meios de comunicação chegam ao delírio com as constantes notícias de denúncias de corrupção, crise institucional, economia em baixa, enquanto a sociedade Brasileira sofre com reformas impopulares, vendo seus direitos conquistados serem revogados, enquanto a população veem o desemprego chegar ao patamar de quase 14 milhões desempregados, aqui nos arredores do grande sertão, o sertanejo vai driblando a crise com esperança e fé. Aqui a esperança e a fé parecem ser maiores que as crises, por isso buscam enfrentar os desafios da luta pela sobrevivência com confiança em Deus, que os animam na caminhada e não os deixam parar de sonhar com dias melhores.

A Festa de Santa Cruz cravada no meio do grande sertão nos faz recordar início do cristianismo, quando os cristãos ergueram cruzes sobre os altares, para fazer recordar que a cruz foi instrumento de tortura na qual o filho de Deus foi torturado. Celebrar a festa de Santa cruz no grande sertão, parece não ser para exaltar a cruz pela cruz, mas para fazê-los olhar para o alto, ter esperança e seguir os passos daquele que nela foi crucificado. A imponente Cruz da serra das Araras, faz o sertanejo identificar com a sua própria cruz. Somente ele será capaz de libertar o seu povo das diferentes cruzes que torturam a vida do povo no sertão. Por isso é para lá que dirigem milhares de trabalhadores: posseiros, quilombolas, trabalhadores das fazendas do agronegócio, agricultores familiares, desempregados, que se identificam com sofrimento do crucificado e dos que são crucificados em seu dia a dia pelo sofrimento e pela luta pela sobrevivência no grande sertão.

Finalmente a festa de Santa cruz mistura sagrado e profano. Mas o que é mesmo profano? Ou será tudo sagrado? A festa termina no amanhecer do dia três de maio. É dia Santo no sertão. Dia sagrado no coração do sertanejo!

Mas também é hora de voltar ao ritmo normal da vida, hora de apanhar os cavalos e voltar para casa. É hora de recomeçar com energia renova. Os pensamentos agora se convergem para a outra festa de romaria que vai chegar! No próximo mês, em 13 de junho, já é a festa do santo padroeiro e protetor do sertão, o Santo Antônio da serra das Araras. Também um pouco mais a frente, no mês de julho as comunidades dos rincões do grande sertão, se reúne novamente, desta vez será na sede do município em CHAPADA GAÚCHA para o grande evento cultural que é a festa do encontro dos povos do grande sertão veredas.

Assim o sertanejo vai vivendo imerso ao mundo impregnado pela fé e impulsionado pelas utopias de esperança em esperança a trajetória do tempo no sertão. Sempre motivados pela grande romaria da VIDA que não pode parar. A Fé do homem do “Ser-tão Grande” é como uma Estrela que os conduz, sempre iluminando sua trajetória, na certeza que somente assim, lutando, festejando e se fortalecendo em sua espiritualidade, haverá de chegar um tempo de paz, com justiça para todos, pão em todas as mesas e um mundo menos desigual entre ricos e pobres, movidos como acontece no dia de festa por aqui, com menos indiferenças, com solidariedade e respeito entre os povos de diferentes culturas e raças.

Organizadores: Padre João Delço Mesquita Penna / José Raimundo Ribeiro Gomes (Mundinho)

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