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V – As torcidas organizadas

Publicado por Mateus Resende, Abner Faustino e Rafael Orsini em Futebol
data: 08/08/2017

as torcidas organizadas

No início, os próprios jogadores eram – ao mesmo tempo – o clube e seus torcedores. A popularização do esporte começou a propiciar nos campos das cidades um acolhimento em massa dos times que surgiam aos montes. Os próprios locais de nascimento dos times se tornavam também responsáveis pelo crescimento do esporte.

Com tamanho apelo, as torcidas começaram a se organizar, criando formas, características e identidades visuais, uma forma de se identificarem no meio da multidão e transformarem seus cânticos em referência em todo o estádio. Na década de 1940, surgem as primeiras torcidas uniformizadas do país, que posteriormente se transformariam em torcidas organizadas. Para entendê-las, é preciso ir mais a fundo, desde as primeiras manifestações nos campos.

Ao se tornar um esporte popular, o futebol acabou integrando pessoas de várias classes: desde os primeiros torcedores de classe alta até os mais simples, o estádio passou a se tornar um local de integração social. Os primeiros cânticos, gritos e gestos começaram a surgir e, a fim de tratarem o espetáculo de forma mais organizada, grupos de torcedores passaram a se unir para irem ao campo juntos e criarem um barulho uníssono, que tornasse aquela atmosfera única. Assim se dá o primeiro registro da torcida uniformizada do São Paulo Futebol Clube em 1940, enquanto no Rio de Janeiro surge a Charanga do Jaime, grupo reunido por Jaime de Carvalho em prol do Clube de Regatas Flamengo.

Até então, a função das ainda torcidas uniformizadas era apenas a organização da festa por um grupo de pessoas, liderada em sua maioria das vezes por apenas uma pessoa, chamada de “chefe de torcida”. Dessas torcidas, havia uma pequena ligação com os clubes, fosse por políticos, dirigentes ou funcionários do local.

“Esses grupamentos iniciais tinham interesses totalmente diversos aos atuais objetivos das torcidas organizadas contemporâneas, pois compareciam aos estádios, tudo leva a crer, com o objetivo principal de apoiar o clube, promover cânticos de incentivo e organizar a festa em torno do futebol.”(1)

Sendo assim, quais são os objetivos das torcidas organizadas de hoje? Ainda analisando o contexto de forma linear, com o surgimento desses agrupamentos nas arquibancadas, a rivalidade em torno do futebol foi se tornando cada vez mais acirrada, principalmente em times do mesmo estado. No entanto, as torcidas mantinham a ideia de apoio aos clubes, sem colocar o adversário como inimigo, muito menos cogitar-se o uso da violência.

“As torcidas uniformizadas, tal como surgiram nos anos 1940, não apresentavam maiores relações com a violência no futebol. Some-se a esse prognóstico o fato de não haver também manifestações incisivamente contrárias aos clubes, sobre qualquer ponto de vista, fosse este positivo ou negativo.”(1)

Nota-se que as torcidas uniformizadas estavam no estádio e somente no estádio, sem maiores ocorrências ou organizações fora das partidas realizadas pelos seus clubes. Seu único intuito era criar a festa nas arquibancadas e, assim, integrá-la ao espetáculo no gramado. Porém, tal realidade mudou na década de 1960, quando surgem as primeiras torcidas organizadas, algo mais próximo da realidade atual.

A principal mudança que se dá entre as torcidas uniformizadas e as torcidas organizadas é que, enquanto as primeiras caracterizam-se por ser uma entidade apenas de arquibancada e durante as partidas dos clubes, as segundas colocam-se como força independente, ou seja, era a partir do momento de sua formação uma força política na instituição. A presença do “torcedor-símbolo”, a única força e ligação dentro da torcida com o clube presente nas torcidas uniformizadas foi substituída por uma diretoria representada por um único presidente nas torcidas organizadas.

Além do mais, as organizadas se configuraram como – em certos momentos – empresa, vendendo produtos, camisetas, bonés e diversos acessórios da própria torcida e exaltando seus símbolos. Seus eventos não se atinham apenas ao estádio: com sedes sociais, festas de comemoração de diversas datas e outras atividades eram práticas comuns e transformavam a torcida organizada em uma nova referência no futebol.

Na apropriação da imagem, as organizadas “resignificaram não só as cores, mas todos os símbolos que caracterizavam os respectivos clubes”, gerando também uma nova identidade ao torcedor daquele meio. “Um integrante de uma torcida organizada não diz ‘sou torcedor de tal clube’; ele diz sou membro de “tal organizada que torce por tal clube”. (2)

Ante seu crescimento e reconhecimento perante os demais torcedores, a mídia e o próprio clube, as torcidas organizadas começam a apresentar seu aspecto violento, característica que, atualmente, é designada automaticamente ao se referir às TOs. As ações truculentas das torcidas eram justificadas desde simplesmente a rivalidade com o adversário – outrora descartada com as uniformizadas – até a disputa desse novo e fulgurante poder.

A mídia teve importante papel no aumento dessas tensões, utilizando-se das TOs como protagonistas mercadológicas por promover o futebol justamente por meio da violência através da paixão exacerbada.

(1) CAVALCANTI, Everton Albuquerque; SOUZA, Juliano De; CAPRARO, André Mendes. O fenômeno das Torcidas Organizadas de futebol no Brasil – elementos teóricos e bibliográficos. Revista de ALESDE. Curitiba, abril de 2013
(2) CORREIA SOBRINHO, José. Torcidas Organizadas de Futebol: metamorfoses de um fenômeno de massa. Revista Eletrônica Inter-Legere. Julho/Dezembro de 2008.

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Mateus Resende, Abner Faustino e Rafael Orsini - Mateus Resende Alves (in memoriam), Abner Cristian Moreira Faustino e Rafael Pinho Orsini são formados em Jornalismo pela PUC Minas. Os três trabalharam sobre a temática das torcidas organizadas Galoucura e Máfia Azul analisando o Estado de Minas.
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