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Um passeio pelos romances de Saramago

Publicado por Maria de Lourdes Utsch Moreira em Literatura
data: 11/08/2009

Um passeio pelos romances de Saramago

Tranqüilamente ateu, confessa Saramago inúmeras vezes. Que ele seja ateu, acredita-se, porém, tranqüilo não. Há uma pendência não resolvida entre ele e Deus. O Deus que ele “persegue” é o Deus que foi herdado do Velho Testamento e adotado pelos cristãos. Um Deus menos severo e mais oculto nas relações humanas. Os seguidores de Jesus espalharam-se pelo mundo ocidental. Muitos esqueceram pelos caminhos o essencial da doutrina de Cristo. Instalaram-se em Roma. Foram se organizando, sistematizando-se com a ajuda de alguns teólogos e filósofos. São Tomás de Aquino, por exemplo.

Durante vinte séculos a Igreja Católica acumulou erros, a infalibilidade papal, deu azo a que houvesse papas e Papas, criadores de dogmas, responsáveis pelos célebres desvios, como as Cruzadas e o Santo Ofício. Essa face vulnerável do catolicismo é que José Saramago atinge e, por extensão, o Deus dos católicos. Ridiculariza-os com ironia implacável, que é um de seus grandes trunfos.

O “Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991) é um livro polêmico. Bateu de frente com o Vaticano e com o catolicismo conservador dos portugueses. Provocou mudanças. O subsecretário de cultura do governo vetou a candidatura deste livro ao Prêmio Literário Europeu. Magoadíssimo, deixou Portugal, “Lisboa, o Tejo e tudo”, indo viver na Ilha de Lanzarote, nas Canárias, território espanhol onde não corre um fio de água doce.

Em decorrência ou não destes acontecimentos, Saramago vem mudando a temática dos romances posteriores ao Evangelho. Os primeiros romances têm Portugal, sua história, seus homens, as paisagens, o espaço, enfim, enaltecendo ou mesmo criticando a gente lusitana.

“Manual de Pintura e Caligrafia”(1977), pouco divulgado e conhecido, é quase uma autobiografia. Sua importância para os estudiosos da obra de Saramago é irrefutável. Assim o reconhece a mestra Maria Alzira Seixo: “Manual é o cadinho de elaboração de todas as tendências pré-ficcionais de Saramago e daí sua grande importância e originalidade na consideração evolutiva da sua obra.”.

“Levantado do Chão” (1980) é a saga de várias gerações da mesma família alentejana: Mau Tempo. Faz um painel social, político e cultural, com todos os pormenores, denunciando a opressão, as torturas da ditadura salazarista, a omissão, a conivência da Igreja Católica. O padre Agamedes é um exemplar perfeito: “O vosso reino não é deste mundo, padecei para ganhardes o Céu.”

A construção do Convento de Mafra é o tema do romance “Memorial do Convento” (1982). Dom João V, rei de Portugal, século XVIII, fez a promessa de construir uma basílica se tivesse um filho herdeiro do trono. Mas quem pagou a promessa foram os trabalhadores pobres e miseráveis. Saramago vai buscá-los na história para os imortalizar. Dá-lhes destaque especial às lutas e tormentas que enfrentaram, organiza uma lista dos prováveis nomes deles, como uma lápide tardia.

“O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984) começa com a chegada a Lisboa de Ricardo Reis, que se tornou personagem de Saramago sendo na realidade um dos heterônimos usados pelo poeta Fernando Pessoa. Ricardo Reis regressa do Brasil. Mais uma vez, Lisboa é o lugar em que se desenrola o romance. Os passeios de Ricardo Reis, quase sempre à chuva (o autor gosta de expor seus personagens à chuva), pelas ruas, avenidas, parques, bairros, traçam um roteiro turístico. Ricardo sabe que Fernando Pessoa já morreu. Os encontros dos dois poetas ocorrem freqüentemente, como se ambos fossem vivos. A intertextualidade dos versos de ambos e as citações de Camões dão aos textos uma densidade poética muito grande.

“A Jangada de Pedra” (1986) – a Península Ibérica desprende-se dos Pirineus, como um barco vai pelo Atlântico afora. Os motivos dessa ruptura simbólica, imaginada por Saramago, são um protesto contra o isolamento, o sentimento de inferioridade frente aos outros países europeus, a discordância da entrada de Portugal na União Européia. A Jangada de Pedra é um dos mais lindos romances que José Saramago escreveu.

“A História do Cerco de Lisboa” (1989) passa-se nos séculos passados e no presente simultaneamente. Assim nos encontramos no ano de 1147, quando aparece o rei Dom Afonso Henriques com seus cavaleiros, esperando o momento certo de atacar os mouros sitiados no Morro do Castelo. A estória acontece com personagens históricos e imaginários. O protagonista é o revisor Raimundo. Ele modifica uma frase de um livro de história, colocando um – Não – na frase que dizia que “os cruzados ajudaram os portugueses a expulsar os mouros”. Este procedimento trouxe-lhe muita contrariedade. “O gesto contrário de escrever – Não – tem efeitos na vida do revisor, e não no texto do historiador traído (…). E a grande alteração obtida por Saramago está na maneira de ler e refletir sobre a História Acreditada.” (Leyla Perrone Moisés ).

Talvez a mágoa seja o fator de mudança temática e de tornar indefinidos os espaços das suas fabulações. Nestes romances anteriores, Portugal era o lugar preferido. Isto pode indicar a universalidade que vem dando às suas obras recentes. Os romances publicados depois do “Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991) são referências a temas universais: “Todos os Nomes” (1997), “Ensaio Sobre a Cegueira” (1995), “Ensaio Sobre a Lucidez” (2004), “O Homem Duplicado” (2002), “A Caverna” (2000), “As Intermitências da Morte” (2005) – todos tratam de assuntos relacionados com a existência, a busca de identidade, a morte, a cegueira humana, Deus, o individualismo, a globalização, mudanças sociais, enfim, problemas de teor universal.

“A Viagem do Elefante” lançado em 2008, na Casa das Américas, em Madrid, traz de volta o Saramago de O Memorial do Convento ou da História do Cerco de Lisboa. Mais despojado, sem truques imaginários. Nada barroco. Menos retórico. Mantém os mesmos recursos formais, preservando a agudeza do humor e da ironia e as farpas contra a igreja Católica, seus padres, seus santos, seus dogmas.

A estória passa-se no reinado de D. João III, em 1551. O rei, em colóquio íntimo com a rainha Catarina d’Áustria, decide seguir a sugestão da mulher: oferecer o elefante, como presente de casamento ao arquiduque Maximiliano II, da Áustria. O paquiderme morava em Lisboa há dois anos. Veio de Goa, vivia sob os cuidados de um tratador indiano de nome Subhro. O elefante, de nome Salomão, pertencia ao rei. Após o deslumbramento do povo por aquele animal exótico, Salomão caiu no esquecimento e na solidão. Até que a rainha se lembrou dele. O arquiduque aceitou o presente e aguardava-o na Espanha. Em Lisboa começa a viagem cujo roteiro inclui Espanha, França, Itália, Áustria (Viena). Vão em cortejo com todas as provisões indispensáveis. Em Valadolid o arquiduque associou-se ao grupo. Salomão suportou as intempéries climáticas e outras. Representou bem o seu papel com galhardia que tornou-se em leveza o peso de quatro toneladas. Houve até quem o chamasse de meigo e fofinho. Saramago dá-lhe um banho de linguagem poética.

A magia, o maravilhoso dos textos, o emprego recorrente de determinados nomes, tornaram-se emblemáticos: a pedra, as mãos, a terra, a chuva, a oliveira, o rio, o cão, a viagem, os olhos, a sombra, o céu.

Contamos, aproximadamente, mais de setecentas vezes o emprego da palavra céu. Há duas referências: ao céu comum, o firmamento que nos cobre, e ao céu como morada de Deus. O autor fala de todos os dois, mas o céu dos católicos é tratado com toda a ironia. “O céu estava nublado por igual, como um gorro de lã suja, ao senhor não devia ser fácil perceber do alto o que andam fazendo as suas ovelhas.”

Onde termina a nossa visão do céu começa o infinito. Sem levar o assunto para a Filosofia, sentimos que o céu no texto de José Saramago permite que se tirem várias conotações: espiritualidade, esteticismo, transcendência, misticismo. Quem sabe, nesses domínios da emoção o escritor encontre o Sagrado?

Embora diga que não há algo inquietante em seu espírito, Saramago põe em causa a relação do homem com Deus.

A malquerença não é com o problema da existência de Deus. A animosidade de Saramago é com o Deus que o catecismo católico nos ensinou, enchendo-nos de culpa e de medo, cuja face desumana reflete-se no catolicismo em determinadas pessoas, épocas e lugares. Essa agressividade manifesta-se como um dos componentes do seu humanismo. “Para ser ateu como eu sou deve ser preciso um alto grau de religiosidade.” Religiosidade que inclui o ser humano. Apesar de seu pessimismo pela humanidade contemporânea, não descarta o homem do centro de suas atenções. “Sem o homem a vida pára.”

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Maria de Lourdes Utsch Moreira - Escritora, poeta e crítica literária. Residente em Belo Horizonte - MG.
3 Comentários
  1. Silvio Miranda - Governador Valadares - MG

    Gostaria de perguntar à autora porque é tão difícil ler um livro de Saramago até o fim. Eu mesmo já tentei várias vezes e não consegui. Uma vez dei de presente de aniversário a um amigo o Ensaio sobre a cegueira e ele me devolveu dizendo que não tinha conseguido ler mais que três capítulos. Onde é que pode estar agarrando? Será uma falta de tradição de leitura ou falta de compreensão, ou falta de fôlego simplesmente?

  2. fernando carriço

    “O céu estava nublado por igual, como um gorro de lã suja, ao senhor não devia ser fácil perceber do alto o que andam fazendo as suas ovelhas.” Aqui está o Saramago na sua magia e foi muito feliz esta passagem na sua resenha. Um abraço, Fernando Carriço

  3. Editor

    Em resposta ao comentário do leitor Silvio Miranda acima, a autora escreveu neste portal o artigo: “Saramago por onde começar a ler”.

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