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Armazém do Zé: “Quo Vadis, Domine?”

Publicado por José Alves em Armazém do Zé, Segurança Pública
data: 16/09/2009

Política de Segurança Pública no Brasil

Armazém do Zé: “Quo Vadis, Domine?”

No Novo Testamento (João, 13,36-38) há uma passagem em que Pedro pergunta a Jesus onde ele está indo, “Quo Vadis, domine?”, “Onde vais senhor?”, e Cristo responde a Pedro que ele ainda não estava preparado para acompanhá-lo. Quando Pedro reage, afirmando que estava disposto a dar a vida pelo mestre, este responde: “Antes que o galo cante três vezes me negarás!”. Quatro séculos depois surgiu o documento “Atos dos Apóstolos Pedro e Paulo”, sem autor conhecido, que narra que os cristãos após a morte de Cristo se concentraram em Roma, e no reinado de Nero (54-68 DC) passaram a ser perseguidos e mortos na arena. Segundo este texto, tendo Pedro, primeiro bispo de Roma, decidido fugir da cidade, encontra Jesus Cristo na Via Ápia na forma de uma criança, e o diálogo se repete. Ao perguntar a Jesus “Quo Vadis, Domine?”, este responde-lhe que vai para Roma, para ser recrucificado por suas ovelhas que foram abandonadas. Envergonhado, Pedro retorna e reassume seu posto. Essa passagem é narrada no romance de Henryk Sienkiewicz, “Quo Vadis?”, que também virou filme épico de Hollywood.

No Brasil um ex-secretário nacional de Segurança Pública apresentado por Lula e pelo PT como o salvador da pátria se exilou em Nova Iorque se dizendo ameaçado de morte e passou a escrever livros e até um roteiro de filme, “Tropa de Elite”. A herança de seu modelo é o desarmamento da população brasileira e a criação da Força Nacional de Segurança Pública, quer dizer, a militarização da segurança pública.

O presidente Lula realmente tem uma incontestável proteção celestial. Ele comprovou ter forte intuição em questões econômicas e geopolíticas, e em termos de segurança pública deu muita sorte em ter uma oposição mais cega que seus desorientadores palacianos. O povo brasileiro deu seu recado no “plebiscito do desarmamento”:

“-Vocês e suas famílias, que andam cercados de seguranças pagos com nosso dinheiro, como acham que nós iremos nos defender? Quem é que vai defender minha família quando tentarem invadir minha casa? Seguramente não será a polícia, que chega com a cirene ligada duas horas depois que os bandidos tiverem ido embora. Tenho dito!”.

Nossas “lideranças” políticas, intelectuais, midiáticas, religiosas e voluntárias em memorável consenso promoveram uma decidida campanha para desarmar o povo brasileiro. Velhas garruchas e espingardas de grande valor museológico, até relíquias da Guerra do Paraguai foram esmagadas sob os rolos compressores diante das câmaras sob o aplauso desses anjos da paz. Esta onda no entanto encontrou um formidável freio de arrumação no “plebiscito do desarmamento”, quando o povo brasileiro mostrou que dos petistas xiitas aos tucanos neoliberais, dos apostólicos romanos aos pentecostais da terceira onda, dos intelectuais engajados aos acadêmicos escolásticos, jornalistas com e sem diploma, ONGs de fachada e  desbundadas estavam em outro país ou em outro planeta quando decidiram implementar o plano de desarmar o povo brasileiro.

Aqui aproveito para citar dois países que resolveram de formas diferentes a repressão aos comportamentos anti-sociais, levando segurança aos cidadãos: Cuba e Canadá. Por incrível que pareça, são países extremamente diferentes, no primeiro o Estado onipresente e onisciente controla tudo, no outro é símbolo do liberalismo, da liberdade individual. Mas o que ele têm em comum?

Resposta: relacionamento de vizinhos e participação da comunidade! Em Cuba não há espaço para trombadinhas e assaltantes porque os Conselhos de Defesa da Revolução, os respeitados CDR, controlam tudo, é claro, controlados pelo governo, através de suas bem treinadas Brigadas de Resposta Rápida. Nenhuma pessoa estranha tem chance de caminhar pelas ruas de uma comunidade sem ser abordada, identificada e atendida pela organização de vizinhos.

No Canadá, fiquei uma vez muito impressionado com a palestra de uma oficial da Polícia Montada. Seu conselho não é para desarmar os cidadãos honestos nem a militarização da polícia como ocorre no Brasil. Entre suas campanhas estão conselhos simples aos cidadãos, como: “faça uma caminhada em volta do seu quarteirão e cumprimente seus vizinhos”. Quem não precisa fazer uma caminhada? Quem pode dispensar a amizade do vizinho?

Armazém do Zé: “Quo Vadis, Domine?”O policiamento comunitário é uma evolução, e não uma revolução”. A afirmação é da policial canadense Shelly Dupont, chefe da Divisão de Serviços Nacionais de Polícia Comunitária da Polícia Real Montada do Canadá (RCMP).

Para Shelly, o policiamento “à moda antiga” não funciona mais: “As pessoas são presas, depois soltas, e voltam a cometer os mesmos delitos”. De acordo com ela, hoje a participação comunitária é vista como tão importante quanto a policial no controle do crime.

Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa! Que cartão postal! Que cartões postais! O Leblon e seu negativo, o Vidigal! São Conrado e a Rocinha! E São Paulo? Os mais velhos lembram-se do slogan: SÃO PAULO NÃO PODE PARAR! São Paulo, onde foi parar?! Uma cidade em que ninguém conhece o vizinho. Onde chegamos? Que país é este? Chegamos à dilaceração do precário “tecido social”. Também pudera!

Desorientados pela rejeição de sua política de avestruz no Plebiscito do Desarmamento, estado, academia, mídia, religião e voluntariado se mandaram pela Via Ápia e deixaram um vazio.

… Estava aberto o caminho para as MILÍCIAS! Nunca assisti a um filme tão oportuno como “Ensaio sobre a cegueira” de Fernando Meireles, inspirado na obra de José Saramago. Quem tem a arma assume o comando. E com quem restaram as armas depois das sucessivas campanhas pelo desarmamento? Se você pensou nos policiais acertou. Se você acha que foram eles quem criaram as milícias acertou de novo. Mas sem nenhum controle de direito ou de fato da sociedade que se pretende civilizada!

O “Ensaio sobre a cegueira” anuncia o fim, mesmo que temporário, da Civilização. Pois bem, esta lei que impera nas duas grandes metrópoles nacionais já está se estendendo por todo o país, e quem sabe por onde mais? Quem tem arma manda, e quem não tem? Só resta entregar as mulheres, como na obra de Saramago traduzida no filme de Meireles! Como podemos denominar a nova ordem da segurança pública no Brasil das milícias? Selvageria ou barbárie? No plebiscito esta criança que é o povo brasileiro pergunta à sua intelligentsia: “Quo Vadis, Domine?”

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José Alves - Jornalista, residente em Belo Horizonte - MG
2 Comentários
  1. Experidião - Pompéu - MG

    Certamente o maior fator estimulador da criminalidade é a impunidade. Nossos tribunais com seu rito lento manda uma mensagem: entre para a criminalidade, dinheiro facil sem punição! Outro dia um assaltante me disse: ” Tive de mudar meu local de trabalho, em Betim estão matando muito e aqui em Nova Serrana ta mais tranquilo”. Vi tambem uma Senadora da República condenar a declaração de um Deputado de que policial que mata bandido deveria receber uma medalha. Ai me remete ao artigo do Zé, nós que não temos carros blindados nem seguranças ainda temos de contar com a policia, e, por nossa sorte, temos policiais que tem compromisso com a segurança mesmo sendo perseguidos pelos “direitos humanos”. Temos um bom parametro aqui na nossa cidadezinha chamada Pompéu: quando matam um bandido ficamos em media 6 meses sem outro assalto. Ninguem quer trabalhar correndo riscos nem os assaltantes de Betim. A cada bandido que a policia mata 100 mil jovens deixam de entrar para o crime. Os hipócritas que me perdoem!

  2. Sânia - Betim - MG

    Corações e mentes.
    Sobre a matéria do Armazém do Zé, tem trechos bons, mas é polêmica. Na verdade penso que este assunto seguranca e violência é bastante complexo porque misturamos tudo e deixamos de perceber as várias formas de insegurança e violência vigentes na sociedade. Outro dia lia entrevistas com jovens de Ribeirão das Neves (pena que não posso publicar) e o que eles contavam da relação com a polícia era de arrepiar…Quem são os bandidos? E uma professora do RJ que participa de um grupo internacional que reune vários países e discute a situação da infância e jovens, comentava que a omissão e a impossibilidade de discutir e encarar o crime do tráfico é mundial…Este assunto esquece-se, parece uma guerra perdida. Neste sentido, a idéia da segurança via comunidade é interessante para determinadas situações … Mas não enfrenta este mundo de violência e crime onde os mais pobres e jovens são as maiores vítimas, e a rede é articulada com um poder econômico e político muito grande. Eu não tenho afinidade com o tema, apenas alguma aproximação por causa da discussão sobre o adolescente autor de ato infracional e o desafio de se implantar as medidas socioeducativas previstas no ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente.
    Quanto ao comentário do leitor, muito representativo de uma opinião e prática que ainda existe no país, reflete os resquícios de uma sociedade que vivenciou de forma muito precária a democracia e a compreensão dos direitos e da cidadania. E confirma que a violência está enraizada no coração e na mente das pessoas que acabam reproduzindo-a nas suas diversas formas, das mais explícitas às mais sutis.
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    O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente que há no mundo” (Gandhi)
    Eu, talvez por isto sonho com a infância. Com as crianças ainda é possível construir outra cultura, a cultura da paz.
    “Se queremos alcançar a verdadeira paz neste mundo e se queremos desfechar uma guerra verdadeira contra a guerra, teremos de começar pelas crianças; se crescerem com sua inocência natural, não teremos de lutar; não teremos de tomar decisões ociosas e infrutíferas, mas seguiremos do amor para o amor, da paz para a paz, até que finalmente todos os cantos do mundo estarão dominados pela paz e pelo amor, pelo que o mundo inteiro está ansiando, consciente ou inconscientemente.” (Gandhi)
    Hoje faço uma leitura diferente e entendo melhor o caminho espiritual proposto pelo Gandhi.
    Boas horas para todos!
    Sânia

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