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Nada

Publicado por João Evangelista Rodrigues em Poesia
data: 23/03/2010

nada aprendemos com a morte

no Calvário

no Horto das Oliveiras

não há choro

nada é necessário

*

a morte dos pássaros e dos rios

das geleiras e florestas

a morte dos peixes

dos bichos de terra firme

nada nos ensina

nem mesmo a morte de nosso melhor amigo

de um parente mais próximo

dá-nos algo essencial

sobre a vida precária

a que em nós teima em resistir

por insistência do corpo provisório

castigo do espírito insaciável

*

à todas as mortes assistimos

impávidos e inertes

entre omissos e impotentes

mas avenidas e estradas

nos templos e cavernas

nas arenas e supermercados

nas fábricas e estádios

como se assiste a um ritual de magia

a uma luta de serpentes

a um programa imbecil de TV

*

a notícia da morte por e-mail

se mistura a imagens de catástrofes

e “spans” de  mal gosto

a comentários políticos e inócuos

sobre o cotidiano de um herói sem caráter

de um país sem imaginação

*

a tudo se iguala a Tal

sem rosto

em consórcios de consumo

sem perceber nos consumimos

em espetáculos sucessivos e recorrentes

sob rótulos e slogans

os mais diversos e  eloqüentes

*

nada aprendemos com a morte

alheia

por mais estúpida e feia

estampada nos jornais

na Internet

com as mortificações globais

menos ainda aprendemos com o discurso dos sobreviventes

no percurso de nossa própria morte

*

nada aprendemos com a morte

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João Evangelista Rodrigues - É poeta, compositor e produtor cultural. Residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. são versos para a reflexão! lembraram-me estes:

    imposição
    líria porto

    morria de medo da morte
    resolveu matar a morte
    sangrou a morte de morte
    um punhal fino e cruento
    e a morte não morreu

    (jogou o punhal na cova)

    condenou a morte à forca
    eis o que aconteceu
    a corda que ele usava
    com toda força que tinha
    enrolou-se-lhe ao pescoço

    (ficou no maior sufoco)

    ofereceu-lhe veneno
    um copo cheio de morte
    a morte bebeu a morte
    e a morte não morreu
    brincava a morte com o gelo

    (existe a lei do mais forte)

    *

    (gostei muito do site – obrigada – coloquei-o entre os favoritos)

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