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Estórias de feitiçaria

Publicado por Editor em Castaneda e Don Juan
data: 01/07/2013

Apenas os feiticeiros podem transformar seus sentimentos em intento. O intento é o espírito, logo é o espírito que move seus pontos de aglutinação. A parte enganosa de tudo isso é que apenas os feiticeiros sabem a respeito do espírito, o intento é de domínio exclusivo deles.

Isto não é verdadeiro de modo algum, mas, na prática, é assim que se apresenta. A contradição real é que os feiticeiros são mais conscientes de sua conexão com o espírito do que o homem comum, e lutam para manipulá-la. Isso é tudo. Já expliquei que o elo de conexão com o intento é partilhado por tudo o que existe.

Estou tentando introduzir as histórias de feitiçaria como tema. Nunca falei a você de modo específico sobre esse tópico porque tradicionalmente é deixado oculto. É o último artifício do espírito.

É necessário começar a tirar conclusões baseadas numa visão sistemática do passado, conclusões tanto sobre o mundo dos afazeres diários quanto sobre o mundo dos feiticeiros.

Os feiticeiros são vitalmente preocupados com sua história, mas não me refiro a sua história pessoal. Para os feiticeiros, sua história é o que os outros feiticeiros fizeram em tempos passados. E o que vamos fazer agora é examinar esse passado.

O homem comum também examina seu passado. Mas é principalmente seu passado pessoal que examina, e o faz por motivos pessoais. Os feiticeiros fazem praticamente o oposto, consultam seu passado de modo a obter um ponto de referência.

O homem comum mede-se contra o passado, seja seu passado pessoal ou o conhecimento passado de seu tempo, de modo a encontrar justificativas para o seu comportamento presente e futuro, ou para estabelecer um modelo para si mesmo. Apenas os feiticeiros buscam de modo genuíno um ponto de referência no seu passado.

Para os feiticeiros, estabelecer um ponto de referência significa obter uma oportunidade de examinar o intento. O que é exatamente o objetivo desse tópico final de instrução. E nada pode dar aos feiticeiros uma visão melhor do intento do que examinar histórias de outros feiticeiros, esforçando-se para compreender a mesma força.

As sutilezas do espírito

Usando a consciência intensificada durante milhares de anos de doloroso esforço, os feiticeiros obtiveram percepções específicas do intento, e passaram esse precioso conhecimento direto de geração em geração, até o presente. A tarefa da feitiçaria é tomar esse conhecimento aparentemente incompreensível e torná-lo compreensível pelos padrões da consciência da vida cotidiana.

Em feitiçaria há 21 manifestações sutis, que chamaremos sutilezas do espírito – arranjadas num nível crescente de complexidade – e então, baseados nessas manifestações, há grande quantidade de histórias sobre os mestres feiticeiros de nossa linhagem, lutando para compreender o espírito.

É tempo de contar-lhe sobre essas sutilezas e as histórias de feitiçaria. Lida-se aqui com o primeiro e segundo dos seis conjuntos de sutilezas, que compreendem: as manifestações do espírito, o assalto do espírito, as artimanhas do espírito, a descida do espírito, os requisitos do intento, a decisão do espírito, a manipulação do intento e os desígnios do espírito.

Por meios além da compreensão, cada detalhe de cada sutileza se repete para todos os aprendizes. O modo pelo qual cada aprendiz percebe essas sutilezas cria uma série de histórias ao redor delas, incorporando os detalhes particulares da personalidade de cada aprendiz e das circunstâncias. Quando o aprendiz compreende cada uma dessas sutilezas é como se tivesse colocado a última pedra que conclui uma imensa pirâmide.

Os sinais do espírito

A primeira história de feitiçaria que vou lhe contar é chamada os sinais do espírito, mas não deixe que o título o impressione. Os sinais do espírito são apenas a primeira sutileza ao redor do qual a primeira história de feitiçaria está construída.

Essa primeira sutileza é uma história em si mesma. A história diz que tempos atrás houve um homem, um homem comum sem quaisquer atributos especiais. Era, como todos os demais, um conduto para o espírito. E em virtude disso, como todos os demais, era parte do espírito, parte do abstrato. Mas não sabia disso. O mundo mantinha-o tão ocupado que ele realmente não tinha tempo nem inclinação para dar importância ao assunto.

O espírito tentou, sem sucesso, revelar sua conexão. Usando uma voz interior, o espírito revelou seus segredos, mas o homem era incapaz de compreender as revelações. Naturalmente, ouvia a voz interior, mas acreditava que fossem seus próprios sentimentos que estava sentindo e seus próprios pensamentos que estava pensando.

O espírito, para sacudi-lo de sua modorra, deu-lhe três sinais sucessivos. O espírito cruzou fisicamente o caminho do homem da maneira mais óbvia. Mas o homem estava alheio a qualquer outra coisa, só se preocupava consigo mesmo.

Acabei de contar-lhe a primeira sutileza. A única coisa que poderia acrescentar é que por causa da absoluta relutância do homem em perceber, o espírito foi forçado a usar de artimanhas. E as artimanhas tornaram-se a essência do caminho dos feiticeiros. Mas isso é outra história.

Os feiticeiros compreendem essa sutileza como um esquema dos acontecimentos, ou um padrão que aparece todas as vezes em que o intento estiver dando uma indicação de algo significativo. As sutilezas, assim, são esquemas de cadeias completas de eventos.

Pressentimentos e dádivas

Todo ato executado por feiticeiros é executado através de seu elo com o intento. Os feiticeiros, têm portanto de estar viva e permanentemente atentos às manifestações do espírito.

Tais sinais são chamados gestos do espírito ou, de modo mais simples, pressentimentos. O homem pode modificar tudo que o cerca, o mundo se adapta a nós. Isso não é uma dádiva, é um ato de vontade, um ato de poder. O mundo sustentado pela razão faz de tudo isso um acontecimento insignificante, que podemos observar por um momento, entre coisas mais importantes. O mundo sustentado pela vontade, ao contrário, torna isso um ato de poder, que podemos ver.

Quando um feiticeiro interpreta um pressentimento, sabe seu significado exato sem ter qualquer noção de como sabe. Este é um dos efeitos desconcertantes do elo de conexão com o intento. Os feiticeiros têm um senso de saber coisas diretamente. A medida de sua certeza depende da força e clareza de seu elo de conexão.

A sensação que todos conhecem como “intuição” é a ativação de nosso elo com o intento. E desde que os feiticeiros perseguem com deliberação a compreensão e o fortalecimento desse elo, pode-se dizer que intuem tudo infalível e acuradamente. Interpretar pressentimentos é lugar comum para feiticeiros – os enganos acontecem apenas quando sentimentos pessoais intervêm e turvam o elo de conexão dos feiticeiros com o intento. De outro modo o seu conhecimento direto é totalmente acurado e funcional.

O espírito manifesta-se a um mestre feiticeiro a todo momento. Entretanto, esta não é a verdade completa. A verdade completa é que o espírito se revela a todos com a mesma intensidade e consistência, mas apenas os feiticeiros estão sintonizados a tais revelações.

O intento cria cenários à nossa frente e convida-nos a penetrá-los. Este é o modo pelo qual os feiticeiros compreendem o que está acontecendo ao seu redor.

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