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A magia do espírito

Publicado por Editor em Castaneda e Don Juan
data: 11/06/2013

No universo há uma força imensurável e indescritível que os feiticeiros chamam intento, e que absolutamente tudo o que existe no cosmo inteiro está ligado ao intento por um elo de conexão. Feiticeiros, ou guerreiros, preocupam-se em discutir, compreender e utilizar este elo de conexão. Estão especialmente empenhados em limpá-lo dos efeitos atordoantes causados pelas preocupações comuns de suas vidas cotidianas. A feitiçaria a este nível pode ser definida como um procedimento de limpar o elo de conexão de um indivíduo ao intento.

Intento – a força que muda e reordena as coisas ou as mantém como são. A única maneira de conhecê-lo é diretamente através de uma conexão viva que existe entre o intento e todos os seres sencientes. Os feiticeiros chamam de intento o indescritível, o espírito, o abstrato, o nagual.

Este processo de limpeza é extremamente difícil de compreender, ou aprender a executar. Os feiticeiros, por isso, dividem sua instrução em duas categorias. Uma é a instrução para o estado de consciência da vida cotidiana, no qual o processo de limpeza é apresentado de modo disfarçado. A outra é a instrução para os estados de consciência intensificados, quando os feiticeiros obtêm o conhecimento diretamente do intento, sem a intervenção perturbadora da linguagem falada.

Conhecimento sem palavras e sem pensamentos

Quero que compreenda o que está por trás do que lhe ensino. Para você podem ser procedimentos secretos, ocultos. Para mim, significa duas coisas: tanto o cenário que o intento constrói num piscar de olhos e coloca diante de nós, convidando-nos para penetrá-lo, e os sinais que nos dá de modo a que não nos percamos quando estamos dentro.

Obviamente, o que os feiticeiros chamam de manifestações sutis ou sutilezas do espírito é algo que você vai aprender a partir de agora. Essas sutilezas ocorrem no cenário criado pelo intento para você entrar.

Segundo a regra, as sutilezas do espírito e as histórias de feitiçaria devem ser contadas neste ponto. E algum dia o conhecimento sem palavras, ou o cenário do intento será revelado a você pelas próprias histórias. O cenário de que falei é onde você vai se comunicar com o espírito diretamente, sem intervenção da linguagem.

O ponto crucial de nossa dificuldade é a recusa em aceitar que podemos saber sem palavras ou mesmo sem pensamentos. Aceitar essa proposição não é fácil como dizer que você a aceita. A totalidade da humanidade se afastou do abstrato, perdeu a capacidade intuidora. Esta foi em certa época nossa fonte sustentadora. Então alguma coisa aconteceu e puxou-nos para longe do abstrato. Agora não conseguimos recuperar essa conexão. São necessários anos para que um aprendiz seja capaz de voltar ao abstrato, isto é, saber que o conhecimento e a linguagem podem existir independentemente um do outro. Conhecimento e linguagem são independentes.

Não há maneira de falar sobre o espírito porque o espírito pode apenas ser experimentado. Os feiticeiros tentam explicar essa condição quando afirmam que o espírito não é nada que você possa ver ou sentir. Mas está pairando sobre nós o tempo todo. Às vezes surge para algum de nós. Durante a maior parte do tempo parece indiferente.

O seu problema é que você considera apenas a sua própria idéia do que é abstrato. Por exemplo, a essência interior do homem, ou o princípio fundamental, são abstratos para você. Ou talvez um pouco menos vago, tal como caráter, vontade, coragem, dignidade, honra. O espírito, naturalmente, pode ser descrito em termos de todas as essas coisas. E é isso que é tão confuso, é que é todas essas coisas e nenhuma delas.

O que se considera abstrações são ou os opostos de todas as praticidades sobre as quais se pode pensar ou coisas que se decide não ter existência concreta. Para um feiticeiro um abstrato é algo sem paralelo na condição humana.

Para um feiticeiro, o espírito é abstrato simplesmente porque ele o conhece sem palavras ou mesmo pensamentos. É abstrato porque não pode conceber o que seja o espírito. E, no entanto, sem a menor chance ou desejo de compreendê-lo, um feiticeiro interage com o espírito. Reconhece-o, acena-lhe, convida-o, familiariza-se com ele, e expressa-o através de seus atos.

A raiz de sua concepção errônea é que usei o termo “abstrato” para descrever o espírito. Para você, abstrato são palavras que descrevem a subjetividade. Um exemplo é a palavra “espírito”, que não descreve a razão ou a experiência pragmática, e a qual, naturalmente, não tem utilidade para você senão a de estimular sua imaginação.

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