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A loucura controlada

Publicado por Editor em Castaneda e Don Juan
data: 28/05/2013

A implacabilidade ou não-piedade

Uma sensação de estar arrolhado é experimentada por todo ser humano. É um lembrete da existência de nossa conexão com o intento. Para os feiticeiros essa sensação é ainda mais aguda, precisamente porque seu objetivo é sensibilizar seu elo de conexão até que possam fazê-lo funcionar à vontade. Quando a pressão de seu elo de conexão é grande demais, os feiticeiros aliviam-na espreitando a si mesmos.

É isto que é implacabilidade: uma total falta de piedade quando o ponto de aglutinação atinge a posição chamada o lugar da não-piedade. O problema que os feiticeiros têm a resolver é que o lugar da não-piedade deve ser alcançado com o mínimo de ajuda possível. O mestre-feiticeiro prepara o cenário, mas é o aprendiz que faz seu ponto de aglutinação se mover.

Três classes de pessoas

Os espreitadores que praticam a loucura controlada acreditam que, em questão de personalidade, a raça humana inteira entra em três categorias. Os espreitadores acham que não somos tão complexos como pensamos ser e que todos pertencemos a uma das três categorias.

As pessoas da primeira classe são os secretários perfeitos, assistentes, companheiros. Têm uma personalidade muito fluida, mas sua fluidez não é nutritiva. São, entretanto, serviçais, preocupados, totalmente domésticos, dispõem de recursos dentro de certos limites, são bem-humorados, têm boas maneiras, são doces e delicados.

Em outras palavras, são as pessoas mais simpáticas que alguém pode encontrar, mas têm uma enorme falha: não conseguem funcionar sozinhas. Estão sempre necessitadas de alguém para dirigi-las. Com direção, são perfeitas, não importando quão difícil ou antagônica essa direção possa ser. Entregues a si mesmas, perecem.

As pessoas da segunda classe não são nem um pouco simpáticas. São mesquinhas, vingativas, invejosas, ciumentas, autocentradas. Falam exclusivamente sobre si mesmas e em geral esperam que as pessoas se enquadrem em seus padrões. Sempre tomam a iniciativa mesmo quando não se sentem confortáveis com ela. Ficam profundamente desconfortáveis em qualquer situação e nunca relaxam. São inseguras e nunca conseguem ser agradadas; quanto mais inseguras se tornam, mais desagradáveis ficam. Sua falha fatal é que matariam para ser líderes.

Na terceira categoria estão as pessoas que não são simpáticas nem desagradáveis. Não servem e não se impõem a ninguém. Antes, são indiferentes. Têm uma idéia exaltada acerca de si mesmas derivada unicamente de divagações de pensamento desejoso. Se são extraordinárias em alguma coisa, é em esperar que as coisas aconteçam.

Estão esperando ser descobertas e conquistadas e têm uma maravilhosa facilidade para criar a ilusão de que têm grandes coisas em suspenso, que sempre prometem liberar mas nunca fazem porque, na verdade, não dispõem de tais recursos.

A ausência da auto-importância

O problema conosco é que nos tomamos a sério. Independente da categoria na qual se encaixa nossa auto-imagem, isto só importa por causa de nossa auto-estima. Se não fôssemos tão auto-importantes, não importaria nem um pouco em qual categoria entraríamos.

Na ausência da auto-importância, o único modo de um guerreiro lidar com o meio social é em termos de loucura controlada: a única ponte entre a loucura das pessoas e a finalidade dos ditames da Águia.

A técnica da loucura controlada

Na arte de espreitar há uma técnica que os feiticeiros usam muito: a loucura controlada. Segundo eles, a loucura controlada é a única maneira que têm de lidar consigo mesmos, em seu estado de consciência e percepção expandidas, e com todos e tudo no mundo dos afazeres diários.

A loucura controlada é a arte do engano controlado ou a arte de fingir estar profundamente imerso na ação – fingindo tão bem que ninguém possa distingui-lo da coisa real. A loucura controlada não é um engano direto, mas um modo sofisticado, artístico, de estar separado de tudo permanecendo ao mesmo tempo uma parte de tudo.

A loucura controlada é uma arte. Uma arte que causa muitas preocupações,e muito difícil para se aprender. Muitos feiticeiros não suportam isso, não porque haja alguma coisa inerentemente errada com a arte, mas porque é preciso muita energia para exercê-la.

Na idade em que chegamos à feitiçaria, nossa personalidade já está formada, e tudo que podemos fazer é praticar a loucura controlada e rir de nós mesmos.

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