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11/09/2013 – Chile, 40 anos do golpe militar – parte III

Publicado por Editor em América Latina, Espaço do Leitor
data: 30/09/2013

A Força Aérea: A Estratégia do “Diversionismo”

Na manhã da segunda-feira do dia 20 de agosto de 1973, o Presidente Salvador Allende pegou um helicóptero da Força Aérea rumo à cidade de Chillán, onde lideraria a comemoração do aniversário número 195 de Bernardo O´Higgins. Os pilotos haviam pensado em uma idéia extrema: desviar-se da rota e seqüestrar o Presidente em algum lugar do sul do Chile. Com isso pretendiam responder à crise que vivia a Força Aérea Chilena, FACh, embora sua ação também podia ser o início de um golpe de Estado. Não obstante, no caminho, cancelaram o plano.

A FACh tinha acordado aquele dia num estado de exaltação. Algumas horas antes, na noite do domingo, o general César Ruiz Danyau, tinha se apresentado fardado no programa do Canal 13, “A esta se improvisa” junto com representantes da oposição, o jovem dirigente Jaime Guzmán e o democrata-cristão Jorge Navarrete, que fizeram uma festa explorando suas contradições com o governo da UP. Uma festa um tanto sombria, porque nenhum dos inteligentes debatedores ignorava a gravidade de que um general participasse de um debate político. Com um detalhe ainda mais sério: Ruiz Danyau não era mais o comandante-em-chefe.

Ruiz Danyau era o único dos comandantes que Allende conhecia desde antes de assumir o poder, e por isso, ele acreditava ter com ele certa amizade. Quando convocou os comandantes para se integrarem a um gabinete de “Segurança Nacional”, cujo objetivo principal seria desmantelar uma nova greve dos caminhoneiros, iniciada no dia 26 de julho, lhe permitiu escolher a assessoria que ele preferisse. No dia 9 de agosto, Ruiz Danyau jurou como ministro de Obras Públicas e Transportes. A seleção tinha uma intenção inconfessável: Ruiz Danyau queria evitar que o governo sufocasse a organização dos transportadores.

Mas seis dias depois, o subsecretário de Transportes, Jaime Faivovich lançou uma advertência anunciando a requisição massiva de caminhões caso a greve continuasse. Ruiz Danyau, se sentindo ultrapassado, apresentou a sua demissão como ministro. Allende pediu para ele ficar, devido ao fato de que a greve estava quase acabando. Ante a insistência de Ruiz Danyau, o Presidente tentou que assumisse o cargo outro general da FACh. Logo percebeu que ninguém o faria sem uma oferta mais interessante, como o comando em chefe. Foi o que ele ofereceu aos dois generais seguintes na linha de mando, Gustavo Leigh e Gabriel van Schouwen. Mas nenhum dos dois quis aceitar até que se resolvesse a situação de Ruiz Danyau.

Na tarde do dia 17 de agosto, após uma pressão insuportável, Ruiz Danyau assinou seu pedido de demissão para o ministério e para a FACh. O presidente a levou no bolso para uma ceia secreta que teria com o senador da DC Patricio Aylwin, na casa do cardeal Raúl Silva Henríquez.

O general Leigh condicionou a sua aceitação a não assumir o ministério; o presidente aceitou que esse cargo fosse outorgado a outro general, Humberto Magliochetti, quebrando a exigência que havia feito a Ruiz Danyau. Indignado por essa mudança, o general Danyau decidiu que, embora ele houvesse assinado uma carta, não tinha assinado o seu expediente de renúncia, e sua situação final não estava selada. Sentiu-se enganado.

A nomeação de Leigh como comandante-em-chefe foi efetivada no sábado, 18 de agosto. Por isso, a aparição de Ruiz Danyau em “A esta hora se improvisa” era, além de irregular, uma perturbação muito séria.

Na manhã do dia 20, os oficiais das bases aéreas de El Bosque, Cerrillos e Colina ordenaram um “auto-aquartalemento” que, segundo o comunicado emitido pelo chefe de relações públicas da FACh, o comandante Ramón Gallegos, tinha como objetivo rejeitar o procedimento do governo de exonerar o general Ruiz Danyau. Outras bases de outras províncias se uniram. Era uma insurreição em grande escala. Pouco depois do meio-dia, o ministro de Defesa e comandante em chefe do Exército, general Carlos Prats, ordenou a seu chefe de Estado Maior, o general Augusto Pinochet e ao comandante em chefe da Armada, almirante Raúl Montero, aquartelar em primeiro grau as suas unidades principais, como prevenção de outros fatos maiores.

Prats, deliberadamente, não relatou a Allende a crise da FACh, ante as certezas do general Leigh de que seria controlada. Com Allende ausente de La Moneda, foi Letelier, então ministro do Interior, quem enfrentou a situação. Pediu ao PC que Orlando Millas o acompanhasse a seu gabinete. Deu instruções a Prats e à Polícia, e ordenou ao intendente Julio Stuardo que interditasse a Rádio Agricultura e informasse sobre o que ocorria a todos os partidos, menos no Partido Nacional.

Ruiz Danyau foi de manhã até a base de Cerrillos, onde o estavam esperando cerca de 80 oficiais que exigiam a sua restituição no comando. Depois de avisar ao general Leigh, se deslocou até a base El Bosque, onde tinham se reunido cerca de 200 oficiais no anfiteatro principal. A reunião não foi nada calma. No clima de exaltação dominou a idéia de obrigar o governo a colocar de novo a Ruiz Danyau no cargo. Mas já estava claro que nem o Exército nem a Armada se somariam nesse momento a uma aventura dessa natureza.

Quando chegaram Leigh e outros generais, se reuniram com Ruiz Danyau. Eles criticaram a sua conduta ambivalente, a exaltação nas bases aéreas e, principalmente, sua participação no programa “A esta hora se improvisa”. Antes das 19 horas, Ruiz Danyau aceitou ir embora e reconhecer o comando de Leigh. O novo comandante em chefe foi até La Moneda e informou ao Presidente e aos ministros Prats e Letelier. Quando voltou de Chillán, Allende leu à noite um comunicado pacificador em cadeia nacional.

Como conseqüência da crise, na manhã seguinte, no dia 21, umas cinqüenta mulheres, que mais tarde foram identificadas como esposas de oficiais da Força Aérea, se reuniram em frente ao Ministério da Defesa para gritar e apoiar a Ruiz Danyau contra Prats, a quem atribuíam a queda do general. Prats, gripado e com febre, contemporizou o incidente e depois do almoço foi para sua casa. Não imaginava o que viria.

Leigh também não ficou tranqüilo. Pelo menos desde a segunda metade de 1972, ele tinha se envolvido numa sucessão de reuniões com altos oficiais da própria FACh, da Armada, do Exército e inclusive a polícia, os Carabineros, com o objetivo de derrubar o governo da UP. Já em junho de 1973, aqueles encontros já tinham a forma de uma conspiração: não envolvia os comandantes em chefe, se realizavam secretamente e estavam fora das regras hierárquicas.

Tão logo assumiu a chefia da FACh, Leigh notificou a seus colegas que não poderia continuar omisso. O assessorava o subchefe do Estado Maior Conjunto, o general Nicanor Díaz Estrada, um homem mais veemente que ele mesmo, que vinha afrontando o governo com seus esforços por incriminar a ultra esquerda no assassinato do ajudante naval do presidente, o comandante Arturo Araya, apesar das crescentes evidências que acumulava a polícia contra a ultra direita.

Leigh devia se cuidar. Era a primeira peça na estratégia de dominar todos os cargos superiores nas Forças Armadas. O governo não confiava nele, mas não tinha alternativa. Estava contando com sua obediência constitucional.

A FACh também se sentia ameaçada por dentro. Dois dos seus generais trabalhavam para o governo e simpatizavam abertamente com ele: Alberto Bachelet, nomeado para a Direção de Abastecimento e Comercialização; e Carlos Dinator, auditor. Os dois tinham sido isolados delicadamente da linha de comando, mas Leigh sabia que outros oficiais e suboficiais simpatizavam com a UP; alguns tinham filhos ou sobrinhos que militavam nos partidos do governo ou, pior ainda, no Movimento de Esquerda Revolucionária, MIR. Não havia forma de calcular a capacidade de deteriorar o comando, no caso de uma insurreição da FACh. O quebra da hierarquia não era uma simples fantasia. Contribuíam com essa idéia, de modo paradoxal, os jornais e revistas da UP, que desde agosto vinham publicando listas de oficiais “golpistas”; os comandantes se perguntavam de onde saiam essas informações.

Leigh não ocultou suas intenções em um aspecto: a aplicação da Lei de Controle de Armas, uma norma ditada em 1972 para limitar o que então parecia um crescente aumento do armamento em mãos privadas. Depois do “tanquetaço” do dia 29 de junho de 1973, as Forças Armadas decidiram aplicá-la com mais severidade e a vanguarda desse endurecimento a tomou a Armada e a FACh.

Os setores revolucionários a consideravam uma lei repressiva e denunciavam o seu uso abusivo por parte das Forças Armadas. Sem dúvida, essas operações freavam as atividades do treinamento militar, distribuição de armas e acumulação de forças irregulares nos bastiões do “poder popular”; os obrigavam, pelo menos, a ficar dissimulados na clandestinidade.

Entre agosto e setembro, a FACh tomou iniciativas que iam além das suas funções. Embora o Presidente apoiasse a lei, as denúncias dos seus partidários o levaram a expor várias vezes os seus reparos ao chefe da FACh. Leigh, no extremo de sua capacidade de dissimular, fez saber a Allende o “estranho” que era o fato de que ninguém denunciasse o armamentismo da direita.

O então ministro de Defesa, Orlando Letelier, desconfiava muito mais de Leigh. Ele acreditava, como diria mais tarde a Joan Garcés, que era o líder do “diversionismo” com que tratavam de acalmar o governo os que preparavam o golpe de Estado.

Duas operações militares levaram as coisas a um ponto limite. A primeira aconteceu no dia 4 de agosto em Punta Arenas, na fábrica Lanera Austral, onde tropas combinadas sob o comando do chefe da V Divisão, o general Manuel Torres de la Cruz, entraram ao amanhecer e submeteram os operários a um violento processo de registro e interrogatório. Um deles, Manuel González, foi morto com um tiro. As tropas não encontraram armas.

Allende enviou dois ministros, Jaime Tohá e Sergio Insunza para investigar de forma independente. O informe que elaboraram atribuía uso excessivo da força por parte dos soldados da IV Brigada Aérea. Quando Leigh o recebeu, ainda chefe do estado Maior da FACh, disse que o estudaria, mas que em principio estimava que havia elementos exagerados.

Um mês mais tarde, na noite do dia 7 de setembro, um forte contingente da FACh se dirigiu para invadir uma casa vizinha às indústrias Sumar, na área de San Joaquín. Segundo a versão militar, enquanto se desenvolvia essa operação, os soldados foram atacados do interior da fábrica Sumar-Nylon, motivo pelo qual decidiram entrar. Enquanto os operários eram obrigados a sair para a rua, se iniciou um concerto de sirenes e alarmes, e cerca de 500 homens começaram a se aproximar.  Para evitar um enfrentamento, os caminhões da FACh se retiraram… com 23 pessoas presas.

Essa noite, o ministro Letelier estava jantando na casa do general Prats e falou várias vezes com Leigh, tentando convencê-lo de retirar as tropas. Depois o convocou a seu gabinete para a manhã do sábado, dia 8, junto com o diretor de Investigações, o socialista Alfredo Joignant. Para irritação de Leigh, Letelier disse que a investigação oficial seria feita pela polícia civil, e que daí para frente as Forças Armadas não realizariam nenhuma busca e apreensão sem consulta e consentimento prévio do próprio ministro.

Leigh não confrontou estas medidas. Mas se sentia no limite. Muitos anos depois, o então comandante Ernesto Galaz diria no programa “Mentiras Verdaderas” do canal La Red, que entre os oficiais da FACh havia 10% que simpatizava com a UP e se opunha a um golpe de Estado, e outros 10% que tinha “uma aversão enorme contra o governo”. Os 80% restantes, disse, era gente que não apoiava ninguém, e que “ficaram com os que ganharam”.

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