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Para Elisa

Publicado por Denise Paiva em Crônicas, Memórias
data: 08/04/2010

Feliz Aniversário, Elisa!

Rio de Janeiro, 11 de março de 2010. Exatamente 28 anos! Mês, dia e horas. Uma sequência de horas que parece estar acontecendo, hoje, no aqui e no agora por ser, ainda, tão nítida….

11 de março de 1982. Pouco mais de 6 horas da manhã, toca a campainha, era mamãe com a nova empregada, a Fiinha. Como sempre carregada de queijos da Jong, quitandas, casadinhos e cajuzinhos da Mariinha, goiabada da Dona Nair, massa de pão de queijo da Vovó Antonieta.

Eu já tinha a Gilda, que Letícia chamava de Duda, mas tinha um quarto bem grande de empregada que caberia as duas sem problema.

Tempos de vacas gordas, e de muita felicidade, naquele amplo apartamento na Rua Madre Cabrini, na Vila Mariana em São Paulo.

Mamãe queria saber o que eu tinha comprado de enxoval para o novo bebê, previsto para nascer dia 21 de março. Coincidentemente, dia 21 seria aniversário da Letícia que iria fazer dois anos. Disse-lhe que eu tinha muita coisa de recém-nascido guardada e estava esperando saber se iria ser menina ou menino para comprar ou rosa ou azul. Enfim, estava esperando nascer para completar o que faltava.

Mamãe ficou indignada, era como já conhecesse e tomasse as dores de Elisa.

-Nem pensar! Então vamos comprar amarelo ou verde, mas o bebê tem que ter coisas novas, especiais para ele.

Estava trabalhando na Secretaria do Bem-Estar Social da Prefeitura de São Paulo, na Coordenadoria de Recursos Humanos, minha chefe imediata era Luiza Erundina. Liguei para ela e disse que não iria trabalhar, pois minha mãe havia chegado de Minas e queria sair para comprar enxoval para o bebê.

-Sim, Dê (assim ela me chamava). Depois você compensa!

Por sorte não comi quase nada, fomos de metrô para o Centro e batemos pernas o dia todo. Engraçado, eu não sentia fome e mamãe preocupada, porque eu tinha engordado muito pouco, nem 8 quilos na gravidez de Elisa. Mamãe o tempo todo querendo que eu comesse pastel, suco de laranja, e eu sem vontade de comer, mas com uma disposição danada de andar e comprar coisas para o bebê. Verde, de repente, era macacão verde, manta verde, pagãozinhos verdes ou estampados de verde. Uma coisa ali, outra aqui. Mas o grosso mesmo eu comprei nas Casas Pernambucanas.

De repente a moça que me atendia perguntou:

- Você está passando bem? Está com uma cara esquisita. Mamãe logo se interpôs.  É fome, ela não comeu nada hoje!

- Vamos de táxi, para levar as compras, ela disse.

Não, mãe, a moça diz que manda entregar, e ainda faltam mais de 10 dias para o bebê nascer! Vamos de metrô, é mais rápido.

Lá fomos de metrô!

Quando chegamos na Estação Paraíso, eu disse: -Vamos descer aqui, agora!

Mamãe não entendeu nada e retrucava:  – Aqui não é Vila Mariana!

- É, mãe, desce, depois lhe explico…

-Mãe, o consultório do Dr. Pedro Paulo Roque Monteleone (nome pomposo) é logo ali, eu vou perguntar a ele quando este bebê vai nascer. A senhora vai embora hoje, e tem que saber quando volta, pois quero que esteja ao meu lado quando o bebê nascer.

Coisas da sagrada intuição ou das mãos do anjo da guarda. Quando entrei no consultório do Dr. Monteleone ele já estava no corredor de saída e eu disse a ele o argumento que tinha dado a minha mãe.

Ele voltou, me examinou e disse: – Outra menina!

Como soube, eu não sei, não perguntei mas ali eu já sabia que viria uma Carolina, Isabela ou Luiza, jamais pensei em Elisa.

- Não vá para casa, corra para o Hospital Matarazzo, diga ao seu marido que a encontre lá. Você está com muita dilatação e a menina pode até escorregar!

Graças a Deus, a bolsa não rompeu! Elisa como Letícia nasceram empelicadas, e segundo vovó Antonieta os bebês que nascem empelicados têm muita sorte na vida.

Sem dor, nenhuma dor, lembrei do enxoval verde que deixei nas Casas Pernambucanas, lembrei que não tinha arrumado nada….. Mas graças a Deus, a poderosa Vovó Hebe estava ali ao meu lado e resolveria tudo!

Trabalho de parto na Avenida Paulista!

Telefonei para o Geninho, meu marido, e disse o que médico indicara, mas ele não aceitou:

- Tome um táxi, que eu já estarei te esperando na porta. Vamos no meu carro, pois se acontecer do bebê nascer eu faço o parto.

Geninho ria, como se eu tivesse contando uma piada.

Quando cheguei em casa lá já estava a Gilda na portaria do prédio com um suco de laranja e um bolsa com algumas roupas para mim e outras muito rotas para o bebê, ela não havia escolhido nada direito….., e eu não tive tempo sequer de entrar em casa. Até Letícia foi ao portão para que eu desse um beijinho nela e pedisse: -Fique com a vovó Hebe que eu vou buscar sua irmãzinha. Ela disse: -Tá! Era um doce de criança, a mais cordata que eu, até então, havia conhecido.

Pegamos o horário do rush na Avenida Paulista.  Eu não sentia nenhuma dor, mas algo mexia cada vez mais rápido, e estava duro. Não sei, era uma sensação diferente e eu gritava:…. Anda , Geninho, anda!…..e ele dizia:

-Estamos num fusca e não num helicóptero!!

Como foi longo o trajeto de Vila Mariana ao Hospital Matarazzo na Bela Vista. Em lá chegando comecei a sentir dores prá valer, e foi um corre-corre. Não houve tempo para o preparo do parto. Doutor Monteleone, já estava lá fazia tempo, e nervoso. O anestesista não chegava. Eu urrava que nem uma vaca, uma cadela. Tudo foi muito rápido. Parto de pobre! Tudo improvisado! Elisa nasceu e com ela uma explosão de alegria sobrepôs-se à dor intensa. Geninho limpou a menina carinhosamente e me entregou. Eu estava exausta, mas lembro perfeitamente do seu rostinho, o mesmo que a acompanha por toda a sua vida.

Hoje Elisa está na Austrália, é o primeiro aniversário que não vou passar junto dela. Vejo suas fotos, lindíssimas. Meu Deus, quanta emoção, quanta saudade!

O tempo, este incrível mago do universo, às vezes nos ilude, parece que foi ontem e lá se vão 28 anos!

Quando eu ainda estava no Hospital, ligou Dona Maria do Carmo, minha sogra, muito querida e nunca foi tão incisiva quanto à sugestão do nome: “… ponha Elisa,  significa a enviada de Deus”!

Ouça “Para Elisa” de Beethoven:

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Denise Paiva - Pós-graduada em Serviço Social – Assessorias: Ministério da Saúde e Ação Social de Moçambique (1978-1980) - P.M.Juiz de Fora em três mandatos – Gabinete da P.M.São Paulo na Gestão Luísa Erundina (1990-1992) - de 1992 a 2005 junto à Presidência da República e Ministério da Justiça em Brasília – Atualmente é Pesquisadora e Consultora. Residente no Rio de Janeiro - RJ.
5 Comentários
  1. jose r c piqueira

    Pois é Denise, o querido Dr. Pedro Paulo Roque Monteleone (o Pepê) faleceu hoje. Quantas crianças (!), além da sua Elisa e de minhas três filhas devem a ele o parto calmo, tranquilo e seguro.
    Caro Pepê, que Deus o receba e o coloque no lugar que você merece.

  2. denisefpaiva

    Com esta notícia minha alma foi invadida por uma tremenda tristeza… ele foi muito especial no acompanhamento da minha gravidez, no parto e pós parto….

  3. Sônia Wetzel

    Pepê
    Engraçado falar como se você tivesse vivo. Talvez seja o nosso desejo. Que os amigos, que pessoas queridas não morram. Acabei de saber de sua morte, e quero te dizer como as minhas filhas que você ajudou a vir ao mundo, estão grandes, adultas, bonitas, mães prestimosas. Obrigada Pepê por tudo.
    Sônia

  4. Neusa

    O Professor Pedro Paulo R. Monteleone, ou Pepê, como era conhecido contribuiu para a formação de muitos ginecologistas e obstetras da Escola Paulista de Medicina.
    Muito amigo dos estudantes que depois de formados, reconhecendo sua competência, engrossavam a lista de clientes via mães, esposas ou elas próprias ex-alunas.
    Pepê foi meu médico por muitos anos, tive com ele minhas três filhas e minha filha, meus netos.
    Sei que fará falta para muitos de nós, com seu bom humor, paciência e alegria, aliados a sua grande competência.

  5. Cris de Paula

    Pepê querido!!! salvou minha vida e da minha filha mais velha Marianna hoje com 31 anos e cuidou tb da Stephanie de 14!! tantos anos de carinho..broncas (ele tb era bravo rsrs), palavrões e cuidados..que Deus cuide agora de você!!
    obrigada por tudo!!

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