Poesia

Uma casa sem livros

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 01/02/2018

Na casa sem livros um arco-íris não se mostra na janela nem um rio desliza na sala sob a mesa Começa a manhã quando nem se encontra o canto do pássaro O riso no quarto e as molecagens das crianças se contêm Ao café, ao almoço não tem o Seu Moço com olhos cismarentos de uma noite mal dormida O avô conta casos que ninguém ouve garotos não querem brincar à sombra da mangueira numa tarde sem cigarras A mocinha não ...

Senectus

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 24/01/2018

Cabelos brancos, escassos rugas, pele manchada presbiopia ou catarata? dentes amarelados dores ósseas, articulares sono irregular palpitações e dores no peito que bom prenúncio não são Como aconselhou Bandeira seria o caso de se tocar um tango argentino ou melhor seria – como pontuou Pagodinho em tempos recentes - deixar a vida nos levar? De minha parte, opto por um chorinho rasgado sem ficar olhando muito pela janela ...

Cenas de um casamento

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 10/01/2018

como num filme de bergman vejo-a em branco e preto contra a paisagem que se dilui em cinza braços cruzados, está ora de lado (seu perfil delicado desenha-se contra o écran da manhã invernosa) ora de frente, olhos de liv ullman que me interrogam com desaponto cobrando-me entregas não consumadas como num filme de bergman caminhamos na praia pedregosa evitando discutir promessas descumpridas seguro sua mão por instantes qua...

Natal sem círios

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 11/12/2017

Convido-o a passar o Natal comigo. Na praça dividiremos este pouco de tudo que me restou: um pão, garrafa de vinho barato, uma coroa de espinhos. Não nos esqueceremos de algo ofertar ao vira-lata que está a nos fitar. Sem mesa ou cadeira, no chão repartiremos a porção. Nesta praça erma descuidada, de luzes enfermas. Sem família sem risos ou cantigas eu e você conversaremos como se amigos fôssemos. Você não sabendo...

Lendo mãos

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 30/11/2017

Mesmo na bipolaridade em que vive – onde mais se expõem as tinturas do desespero vai constituir uma família. Você, cabe-lhe projetar alimentos roupas lavadas a capacidade de tudo equilibrar em meio à tormenta. A você outro, caminhos curtos tempos estritos plenos de inquietudes a arte – o horizonte – a capacidade de revolver terras e descobrir cristais. Ah, você, não menos importante o seu projeto de intuir forças...

Revelação

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 20/11/2017

À curva da estrada em meio à floresta de repente a lua enorme, amarelo-cobre O burburinho do riacho aquela flor vermelha qual o nome dela? Papoula? O declive as pedras brancacentas o voo inesperado de um gavião Fuga trânsfuga os passos estuga Voltemos à lua à curva do caminho a ela, a lua Lá enorme, muito além de toda humana qualquer invencionice Que nem por isto nos concita ao seu jugo de inequívoca soberania Compart...

Ninfo

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 14/11/2017

Por muitas vezes o traiu mas sempre ao voltar algo tinha a lhe mostrar Como o outro a pegava pelos flancos como lhe envergava a coluna Até uma vez num sussurro pediu: faça assim assim é como ele fazia e deixava-me tonta como se um absinto tivesse-me feito ingerir Sempre de novo partia como quem saísse à caça de gozos renovados Para mostrar no retorno do quanto se saciara e do quão lhe fora ele parco Compartilhar este Ar...

Três nanopoemas

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 25/10/2017

I Encontro ponto Relance exclamação Avance interrogação Veios de água fluem entre nossas mãos II Se o telefone tocar diga que parti - Para onde? – perguntarão Basta que sorria e desligue o telefone III Arquivei as fotos nas nuvens choveu e pela Aldeia ficaram espalhadas cenas de nossa história Compartilhar este Artigo