Poesia

Não se aflija

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 01/06/2018

Não se aflijaNão se aflija, meu nego, estou aqui.Não se humilhe. Você é um homem bom: bom pai, bom companheiro. Não se aflija.Ainda que se sinta o último dos homens, acabado, fraco, doente.Sei, não é fácil vencer esta maré, esta força que o derrota.Mas vamos levantar a cabeça. Não, não chore. Olha que as crianças – que o admiram - estão por perto e acabarão por também chorar.O dia todo andou por esta c...

Carta a Van Gogh

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 08/05/2018

Para minha irmã Dulciméia Em algum lugar, em uma de suas cartas, Van Gogh, você escreveu, certamente para seu querido irmão Theo: “o Mediterrâneo tem uma cor igual à das cavalas, ou seja, mutante; nunca se sabe se é verde ou violeta, nunca se sabe se é azul…” E ainda: “O céu de um azul profundo estava salpicado por nuvens de um azul ainda mais profundo que o azul fundamental de um cobalto intenso, e por ou...

A moça do lotação

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 26/04/2018

Todo dia espera que ela esteja no ponto e suba os degraus do coletivo Àquela hora a luz da alvorada nascente junto às fracas luzes dos postes mal consegue espantar a escuridão Vê a moça que se aproxima no rosto ainda marcas do sono precocemente interrompido Com o ônibus rodando ela procura se equilibrar com dificuldade na passarela instável Aproxima-se da catraca abre a bolsa entrega-lhe as moedas Neste momento suas mã...

O risco do bordado

Publicado por Antonio Carlos Santini
Data da publicação: 19/04/2018

Os dias são o fio de uma trama Que a História vai tecendo ponto a ponto E, enquanto existe vida, não está pronto O risco do bordado de quem ama. Um lado do tapete não reclama Do avesso que lhe faz o contraponto, Mas a lã branca sempre dá desconto Ao fio negro que rolou na lama. Pessoas são tecidas lentamente: Não são desenhos feitos de repente Nem gesto aleatório do sujeito… E Deus, que tem nas mãos a sua agu...

Além do muro

Publicado por Antonio Carlos Santini
Data da publicação: 12/04/2018

Cruzando as ruas tristes da cidade, Talvez, ao longe, há de escutar um sino Que convida você a ser divino: - Não se contente em sua humanidade! Eu sei: você contempla a Imensidade Com saudade das asas de menino Roubadas pelo vento de destino Precocemente, na primeira idade… Não sufoque a saudade! Não sufoque Esse soluço que lhe causa um choque Quando vê a criança no jardim… Deus trabalha em você: tece o f...

Regresso

Publicado por Antonio Carlos Santini
Data da publicação: 09/04/2018

Estive bem aqui, quando criança, Na margem deste rio sussurrante, Mas permanece vivo aquele instante Que ainda se reflete na água mansa. O tempo é como o rio, e não se cansa De prosseguir no fluxo itinerante: Nada o impede de seguir adiante, Pois vê no mar apelos à esperança… Andei errante pelo mundo a esmo E volto a este local: parece o mesmo Que mil saudades ao meu peito traz! O rio corre. Calmamente, corre. Diz...

Desistências

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 03/04/2018

eu e minha mãe fomos ao campo onde fica a lápide sob a qual repousam meus pai e irmão tempo nublado frio ela em roupas escuras luto que nunca termina na face envelhecida marcas de sofrimentos vida desabitada de sonhos observo-a desconfio de seu desejo de enfim desfazer-se de uma fadiga insolúvel precipitado afirmar no entanto ou supor ser ela a primeira a ir ao encontro dos que ali jazem — talvez eu me mate talvez sa...

Último registro

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 14/03/2018

A Poesia? Desceu a rua virou a esquina, seguiu pelo beco entrou no boteco onde numa vitrola gemiam boleros de incandescentes paixões Era madrugada e o sol não demoraria a raiar Um homem, ao balcão com cicatrizes na face na mesa ao lado mulher fumando coxas acariciadas pelo companheiro Pediu uma dose depois outra por ali ficou absorta tomada pelas canções que acendiam em sua memória estilhaços de um tempo ido Ao surgir o...