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	<title>Fundação Metropolitana &#187; Personalidades</title>
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	<description>Fundação Educacional e Cultural Metropolitana</description>
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		<title>A Consolidação Democrática, Maior Legado de Itamar</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Jul 2011 17:13:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denise Paiva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Um exame sério das convicções e do papel de Itamar Franco na história evidenciará que, para ele, o econômico, o financeiro e o monetário nunca passaram de um meio para alcançar o fim maior da Constituição Brasileira: “a redução das desigualdades regionais e sociais e o bem-estar da coletividade nacional num ambiente de paz e progresso”. O fio condutor do pensamento e das premissas de Itamar no governo federal, 1992-1994 foi o SOCIAL. E foi essa a razão de tantos conflitos com a área econômica, que pretendia impor suas decisões e prioridades através de pareceres “técnicos”. Itamar sempre foi incrédulo e desconfiado a tais argumentos e às formulas indecifráveis dos economistas. Ele entendia ser o detentor da titularidade, da responsabilidade política pelas decisões de Estado. Jamais abriu mão de questionar os totens econômicos quando esbarravam nas prioridades sociais, no juízo do interesse social amplo. Ao analisar o significado da ”Era Itamar” posso afirmar que, o que aconteceu no curto período de 1992 a 1994, do qual participei intensamente, se incorporou à memória coletiva, consciente e inconsciente da nação brasileira. Não estávamos no período obscuro da história como tantas e tantas vezes confidenciamos Itamar e eu. Somos vencedores! Não em termos de honrarias, mas como sujeito histórico coletivo, com contribuições decisivas, substantivas, ao que está aí de melhor, no que houve de melhor nos governos que nos sucederam, e certamente nos que ainda virão. A Consolidação Democrática, Maior Legado de Itamar. &#160;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-5252" title="A-Consolidação-Democrática,-Maior-Legado-de-Itamar" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2011/07/A-Consolidação-Democrática-Maior-Legado-de-Itamar.png" alt="" width="191" height="243" /></p>
<p>Um exame sério das convicções e do papel de Itamar Franco na história evidenciará que, para ele, o econômico, o financeiro e o monetário nunca passaram de um meio para alcançar o fim maior da Constituição Brasileira: “a redução das desigualdades regionais e sociais e o bem-estar da coletividade nacional num ambiente de paz e progresso”.</p>
<p>O fio condutor do pensamento e das premissas de Itamar no governo federal, 1992-1994 foi o SOCIAL. E foi essa a razão de tantos conflitos com a área econômica, que pretendia impor suas decisões e prioridades através de pareceres “técnicos”.</p>
<p>Itamar sempre foi incrédulo e desconfiado a tais argumentos e às formulas indecifráveis dos economistas. Ele entendia ser o detentor da titularidade, da responsabilidade política pelas decisões de Estado.</p>
<p>Jamais abriu mão de questionar os totens econômicos quando esbarravam nas prioridades sociais, no juízo do interesse social amplo.</p>
<p>Ao analisar o significado da ”Era Itamar” posso afirmar que, o que aconteceu no curto período de 1992 a 1994, do qual participei intensamente, se incorporou à memória coletiva, consciente e inconsciente da nação brasileira.</p>
<p>Não estávamos no período obscuro da história como tantas e tantas vezes confidenciamos Itamar e eu. Somos vencedores! Não em termos de honrarias, mas como sujeito histórico coletivo, com contribuições decisivas, substantivas, ao que está aí de melhor, no que houve de melhor nos governos que nos sucederam, e certamente nos que ainda virão. A Consolidação Democrática, Maior Legado de Itamar.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Doutor Chiquinho – parte 2</title>
		<link>http://www.metro.org.br/sebastiao/doutor-chiquinho-%e2%80%93-parte-2</link>
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		<pubDate>Tue, 07 Dec 2010 18:38:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sebastião Verly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Conhecido partidário de convicções antiliberais, Francisco Campos tornou-se um dos elementos centrais nos preparativos da implantação do Estado Novo. Às vésperas do golpe de 10 de novembro de 1937, Vargas fez dele seu ministro da Justiça, quando encarregou-o de elaborar a nova Constituição. O jurista justificava o matiz autoritário dizendo que a instabilidade social se instaurara no país. A revolta comunista de 1935 e a Integralista que veio a eclodir no ano seguinte, 1938, reforçavam seu ponto de vista. Para ele, o liberalismo democrático, centrado na crença da liberdade de expressão e de pensamento, entrara em franca decadência, como evidencia a coletânea de textos de sua autoria publicada na obra “O Estado Nacional”, de 1940, e que expressa bem tal convicção.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-4278 aligncenter" title="metro" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/12/metro4.jpg" alt="" width="217" height="222" /></p>
<p>Conhecido partidário de convicções antiliberais, Francisco Campos tornou-se um dos elementos centrais nos preparativos da implantação do Estado Novo. Às vésperas do golpe de 10 de novembro de 1937, Vargas fez dele seu ministro da Justiça, quando encarregou-o de elaborar a nova Constituição. O jurista justificava o matiz autoritário dizendo que a instabilidade social se instaurara no país. A revolta comunista de 1935 e a Integralista que veio a eclodir no ano seguinte, 1938, reforçavam seu ponto de vista. Para ele, o liberalismo democrático, centrado na crença da liberdade de expressão e de pensamento, entrara em franca decadência, como evidencia a coletânea de textos de sua autoria publicada na obra “O Estado Nacional”, de 1940, e que expressa bem tal convicção.</p>
<p>Ainda na visão de Campos, o rádio, a imprensa e a propaganda em geral seriam capazes de levar a opinião pública a um “estado de delírio” e de “alucinação coletiva”, facilitando a adesão da população ao ideário subversivo, notadamente às idéias socialistas. Um antídoto contra esse perigoso processo, na sua opinião, era o cultivo do “mito da personalidade”: a política de massas que se inaugurava incluía o clamor por um “César” capaz de conduzi-las.</p>
<p>Em seguida Campos foi nomeado Consultor Geral da República. Além de muitas obras teóricas do Direito, foi responsável pela redação de alguns dos mais importantes diplomas legais da história brasileira, os Códigos Penal e de Processo Penal (1941) cuja &#8220;Exposição de Motivos”, de sua lavra, é notável. Também é de sua autoria a CLT &#8211; Consolidação das Leis do Trabalho (1943), bem como o primeiro diploma sobre direito do consumidor, o Decreto-lei que define os crimes contra a economia popular.</p>
<p>Cabelos grisalhos, fala fluente, mansa e muito firme, quando o conheci era um velhinho simpático. O Doutor Chiquinho como todos o tratavam na Cidade, adotou Pompéu como sua terra do coração. Sua, fazenda, o Indostão, a meio caminho do Distrito de Buritizal, hoje Silva Campos, em sua homenagem, era onde ele sempre vinha para descansar, jogar baralho e também conversa fora. Era gerenciada por um administrador profissional. Foi pioneiro na região na criação de gado zebu, que importava diretamente da Índia.</p>
<p>Certo dia, aos 74 anos de idade, ele jogava “buraco” com o amigo e médico Dr. Deusdedit Ribeiro de Campos a quem sempre convocava para ir ao Indostão quando lhe perguntou à queima-roupa: “Vocês não têm vontade de construir um hospital aqui em Pompéu?”. O médico, que era diretor e clínico da Santa Casa de Misericórdia, que apesar do nome funcionava em uma pequena casa alugada, respondeu assustado: “É claro! É só arrumar o dinheiro”. “- Vocês organizam a diretoria com estatuto e tudo e me procuram no Rio”. Dito e feito. Junto com o prefeito Levi Campos o médico entrou em um carro e foram “apear” na Praia do Flamengo. Depois de uma breve recepção Dr Chiquinho telefonou para o ministro da saúde, que naquele ano de 1964 ainda ficava no Rio. O ministro, que os atendeu na hora, providenciou uma dotação orçamentária para o projeto. O deputado estadual pompeano Carlos Eloy conseguiu uma suplementação da CODEVASF, Companhia de Desenvolvimento do Vale do Rio São Francisco para ajudar na construção. O vigário Padre Bertoldo Van Zee, conseguiu uma verba, de seu país, a Holanda, dizem que era sua herança familiar, e assim Pompéu ganhou um hospital com 34 leitos. O Dr. Deusdedit, hoje historiador da região, conta este e outros casos em seu livro “Dona Joaquina do Pompéu, sua história e sua gente”, edição independente de 2003. O livro, de 942 páginas em três volumes, além da história, tem o nome de todos os descendentes da Sinhá Brava, como era conhecida a matriarca, atualizados até a data da publicação.</p>
<p>Era ali do Indostão que o Doutor Chiquinho mais influía nas decisões da UDN nacional. Na solidão da varanda do casarão colonial, cercada de tamarindos, jatobás, jenipapeiros, birosqueiras, entre os trinados e gorjeios de curiós, canários chapinhas, sabiás, patativas e pintassilgos, o cheiro ancestral do curral, o estalar das tramelas das porteiras, o aboio dos vaqueiros, o tropéu das mulas, o mugido dos gir, dos guzerá, dos indubrasil ele lapidava as peças do arcabouço institucional do país. Segundo os amigos ali havia livros de todos os assuntos esparramados por todos os lados.</p>
<p>Chegava na cidade com um daqueles carrões pretos chapa branca importados dirigido por um motorista negro. Cabelo sempre bem aparado e uma característica exclusivamente dele eram as calças bastante curtas, então, chamadas “pega-frango”, foi sem dúvida o precursor desses bermudões modernos. Ele gostava muito de roupas de linho de tom bege. O primeiro café “amargoso” era sempre no canto do fogão à lenha da casa do meu tio Xisto, líder da UDN local, onde ele se sentia à vontade. Logo na sala de visitas dois grandes retratos um ao lado do outro: o dele, Francisco Campos e o outro do governador Milton Campos. De quebra os dois primeiros netos homens de meu tio receberam os nomes dos dois udenistas.</p>
<p>Uma curiosidade, não houve apenas um, mas dois Franciscos Campos. Eram irmãos. Francisco José da Silva Campos, o mais velho, era denominado pelas más línguas &#8220;Chico Burro&#8221;. Francisco José morou muitos anos em Abaeté, limítrofe com Pompéu e Dores do Indaiá. No entanto, apesar do apelido, o irmão era homem de notável inteligência, excelente matemático, de uma prosa cativante, no que era acompanhado por sua esposa, D. Laura. Francisco Luís, o &#8220;Chico Ciência”, disse, certa vez, que &#8211; sendo ele e seu irmão filhos do mesmo pai e da mesma mãe, suas aptidões e tendências eram diferentes. Adiantava que, no campo das ciências exatas seu irmão era muito superior a ele. Francisco José foi o primeiro prefeito de Pompéu.</p>
<p>Numa das vezes que chegou a Pompéu queria um funcionário para levar para o Rio de Janeiro, onde tinha um apartamento na Praia do Flamengo para cuidar da Biblioteca. Naquele ano, o jornal Tribuna da Imprensa divulgou nota na qual afirmava que sua biblioteca possuía mais de 150 mil volumes. Levou o Chico, um negro de pouco mais de 20 anos, morador de uma ponta de rua, pois lá ainda não tinha bairros, para limpar e recolocar os livros na estante. O Chico não agüentou o trabalho e a vida no Rio e voltou para Pompéu para trabalhar na enxada.</p>
<p>Sobre o Doutor Chiquinho existem muitas lendas. A primeira é a de que ele, como Ministro da Justiça, criou um decreto que permitia a quem tivesse a mulher louca requerer a anulação do casamento. E tão logo desfez o seu casamento revogou o decreto. Outra estória foi quando os filhos de um influente líder da UDN de Pompéu mataram uma pessoa na vizinha Abaeté. O pai enviou-lhe um telegrama no Rio pedindo que ele fizesse a defesa dos rapazes ou indicasse um bom advogado para fazê-la. Dizem que ele respondeu o telegrama orientando ao correligionário e amigo que contratasse um simples rábula da região o que desvalorizaria o crime. Dito e feito: os moços foram absolvidos e saíram livres.</p>
<p>Doutor Chiquinho contou certa feita que, no dia 9 de novembro de 1937, chamou ao seu apartamento no Rio o jornalista Assis Chateaubriand e lhe informou que, no dia seguinte, iria ser promulgada a nova constituição, decretada pelo Presidente da República. Colocou Assis Chateaubriand de frente para um foco luminoso, ficando ele, Francisco Campos, do lado da penumbra, de onde pôde observar as reações do jornalista. Ao ter conhecimento do assunto, Chateaubriand disse que no dia seguinte a tal ato de força seus jornais iriam desencadear uma reação contra o golpe, alertando o país para a gravidade de tal ato. Francisco Campos apenas lhe disse: &#8220;sua alma, sua palma&#8221;. No dia seguinte ao da promulgação, toda a cadeia jornalística dos Diários Associados defendeu com entusiasmo a nova Constituição.</p>
<p>Em 1964, participou indiretamente das conspirações contra o governo Goulart. Após a implantação do regime militar, voltou a colaborar na montagem de um arcabouço institucional autoritário para o país, participando da elaboração dos dois primeiros Atos Institucionais baixados pelo novo regime (AI-1 e AI-2 ) e enviando sugestões para a elaboração da Constituição de 1967. Morreu em Belo Horizonte em 1º novembro de 1968, ou seja, um mês antes da edição do AI-5, cuja lavratura muitos chegaram a lhe atribuir.</p>
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		<title>Doutor Chiquinho &#8211; Parte 1</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Nov 2010 16:48:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sebastião Verly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Conheci o doutor Chiquinho, Francisco Luís da Silva Campos, no ano de 1955 com seus 64 anos na casa de meu tio Xisto em Pompéu, no Alto São Francisco, Região Central de Minas Gerais. Por se tratar de uma figura ilustre da História Recente do Brasil, temos que citar seus dados biográficos. Ele nasceu em 1891 na vizinha Dores do Indaiá. Era sobrinho neto de Martinho Campos, que foi primeiro-ministro do Império do Brasil, hoje nome de uma das cidades da região. Para completar era também descendente de Dona Joaquina Bernarda da Silva de Abreu Castelo Branco Souto Maior de Oliveira Campos, ou  Joaquina do Pompéu, também conhecida como Sinhá Brava, imortalizada no romance com este nome de Agripa de Vasconcelos. Francisco Campos foi alfabetizado em casa, por sua mãe, e depois passou dois anos como interno no Instituto de Ciências e Letras de São Paulo, regressando em seguida a Dores do Indaiá, que era um respeitado centro educacional na época, para estudar francês. Fez o curso secundário nas cidades de Sabará e Ouro Preto. Em 1910 foi matriculado na Faculdade Livre de Direito de Belo Horizonte. Quando cursava o segundo ano da faculdade, chamou a atenção dos meios forenses da capital mineira por sua cultura e oratória, ao produzir a defesa de soldados do exército envolvidos num tiroteio com guardas da polícia civil. No último ano do curso, fez um discurso em memória do falecido Presidente Afonso Pena, sobre o tema democracia e unidade nacional, em que já dava mostras das idéias que encarnou em sua vida: &#8220;O futuro da democracia depende do futuro da autoridade. Reprimir os excessos da democracia pelo desenvolvimento da autoridade será o papel político de numerosas gerações.&#8221; Foi contemplado com o prêmio Barão do Rio Branco por ter sido o melhor aluno ao longo dos cinco anos do curso e foi o orador de sua turma na solenidade de formatura, em dezembro de 1914. Estabeleceu-se em seguida como advogado em Belo Horizonte e em Pitangui, onde residia sua família, e entrou para a vida política em 1919, quando foi eleito deputado estadual pelo Partido Republicano Mineiro (PRM). Pitangui, centro de mineração de ouro no período colonial, foi o município de onde se desmembraram todos os demais do Alto São Francisco. Chico Campos frustrou-se como candidato à Prefeitura de Pitangui, tendo sofrido fragorosa derrota, fato este que deve ter contribuído para sua índole autoritária. A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-4230 aligncenter" title="Doutor Chiquinho" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/11/dr_chiquinho.jpg" alt="Doutor Chiquinho" width="407" height="557" /></p>
<p>Conheci o doutor Chiquinho, Francisco Luís da Silva Campos, no ano de 1955 com seus 64 anos na casa de meu tio Xisto em Pompéu, no Alto São Francisco, Região Central de Minas Gerais. Por se tratar de uma figura ilustre da História Recente do Brasil, temos que citar seus dados biográficos. Ele nasceu em 1891 na vizinha Dores do Indaiá. Era sobrinho neto de Martinho Campos, que foi primeiro-ministro do Império do Brasil, hoje nome de uma das cidades da região. Para completar era também descendente de Dona Joaquina Bernarda da Silva de Abreu Castelo Branco Souto Maior de Oliveira Campos, ou  Joaquina do Pompéu, também conhecida como Sinhá Brava, imortalizada no romance com este nome de Agripa de Vasconcelos.</p>
<p>Francisco Campos foi alfabetizado em casa, por sua mãe, e depois passou dois anos como interno no Instituto de Ciências e Letras de São Paulo, regressando em seguida a Dores do Indaiá, que era um respeitado centro educacional na época, para estudar francês. Fez o curso secundário nas cidades de Sabará e Ouro Preto. Em 1910 foi matriculado na Faculdade Livre de Direito de Belo Horizonte. Quando cursava o segundo ano da faculdade, chamou a atenção dos meios forenses da capital mineira por sua cultura e oratória, ao produzir a defesa de soldados do exército envolvidos num tiroteio com guardas da polícia civil.</p>
<p>No último ano do curso, fez um discurso em memória do falecido Presidente Afonso Pena, sobre o tema democracia e unidade nacional, em que já dava mostras das idéias que encarnou em sua vida: &#8220;O futuro da democracia depende do futuro da autoridade. Reprimir os excessos da democracia pelo desenvolvimento da autoridade será o papel político de numerosas gerações.&#8221;</p>
<p>Foi contemplado com o prêmio Barão do Rio Branco por ter sido o melhor aluno ao longo dos cinco anos do curso e foi o orador de sua turma na solenidade de formatura, em dezembro de 1914. Estabeleceu-se em seguida como advogado em Belo Horizonte e em Pitangui, onde residia sua família, e entrou para a vida política em 1919, quando foi eleito deputado estadual pelo Partido Republicano Mineiro (PRM). Pitangui, centro de mineração de ouro no período colonial, foi o município de onde se desmembraram todos os demais do Alto São Francisco. Chico Campos frustrou-se como candidato à Prefeitura de Pitangui, tendo sofrido fragorosa derrota, fato este que deve ter contribuído para sua índole autoritária.</p>
<p>A partir daí mudou-se para Belo Horizonte, onde trilhou uma carreira ascendente, ocupando cargos importantes no governo de Minas. Em 1916 inscreveu-se para disputar a vaga de professor de toda uma seção de disciplinas &#8211; Filosofia do Direito, Economia Política, Ciências das Finanças e Direito Romano &#8211; da Faculdade em que se bacharelara. Obteve o primeiro lugar no concurso, mas não a nomeação, concedida a um dos dois outros postulantes, Gudesteu Pires. Em 1917, conquistou em concurso a cadeira de Direito Público Constitucional, sendo admitido como professor substituto em abril de 1918. Em 1919, foi eleito deputado estadual e em 1921 deputado federal, tendo sido reeleito em 1924, sempre pelo PRM, o Partido Republicano Mineiro. Parece incrível, mas em 7 de setembro de 1926, o Doutor Chiquinho assumiu provisoriamente a Prefeitura de Belo Horizonte, onde ficou por um mês e pouco.</p>
<p>Em 1930, participou das articulações que levaram ao movimento armado que conduziu Getulio Vargas ao poder. Credenciado pela reforma que promovera no ensino secundário de Minas Gerais em 1929, foi nomeado por Vargas para chefiar o recém-criado Ministério da Educação e Saúde. A “Reforma Francisco Campos”, como passou a ser conhecida, de 1931, se estendeu a todo o país, inclusive no plano universitário. Previa a entrega do estudante à causa do Estado, como forma de retribuição ao ensino gratuito. Daí foi para o Ministério da Justiça onde ficou até 1932.</p>
<p>Em 1933 não conseguiu ser eleito para a Assembléia Nacional Constituinte. Fazendo parte inicialmente de um grupo de estilo paramilitar chamado Legião de Outubro, que dava sustentação em Minas ao governo de Vargas atacando as bases do tradicional PRM, junto com Amaro Lanari e Gustavo Capanema, acabou se isolando pela radicalização da política nacional entre comunistas e integralistas. Lanari virou integralista, e Capanema deixou de apoiá-lo em Pitangui, sua terra natal deste, e bases políticas naturais de Campos. Em 1935, já morando no Rio, o governo do então Distrito Federal, o nomeou Secretário da Educação substituindo Anísio Teixeira, que estava sendo acusado de envolvimento com os comunistas na fracassada “Intentona” de 1935.</p>
<p>Ao contrário das constituições anteriores (a de 1891 e a de 1934), a Carta de 1937 não foi elaborada por um parlamento democraticamente eleito para esta finalidade. Foi obra individual dele, do jurista Francisco Campos ou, para nós pompeanos, do Doutor Chiquinho. Se ele não obteve os votos para participar dos debates que levariam à Constituição de 1934, pela complexidade do jogo político, ele, por sua capacidade, visão e senso de oportunidade escreveu sozinho a Constituição de 1937. O apelido “Chico Ciência” lhe teria sido dado por Ruy Barbosa nessa ocasião, em reconhecimento à façanha.</p>
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		<title>Levi Campos</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Nov 2010 16:11:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sebastião Verly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Para completar a história dos filhos varões de meu tio Xisto, hoje escrevo sobre meu primo Levi Campos. Sua história é a história da modernização da administração pública e da economia de Pompéu, cidade onde nasceu aos 8 de julho de 1919. Era o mais velho dos filhos do então tradicional e conhecido comerciante Xisto de Oliveira Campos e de Dª. Francisca de Oliveira. Cursou apenas as quatro séries primárias no Grupo Escolar Dr. Jacinto Campos e logo dedicou-se à atividade comercial. Já no início de sua vida demonstrou seu espírito empreendedor, que foi uma marca em sua vida. Foi um dos sócios proprietários da fábrica de manteiga Thomaz Campos &#38; Cia que produzia as manteigas “Jussara e Jarina”, de qualidade reconhecida, que era exportada para outros estados e para alguns países da Europa. Participou da criação da primeira transportadora de cargas do oeste mineiro. Casou-se aos 25 anos com Colinete Corrêa Campos e tiveram 07 filhos: Eneida, Maria Haidée, Elaine, Ana Nilce, Maria Amélia, Afonso Carlos e Elizabete. Apesar de ter cursado apenas o primário, estava predestinado a ser um grande líder. Tinha a leitura por hábito e fazia-a no escritório de sua casa até altas horas da noite, tornando-se por isto autodidata em vários assuntos. Tinha por sua terra uma verdadeira paixão e grande idealismo para a solução dos problemas locais. Com a disposição e dedicação à vida pública, foi vereador por duas legislaturas de 1947 a 1951 e de 1955 a 1959 (em uma delas o mais votado) e prefeito municipal na gestão 1962 a 1965. Não abria mão de ouvir religiosamente o programa radiofônico oficial “A Voz do Brasil” todos os dias, inclusive em sua fazenda onde tinha um rádio alimentado por bateria automotiva. A partir de então, pôde demonstrar todo o seu carisma e sua habilidade política, interrompendo através de seu partido, a União Democrática Nacional, UDN, o continuísmo do governista Partido Social Democrático, PSD, que vinha de muitos anos. Assumindo o governo, mostrou uma das suas principais virtudes, o espírito imbatível e a natureza conciliatória, fazendo uma administração supra partidária, em que colocou a seu lado os antigos opositores. A partir de sua gestão, marcou-se uma nova era em Pompéu, iniciando novo ciclo de desenvolvimento. Quando ocorria de um grupo de estudantes rebeldes sair de madrugada fazendo pixações pela cidade, ele era avisado, saía em sua camionete “Rural Willys” atrás dos contestadores, e, ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-4183 aligncenter" title="Levi Campos" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/11/levi_campos.jpg" alt="Levi Campos" width="384" height="528" /></p>
<p>Para completar a história dos filhos varões de meu tio Xisto, hoje escrevo sobre meu primo Levi Campos. Sua história é a história da modernização da administração pública e da economia de Pompéu, cidade onde nasceu aos 8 de julho de 1919. Era o mais velho dos filhos do então tradicional e conhecido comerciante Xisto de Oliveira Campos e de Dª. Francisca de Oliveira. Cursou apenas as quatro séries primárias no Grupo Escolar Dr. Jacinto Campos e logo dedicou-se à atividade comercial.</p>
<p>Já no início de sua vida demonstrou seu espírito empreendedor, que foi uma marca em sua vida. Foi um dos sócios proprietários da fábrica de manteiga Thomaz Campos &amp; Cia que produzia as manteigas “Jussara e Jarina”, de qualidade reconhecida, que era exportada para outros estados e para alguns países da Europa. Participou da criação da primeira transportadora de cargas do oeste mineiro.</p>
<p>Casou-se aos 25 anos com Colinete Corrêa Campos e tiveram 07 filhos: Eneida, Maria Haidée, Elaine, Ana Nilce, Maria Amélia, Afonso Carlos e Elizabete. Apesar de ter cursado apenas o primário, estava predestinado a ser um grande líder. Tinha a leitura por hábito e fazia-a no escritório de sua casa até altas horas da noite, tornando-se por isto autodidata em vários assuntos. Tinha por sua terra uma verdadeira paixão e grande idealismo para a solução dos problemas locais. Com a disposição e dedicação à vida pública, foi vereador por duas legislaturas de 1947 a 1951 e de 1955 a 1959 (em uma delas o mais votado) e prefeito municipal na gestão 1962 a 1965. Não abria mão de ouvir religiosamente o programa radiofônico oficial “A Voz do Brasil” todos os dias, inclusive em sua fazenda onde tinha um rádio alimentado por bateria automotiva.</p>
<p>A partir de então, pôde demonstrar todo o seu carisma e sua habilidade política, interrompendo através de seu partido, a União Democrática Nacional, UDN, o continuísmo do governista Partido Social Democrático, PSD, que vinha de muitos anos. Assumindo o governo, mostrou uma das suas principais virtudes, o espírito imbatível e a natureza conciliatória, fazendo uma administração supra partidária, em que colocou a seu lado os antigos opositores. A partir de sua gestão, marcou-se uma nova era em Pompéu, iniciando novo ciclo de desenvolvimento. Quando ocorria de um grupo de estudantes rebeldes sair de madrugada fazendo pixações pela cidade, ele era avisado, saía em sua camionete “Rural Willys” atrás dos contestadores, e, ao invés de ameaçar ou reprimir, passava o resto da noite confrontando as idéias.</p>
<p>Dentre as principais obras da gestão Levi Campos, pode-se ressaltar a criação do Departamento de Educação Rural, do Ginásio Estadual de Pompéu, que funcionava no turno da manhã no prédio do antigo Grupo Escolar e hoje Escola Estadual Dr. Jacinto Campos, que passou por ampla reforma. O ginásio abrangia o que hoje são as séries de 4ª à 8ª do 1º grau. Antes havia apenas o Ginásio Dona Joaquina, particular, que acabou se tornando uma Escola Técnica de Comércio do 2ª grau. Com o desenvolvimento da cidade logo surgiu outra escola de 5ª à 8ª séries, o Instituto Ruth Grassi. Criou e construiu também nas periferias da cidade os Grupos Escolares (hoje Escolas Estaduais) Francisca de Oliveira, que recebeu o nome de sua mãe, Antônio da Palmira, o qual deixou em fase de acabamento e José Maria de Carvalho, que depois ganhou novo prédio. Construiu o prédio próprio do Posto de Saúde Mário Campos, reestruturou e iniciou a construção do prédio próprio da Santa Casa de Misericórdia, empenhou-se para a instalação no município do escritório da ACAR (hoje EMATER), da agência autônoma da Caixa Econômica Estadual, encarregada de orientar e financiar a agricultura e pecuária.</p>
<p>Deve se também a seu empreendedorismo a construção, manutenção e reforma das estradas municipais de maior trânsito, o calçamento poliédrico da área central e renovação da arborização da cidade, a construção das praças públicas ajardinadas, com projetos paisagísticos onde antes eram apenas pastos e “campinhos” de futebol, quais sejam Presidente Kennedy (que hoje tem o seu nome), Governador Valadares e Governador Magalhães Pinto (hoje Leonardo Campos). Também foi de sua iniciativa a construção de mais dois poços artesianos para resolver o crônico problema do abastecimento de água da cidade, a aquisição do terreno e início da obra do Aeroporto Tenente Xavier, o planejamento e aquisição do terreno da Praça de Esportes José Maria Álvares da Silva.</p>
<p>O que mais me impressionou em Levi, enquanto prefeito foi o compromisso com o social, mostrado principalmente na universalização da educação rural e do atendimento ambulatorial e hospitalar, mas também na sua postura à frente da máquina pública municipal, muito mais de líder que de gerente, conseguindo o envolvimento profundo de seus comandados de quem destacava o compromisso de servidores públicos.</p>
<p>Além de prefeito, participou ativamente de todos os fatos que marcaram o desenvolvimento de Pompéu, sendo presidente da Companhia Força e Luz de Pompéu, e seu maior acionista privado, presidente da Companhia Telefônica e Provedor da Santa Casa de Misericórdia, entre outras iniciativas. Afastando-se da vida pública, tornou-se um dos modelos de agro-pecuarista da região, tendo como um dos últimos atos de sua vida a formação da Empresa Cacique Agropecuária Comércio e Indústria Ltda, que deixou para os filhos. Morreu precocemente aos 59 anos de idade, deixando um vazio em todos aqueles que o conheceram.</p>
<p>Levi era, desde muito jovem, um político ousado e inflamado, combativo e corajoso. Seguia com naturalidade os passos de seu líder, Carlos Lacerda, da UDN nacional, chegando a ser chamado de “O Carlos Lacerda de Pompéu”. Levi era um nome admirado por toda a população da cidade, e respeitado pelos seus mais ferrenhos adversários. Era também um conselheiro acatado e orientava os companheiros de partido, os quais sempre seguiam suas orientações. Exímio orador, expunha suas idéias com clareza, voz firme e decidida. Procurava informar-se bem e tinha posições bem definidas quantos aos problemas locais, estaduais e nacionais. Dono de uma cultura geral bem ampla, adorava encontrar interlocutores cultos com quem discorria horas e horas sobre os mais diversos assuntos.</p>
<p>Sempre tive muitos contados com Levi, especialmente, no período em que trabalhei na “venda” de seu irmão caçula, o Lili. Naquela época, eu me encantava com sua simplicidade para conversar sobre os assuntos do dia a dia. Falava dos negócios, de sua fazenda e das lidas agrícolas em geral. Foi um dos difusores do capim Brachiaria, que substituiu os capins tradicionais de rendimento mais baixo, e trouxe a inovação de “formar pastos”, ao invés de se limitar às pastagens naturais. A “venda” onde eu trabalhava, que ficava ao lado da casa do meu tio Xisto, pai dos meus três primos, era a arena privilegiada para os acalorados debates entre Levi, o mais velho dos irmãos, que era udenista e lacerdista e Tunico, o irmão do meio, que era brizolista. Meu tio Xisto sempre vinha por panos quentes quando o tom de voz exacerbava.</p>
<p>No Levi me impressionava o empreendedorismo principalmente na vida pública. A construção da nova estrada ligando Pompéu à antiga BR 7, atual 040, a então MG-153, hoje MG-420, com uma ponte de 124 metros de comprimento sobre o Rio Paraopeba, deve ser totalmente creditada a seus esforços juntos às lideranças estaduais. Em todos os grandes eventos da cidade tinha participação efetiva e sempre conseguia trazer lideranças políticas estaduais e nacionais. Além da mencionada Fábrica de Manteiga, destacou-se na construção do Fórum, que foi uma dádiva da população ao governo do Estado e na constituição da Companhia Força e Luz de Pompéu junto com seus irmãos Tunico e Lili, que já mereceram nossas crônicas neste portal.</p>
<p>Na inauguração do Fórum Judicial, o prefeito era do PSD, mas o pessoal da UDN fez as honras da casa ao Governador Milton Campos que viajou para Pompéu, em junho de 1950, prestigiando seus correligionários. Lembro-me que, aos 24 anos de idade, eu viajava de Dores do Indaiá para Belo Horizonte em companhia do então deputado Oscar Dias Correia: quando eu lhe disse que era primo do Levi, passei a maior parte do tempo ouvindo elogios às suas habilidades de articulador político. De outra feita, em pleno Regime Militar, preso no famigerado Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, ao ser interrogado pelo delegado Fábio Bandeira de Figueiredo, quando eu disse que era primo do Levi passou a tratar-me de forma respeitosa.</p>
<p>Levi era muito querido e respeitado. Não poderíamos esquecer-nos de seu entusiasmo futebolístico com o CAP, o Clube Atlético Pompeano. Poucos sabem que Levi, bem nos idos dos anos de 1950, jovialmente encantava os pompeanos com sua narração esportiva dos jogos do seu time querido. Há alguns anos, Levi recebeu um busto na praça principal da cidade, à qual já oferecia seu nome.</p>
<p>Last but not list, ou seja, por último, mas não por ser menos importante, houve um episódio muito engraçado envolvendo o meu primo Levi. A Cooperativa dos Produtores Rurais de Pompéu, da qual fazia parte, sempre esteve entre os quatro maiores acionistas da CCPR, a Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais, atual Itambé, que hoje é o maior laticínio de capital nacional. Representando os produtores de Pompéu certa feita contam que o Levi compareceu a uma reunião da CCPR, na qual estava presente o então presidente da FAEMG, Federação da Agricultura do Estado de Minas Gerais, o reacionaríssimo Josafá Macedo. Levi fez uso da palavra para criticar a substituição da tradicional coalhada pelo recém lançado yogurt, na pauta de produtos da CCPR. Contam que a reação do Josafá foi a de dizer que o discurso do meu primo era a prova de que a agitação comunista havia conseguido se infiltrar na maior cooperativa de produtores rurais do Brasil.</p>
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		<title>Tunico do Xisto</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Mar 2010 17:04:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sebastião Verly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Antonio Januário de Campos, o Tunico do Xisto, foi uma pessoa muito especial. Para mim foi um exemplo em tudo. Na vida privada e na pública. Era o filho “do meio” do meu Tio Xisto e tinha mais quatro irmãos: Levi, Ju, Lili e Izinha. Em minha mente, a lembrança maior do meu primo foi a do dia que meu pai faleceu. Logo depois do sepultamento, numa tarde obscurecida pela neblina e o frio, o meu primo Tunico chega em sua caminhonete International e pára, na rua irregular em que vivíamos. Resumiu tudo em uma frase: “Comadre”, assim ele tratava minha mãe, “a senhora e os meninos nunca passarão falta de nada. Nós vamos ajudar a senhora a criá-los.” Daí para frente, pude constatar que seu compromisso era de fato para valer. Fez muitos esforços para nos ajudar. Meu contato com ele estreitou-se mais, após o ano de 1953 quando passei a trabalhar no Comércio de Peças para automóveis e materiais de construção de propriedade do Lili, seu irmão. Era um conselheiro seguro. Registro aqui seu amor à Democracia com D maiúsculo. O país vivia um período de turbulência e o Deputado Carlos Lacerda, da UDN, incendiava o país através de seus brilhantes pronunciamentos. No dia 24 de agosto de 1954 o Presidente Getúlio Vargas deixou a história, num misterioso suicídio. Pompéu, onde eu vivia e trabalhava, era uma cidade de pouco mais de 10 mil habitantes. Para mim, com 12 anos, Getúlio era tudo de ruim. Achei ótimo seu suicídio e desci alegremente para abrir a Loja, já que o patrão estava viajando. Lição número um: Tunico chamou-me, mandou que eu fechasse as portas porque o Presidente representava muito mais que a pessoa que ocupa o cargo. É o mais alto nível das instituições nacionais, tinha que respeitar! Ficou gravado para sempre na minha memória. Tunico era o que havia de mais sério na política. Começou cedo. Em 1945, com vinte e poucos anos, ajudou a fundar a UDN, União Democrática Nacional, na cidade. Aqui, um pouco de história: a UDN nasceu ligada à campanha do Brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da república em 1946, com a redemocratização, no fim do Estado Novo, e seu lema era humanista: “tornar os ricos menos poderosos e os pobres menos sofredores”. Sua campanha popularizou-se com a forma de arrecadar recursos vendendo doces de chocolate, que a partir daquela época ficaram conhecidos pelo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2542" title="Tunico do Xisto" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/03/xisto.jpg" alt="" width="256" height="398" /></p>
<p>Antonio Januário de Campos, o Tunico do Xisto, foi uma pessoa muito especial. Para mim foi um exemplo em tudo. Na vida privada e na pública. Era o filho “do meio” do meu Tio Xisto e tinha mais quatro irmãos: Levi, Ju, Lili e Izinha.</p>
<p>Em minha mente, a lembrança maior do meu primo foi a do dia que meu pai faleceu. Logo depois do sepultamento, numa tarde obscurecida pela neblina e o frio, o meu primo Tunico chega em sua caminhonete International e pára, na rua irregular em que vivíamos. Resumiu tudo em uma frase: “Comadre”, assim ele tratava minha mãe, “a senhora e os meninos nunca passarão falta de nada. Nós vamos ajudar a senhora a criá-los.”</p>
<p>Daí para frente, pude constatar que seu compromisso era de fato para valer. Fez muitos esforços para nos ajudar. Meu contato com ele estreitou-se mais, após o ano de 1953 quando passei a trabalhar no Comércio de Peças para automóveis e materiais de construção de propriedade do Lili, seu irmão.</p>
<p>Era um conselheiro seguro. Registro aqui seu amor à Democracia com D maiúsculo. O país vivia um período de turbulência e o Deputado Carlos Lacerda, da UDN, incendiava o país através de seus brilhantes pronunciamentos. No dia 24 de agosto de 1954 o Presidente Getúlio Vargas deixou a história, num misterioso suicídio. Pompéu, onde eu vivia e trabalhava, era uma cidade de pouco mais de 10 mil habitantes. Para mim, com 12 anos, Getúlio era tudo de ruim. Achei ótimo seu suicídio e desci alegremente para abrir a Loja, já que o patrão estava viajando.</p>
<p>Lição número um: Tunico chamou-me, mandou que eu fechasse as portas porque o Presidente representava muito mais que a pessoa que ocupa o cargo. É o mais alto nível das instituições nacionais, tinha que respeitar! Ficou gravado para sempre na minha memória.</p>
<p>Tunico era o que havia de mais sério na política. Começou cedo. Em 1945, com vinte e poucos anos, ajudou a fundar a UDN, União Democrática Nacional, na cidade. Aqui, um pouco de história: a UDN nasceu ligada à campanha do Brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da república em 1946, com a redemocratização, no fim do Estado Novo, e seu lema era humanista: “tornar os ricos menos poderosos e os pobres menos sofredores”. Sua campanha popularizou-se com a forma de arrecadar recursos vendendo doces de chocolate, que a partir daquela época ficaram conhecidos pelo nome de “brigadeiro”. Ele foi derrotado em 1946 por Eurico Gaspar Dutra, do PSD, e depois, em 1950, pelo próprio Getúlio, que concorreu pelo PTB. Voltando a Pompéu, em 1947 Tunico foi prefeito provisório, passando o cargo ao prefeito eleito, José Maria Álvares da Silva, seu adversário do PSD.</p>
<p>Lição numero 2: em 1955, eu e meu irmão aproveitávamos a noite para arrancar cartazes do adversário Juscelino e dos candidatos ao governo de Minas e deputados do PSD, quando surge, não sei de onde na pequena cidade, a figura impoluta do Tunico. Disse-nos com firmeza e carinho: na democracia, todos têm o direito de usar o espaço público para divulgar suas mensagens. A campanha eleitoral clara e honesta merecia respeito de todos nós.</p>
<p>As lições foram se avolumando. Tunico era o que hoje chamam de empreendedor. Conquistou uma parceria com a Empresa Oeste de Transporte e outras de nível mais amplo e fazia todo o transporte de mercadorias da Capital para o comércio de nossa Cidade, e da manteiga produzida em Pompéu, de alta qualidade, que era destinada à exportação. Detinha esse serviço como exclusivo, mas era justo na cobrança do frete.</p>
<p>Levou para a cidade o hábito de adubar a terra. Incentivou os fazendeiros e agricultores a usar adubo, principalmente o Salitre do Chile, que transportava e armazenava, dando a necessária orientação a seus clientes. Eu o ajudava tirando os primeiros pedidos do produto. Não me custava nada. No entanto ele anotou todos os pedidos e ofereceu-me quinhentas ações da Companhia Força e Luz de Pompéu, da qual sempre foi diretor e chegou a ser presidente, dizendo que era para que eu começasse a vida.</p>
<p>A companhia gerava energia elétrica em uma pequena usina no Rio Picão, em Martinho Campos, munípicio vizinho. Através de uma linha de alta tensão a energia chegava a Pompéu onde tinha uma subestação e a rede distribuidora. Os acionistas eram todos da cidade, principalmente comerciantes, e o fornecimento, enquanto o Tunico foi vivo, sempre foi confiável e satisfatório. Com sua saída da cidade a companhia desandou, e, por iniciativa de um deputado articulador do golpe militar na cidade, que depois veio a ser presidente da Cemig, os ativos da companhia local foram assumidos pela estatal por volta de 1974, sem nenhuma compensação a seus acionistas.</p>
<p>Além de administrar uma empresa na forma de Sociedade Anônima ele sempre investiu alguma economia na Bolsa de Valores, sempre esteve a par do valor real e nominal das ações, e isso em 1955/56 era avançado demais.</p>
<p>Veio a agitação política dos anos 60 e lá estava o Tunico a reunir com meia dúzia de pompeanos inteligentes para discutir a situação do País. Na porta dos bares da Rua Dona Joaquina ele dava verdadeiras aulas de economia política. E seu rádio ficava sempre sintonizado na Rádio Mayrink Veiga propagando para toda a praça em frente à sua casa os pronunciamentos de Leonel Brizola.</p>
<p>Ele levou lideranças políticas como José Aparecido de Oliveira à cidade para falar de Reformas de Base, inclusive para esclarecer de uma vez por todas sobre a Reforma Agrária. O primeiro filho chamou-se Francisco Eduardo numa homenagem aos grandes lideres da UDN nacional, Francisco Campos e Eduardo Gomes. Começou a construir a melhor casa daquela época em Pompéu, a cidade que amava. A casa tinha dois andares, com fino acabamento e excelentes instalações, mas teve de mudar-se para a Capital e não chegou a concluí-la.</p>
<p>Para isso tiveram impacto decisivo os desdobramentos do golpe militar de 1964, quando um grupo de reacionários da cidade liderados por um tabelião forasteiro chegou a formar uma comitiva para prendê-lo em sua casa. Ele simplesmente colocou seus dois “Smith &amp; Wesson”, calibre 38, na cintura, um niquelado e outro oxidado, e ficou na varanda de casa esperando. O tal tabelião, líder da tropa de choque, chegou até a esquina, olhou de soslaio, e, vendo o Tunico com seu garbo de cavaleiro intocado, pensou duas vezes e amarelou.</p>
<p>Mas no dia seguinte, quando os reacionários, em sua maior parte fazendeiros, fizeram a carreata do golpe militar soltando foguetes, miraram bem a varanda de sua casa, onde seu filho menor estava nos braços da babá. Sentido-se insultado ele não conseguiu continuar morando na cidade, e se mudou para Belo Horizonte. Os tais fazendeiros, que temiam a reforma agrária de Jango, afirmavam ter 60 metralhadoras “INA”, calibre 45, benzidas por Dom Sigaud, o reacionário arcebispo anti-comunista de Diamantina. Até hoje não se sabe se era blefe, mas ninguém chegou a ver as tais “INAs”.</p>
<p>Tunico era hostilizado pela sua avançada posição política, mas todos o respeitavam como a cabeça pensante e a voz mais esclarecida da sabedoria política na cidade.</p>
<p>Mudou-se para a Capital. Deixou o transporte de mercadorias e ingressou no ramo de hotéis. Tinha um sócio com que tive oportunidade de conversar muitas vezes. Mário só abria a boca para elogiar o meu primo. Eram só elogios espontâneos e sinceros. Tive oportunidade de freqüentar o restaurante “Recanto”, que abriu ao público externo ao Pompéu Hotel, no início da Avenida Amazonas, no centro de BH, e gravou-me na mente uma cena em que um casal exagerava nos toques amorosos e sexuais. Meu primo, em pessoa, como gerente, emitiu a conta e foi até a mesa do casal e, com toda a educação, reserva e firmeza, convidou o casal a se retirar. Foi até aplaudido pelos restantes. E olha que o Tunico era um liberal de quatro costados.</p>
<p>À nossa família ele ajudava de maneira discreta e por meio de trabalho e orientações, e até indicações de meus irmãos para empregos e serviços. Aos parentes mais pobres ele fazia uma espécie de cesta básica com alguns quilos de toucinho, de feijão, de arroz e mantinha esses parentes no mínimo bem alimentados. A última vez que conversei com a Tonha, que era uma prima distante por parte de sua mãe, ela já velhinha lembrou da ajuda de meu primo.</p>
<p>Mas vale lembrar o casamento, a viagem de Lua de Mel e a festa do batizado de meu irmão. O casamento do Tunico foi uma bela cerimônia. O que marcou mesmo foi que saíram da cidade para a lua de mel de avião. Era um homem avançado para seu tempo. Quando voltaram, foram à minha casa batizar o caçula, o que nos dava a maior honra. A esposa Cleuza era uma moça lindíssima. E nós, crianças, eu estava com oito anos, todos queríamos ser fotografados ao lado dela. Creio que essas fotos ainda estarão pela casa de meus familiares.</p>
<p>Senti muito a morte do meu primo. Tenho o orgulho de ter aprendido tantas coisas boas com ele: especialmente o rigoroso senso ético, o respeito ao direito dos outros, o bom humor e a solidariedade humana.</p>
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		<title>Lili do Xisto</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Mar 2010 16:10:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sebastião Verly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Na série que venho rememorando sobre pessoas notáveis, três primos merecem destaque: são os filhos do meu tio Xisto. Iniciarei pelo caçula, Hely Campos, o Lili. Meu pai falecera em Julho de 1953 e aqueles primos propuseram-se a nos apoiar. Com onze anos de idade, eu tive a sorte de ser escolhido para trabalhar com o Lili, que além de primo, era afilhado de minha mãe. Mamãe contava que trabalhara na casa da família do meu tio Xisto, quando o Lili ainda era garoto de 4 a 5 anos. Era bastante travesso o menino. Muito amável, adulto e já casado, ele mostrava-me uma cicatriz ou marca na perna e dizia que se tratava de uma queimadura com colher de ferro quando ele fora fazer, com a sua madrinha e empregada, uma das suas gracinhas exageradas para uma criança daquela idade, justo no momento em que ela colocava brasas no ferro de engomar roupas. O Lili cresceu e não deixava por menos: sempre que podia, armava alguma. Era brincalhão, irreverente por natureza. Muito espirituoso, nas ruas provocava o Jacinto Campos, o Tiambá, até sua morte, e depois disso a seu filho, figura totalmente desajustada no modo de trajar e na higiene pessoal, cujo principal prazer era correr atrás dos meninos que o chamavam de Milton Tiambá estalando o imenso chicote de cabo de madeira, embora sem atingir ninguém. O Lili também gritava o apelido “Coreba” para outro velho, cujo nome era desconhecido de todos. O “Coreba” fingia que se importava com as provocações, mas quando ninguém o percebia procurava dar um sinal de presença, pois, no fundo, gostava de ser provocado, para poder xingar, para a gargalhada de todos. Diziam na época que Pompéu se cobrisse com uma lona virava circo, se cercasse virava hospício. Lili atormentava a Petronilha, mulher do João Quirino, uma mulher muito feia de um velho sempre bêbado. Ele cutucava: “se eu tivesse uma mulher feia como você, Petronilha, eu não bebia cachaça; eu bebia era formicida”, o veneno preferido por 9 entre 10 suicidas. Encontrava sempre alguma “vítima” para suas troças. E muita gente procurava-o para fornecer mais “munição”, pois tinha grande senso de humor e adorava apimentar qualquer situação que desse para fazer graça. Contou-me alguém da família que certa vez, quando o Lili ainda era rapazola combinara com seu próprio cunhado de colocá-lo dentro de um saco de aniagem, usado para embalar café em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" title="Lili do Xisto" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/03/image0026.jpg" alt="Lili do Xisto" width="201" height="331" /></p>
<p>Na série que venho rememorando sobre pessoas notáveis, três primos merecem destaque: são os filhos do meu tio Xisto. Iniciarei pelo caçula, Hely Campos, o Lili. Meu pai falecera em Julho de 1953 e aqueles primos propuseram-se a nos apoiar.</p>
<p>Com onze anos de idade, eu tive a sorte de ser escolhido para trabalhar com o Lili, que além de primo, era afilhado de minha mãe. Mamãe contava que trabalhara na casa da família do meu tio Xisto, quando o Lili ainda era garoto de 4 a 5 anos. Era bastante travesso o menino. Muito amável, adulto e já casado, ele mostrava-me uma cicatriz ou marca na perna e dizia que se tratava de uma queimadura com colher de ferro quando ele fora fazer, com a sua madrinha e empregada, uma das suas gracinhas exageradas para uma criança daquela idade, justo no momento em que ela colocava brasas no ferro de engomar roupas.</p>
<p>O Lili cresceu e não deixava por menos: sempre que podia, armava alguma. Era brincalhão, irreverente por natureza. Muito espirituoso, nas ruas provocava o Jacinto Campos, o Tiambá, até sua morte, e depois disso a seu filho, figura totalmente desajustada no modo de trajar e na higiene pessoal, cujo principal prazer era correr atrás dos meninos que o chamavam de Milton Tiambá estalando o imenso chicote de cabo de madeira, embora sem atingir ninguém. O Lili também gritava o apelido “Coreba” para outro velho, cujo nome era desconhecido de todos. O “Coreba” fingia que se importava com as provocações, mas quando ninguém o percebia procurava dar um sinal de presença, pois, no fundo, gostava de ser provocado, para poder xingar, para a gargalhada de todos. Diziam na época que Pompéu se cobrisse com uma lona virava circo, se cercasse virava hospício. Lili atormentava a Petronilha, mulher do João Quirino, uma mulher muito feia de um velho sempre bêbado. Ele cutucava: “se eu tivesse uma mulher feia como você, Petronilha, eu não bebia cachaça; eu bebia era formicida”, o veneno preferido por 9 entre 10 suicidas. Encontrava sempre alguma “vítima” para suas troças. E muita gente procurava-o para fornecer mais “munição”, pois tinha grande senso de humor e adorava apimentar qualquer situação que desse para fazer graça.</p>
<p>Contou-me alguém da família que certa vez, quando o Lili ainda era rapazola combinara com seu próprio cunhado de colocá-lo dentro de um saco de aniagem, usado para embalar café em grão, e deitá-lo no caminho do Velho vendedor de pipocas que era a última pessoa a ir pra casa, lá pela meia noite, numa cidade sem luz. O cunhado, Anicésio, deveria ficar dentro do saco, gemendo, como se fosse uma assombração ou alma do outro mundo. Em seguida, ele e seus amigos procuraram o Pipoqueiro que se chamava Zé Roscão, contaram-lhe a estória e deram-lhe uma arma com balas de festim e orientaram-no para falar: “alma comigo eu passo fogo”, e atirar. Dizem que o Ni, como era conhecido o cunhado, surpreendido com os “tiros”, sujou-se todo.</p>
<p>O Lili participava de uma tradição muito antiga num dos bares da Rua Dona Joaquina, que era fazer uma galinhada, mas com um ingrediente especial: a galinha tinha que ser roubada. O principal prazer era a história da aventura que ficava, dos riscos, dos sustos, etc. Num determinado momento era feita a escolha do alvo: onde iriam roubar a galinha naquela noite. Percebendo os cochichos que o excluíam, o Lili viu que ele desta vez seria a vítima. Antes da equipe sair em diligência, o Lili os chamou e fez um apelo: &#8220;gente, lá tem um frango vermelho que quero que vocês respeitem, pois a Elza quer deixar ele pra galo!&#8221;</p>
<p>Ainda está vivo na cidade de Pompéu, o Soquim, filho do Joaquim Afonso, vereador de vários mandatos, com quem meu primo fez as maiores pegadinhas, que naquela época não tinha esse nome não. Numa delas, o Soquim, mulherengo como ele só, havia levado para Pompéu, uma mulher de uma cidade vizinha, com quem vivia maritalmente. O meu primo combinou com o dono do açougue, para que ele chamasse meu ingênuo irmão que tinha apenas 10 anos e dissesse-lhe que o Soquim, que era também taxista ou motorista de praça, pediu que arranjasse alguém para levar uma fressura ou bofe de boi para a tal mulher com quem vivia. Isso, em um dia que todos sabiam que no Soquim estava viajando. Os vizinhos olhavam, riam, e podemos imaginar quanta coisa passava em suas cabeças&#8230;</p>
<p>Lili vivia aprontando com todo mundo. Até com a própria esposa inventava suas gozações como os tais primeiro de abril, pegadinhas que ela caia facilmente; com os amigos ou com adversários vivia espalhando fofocas de brincadeira mais para criar situações engraçadas que atritos. Quem tiver oportunidade de ler o livro “Coquetel Agridoce”, de autoria de Irilda Porto conhecerá um pouco mais de seu espírito guerreiro e verve brincalhona.</p>
<p>Ainda jovem participou da política e foi um dos vereadores mais votados de Pompéu. Inovava saindo pelas ruas poeirentas da cidade com seu carro preto e a gritar no alto falante: ”ô fulano de tal, não se esqueça que o Gordão é candidato”. Era da UDN, pregadora de moral e ética, uma espécie de PT da época. Da UDN de Milton Campos, político conhecido por sua integridade, que veio a ser seu compadre; do honrado Gabriel Passos que ele apoiou para o governo de Minas; Do Francisco Campos, doutor Chiquinho, ou Chico Ciência, ex-ministro da justiça do Estado Novo, na época dono da maior biblioteca particular do Brasil, a quem recebi dezenas de vezes na “venda”, porque sempre que ia a Pompéu, onde tinha a Fazenda do Indostão, passava algumas horas com o Lili; de Carlos Lacerda, cuja oratória e brilhantismo o estimulou a ter um rádio a pilha, pois ainda não havia energia elétrica na cidade, para ouvir as criticas do mais ácido político que o Brasil já teve. Além do Jornal Estado de Minas, assinava a Tribuna da Imprensa, do Lacerda, que tinha como símbolo uma lanterninha e, não só assinou “O Binômio” &#8211; o bravo jornal de Euro Arantes e depois do José Maria Rabelo, cuja marca era a irreverência. Numa inovadora campanha de assinaturas realizada em 1954, Lili incentivou muita gente na cidade a assinar o jornal que tinha conteúdo, cores e tamanho fora dos convencionais. Lili era um político combativo, como tudo que lia.</p>
<p>Envolvia os eleitores do PSD, partido adversário, em negociação de títulos eleitorais para comprovar que eles eram venais e só votavam no partido dos seus respectivos patrões por interesses. Uma vez, ele denunciou um funcionário e cunhado do prefeito contando que o mesmo comprara uma peça cara, na sua venda, na conta da prefeitura, para o carro particular. Ganhou como prêmio um processo do qual se saiu muito bem.</p>
<p>Lili era o caçula dos irmãos homens, e os dois mais velhos sempre apareciam nas situações que exigiam botar uns panos quentes. Ele, um crítico tremendo, vivia criando confrontos, mas era de uma doçura sem par. Era um das pessoas mais simpáticas e queridas que já conheci. O finado Dr Paulo Campos Guimarães, prócer político da cidade naquela época, uma pessoa inteligente e fina, também o admirava e o defendia em seus arroubos de crítica. Lili era um símbolo da coragem, bravura e da ética. Sabia da situação de todos os parentes mais próximos e quem precisasse de sua ajuda lá estava ele com sua capacidade a suprir as necessidades das pessoas queridas.</p>
<p>No ano de 1954, eu na minha santa ingenuidade, ouvi que ele lia e relia para os fregueses da venda uma notícia no jornal “Estado de Minas” que concluía com a frase: “mais uma vez, a velha legenda foi confirmada: galo forte, vingador!”. Como ele era atleticano fanático, e eu por meu lado sempre abominei a idéia de vingança, peguei a borracha e apaguei aquela frase. Pensava que estava tirando de sua mente aquele sofrimento. Imaginem a reação do meu primo e patrão!</p>
<p>Ele gostava tanto do Atlético que chegou a criar, junto com amigos, o Clube Atlético Pompeano, o alvi-negro de Pompéu, à imagem e semelhança do “Galo”. Foi seu primeiro presidente, e construiu o alhambrado com trilhos que sobraram do desmanche da antiga ferrovia Rede Mineira de Viação que passava próximo à cidade. O hino do clube, de reconhecida beleza e vibração foi composto por sua esposa, Dona Elza. Dona Elza Afonso Tavares, que também incluirei nesta série, era professora de artes e animadora social. Tiveram cinco filhos que herdaram a verve da mãe com a boa mistura do pai&#8230;</p>
<p>Aprendi muito com meu primo Lili do Xisto! Trabalhei com ele cerca de dois anos e sempre que me orgulho de ser ético, corajoso e mostrar amor e doçura eu me lembro dos nossos melhores momentos. Morava em sua casa e dormia no quarto com as suas crianças. Eu era realmente uma pessoa de casa. Creio que herdei muito dele, outras vezes acho até que é seu próprio espírito que baixou em mim, tantas são as semelhanças de nossas atitudes e ações de indignação e rebeldia.  Quando me flagro fazendo uma das mais arriscadas aventuras, a primeira imagem que me vem à mente é a do Gordão, como ele mesmo se nomeava.</p>
<p>Talvez a maior prova disso é que me inspirei no traço de sua assinatura <em>HelyCampos </em>para bordar a minha, <em>VerlyCampos</em><em>,</em> quase idêntica à dele.</p>
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		<title>Carta recebida de José Afonso da Silva</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Dec 2009 16:45:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Recebemos do doutor José Afonso da Silva, mensagem atenciosa sobre a matéria de Sebastião Verly publicada neste portal na categoria “Pessoas Notáveis” sob o título “Zico do Nereu”, que é como ele é conhecido carinhosamente em Pompéu, sua cidade natal. Publicamos também uma foto da ocasião de sua formatura como bacharel em direito, em 1957, pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo. A foto foi cedida por uma prima de primeiro grau do Dr José Afonso, Dona Elza Afonso, residente em Pompéu. “Aos editores e leitores do portal metro Li a matéria a meu respeito neste Portal. Agradeço ao autor, Sebastião Verly. Há duas coisas que eu queria observar: 1) está desenvolvendo uma história de que eu fui alfabetizado aos 15 anos de idade; isso surgiu de uma entrevista que dei à revisão Visão em 1963; ao repórter disse que tinha feito o primário até o terceiro ano com 15 anos de idade; ele parece ter entendido que eu disse que fui alfabetizado aos 15 anos; não teria nada demais nisso, há circunstâncias no interior do país em que isso era, e talvez, ainda seja freqüente. O autor, portanto, não tem responsabilidade nisso. É informação que sai com frequência. Mas, a bem da verdade, sempre procuro esclarecer que não foi assim, porque, na verdade, até fui alfabetizado bem criança, entre 6 e 7 anos de idade. Morávamos nos arredores de Buritizal, atual Silva Campos, distrito de Pompéu, numa região rural chamada Queima-Fogo e um primo do meu pai, deu para mim e meu irmão Hélio aulas de alfabetização e, quando ele se foi, minha tia Dita, foi para lá e prosseguiu nas aulas e, quando ela se foi, minha mãe juntou mais algumas crianças e deu aulas para nós, de sorte que, voltando para Buritizal, e matriculando-me no grupo escolar, já sabia ler, escrever e contar as quatro operações, por isso, entrando no primeiro ano, no mesmo mês as professoras me passaram para o segundo ano. E aqui aproveito outra deixa de matéria publicada neste portal, do mesmo autor, Sebastião Verly, a respeito do Tomaz de Oliveira Campos. Isso porque uma das professoras do grupo era a primeira mulher dele, Dona Olenita, a outra era irmã desta e, assim, cunhada do Tomaz; com a morte de D. Olenita, por volta de 1936, o Tomaz casou-se com a cunhada, D. Grijalva. Ambas foram minhas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Recebemos do doutor José Afonso da Silva, mensagem atenciosa sobre a matéria de Sebastião Verly publicada neste portal na categoria “Pessoas Notáveis” sob o título “Zico do Nereu”, que é como ele é conhecido carinhosamente em Pompéu, sua cidade natal. Publicamos também uma foto da ocasião de sua formatura como bacharel em direito, em 1957, pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo. A foto foi cedida por uma prima de primeiro grau do Dr José Afonso, Dona Elza Afonso, residente em Pompéu.</p>
<p><img class="size-full wp-image-1932   alignleft" style="margin: 4px;" title="leonel" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2009/12/leonel.jpg" alt="leonel" width="150" height="209" align="left" />“Aos editores e leitores do portal metro</p>
<p>Li a matéria a meu respeito neste Portal. Agradeço ao autor, Sebastião Verly. Há duas coisas que eu queria observar:</p>
<p>1) está desenvolvendo uma história de que eu fui alfabetizado aos 15 anos de idade; isso surgiu de uma entrevista que dei à revisão Visão em 1963; ao repórter disse que tinha feito o primário até o terceiro ano com 15 anos de idade; ele parece ter entendido que eu disse que fui alfabetizado aos 15 anos; não teria nada demais nisso, há circunstâncias no interior do país em que isso era, e talvez, ainda seja freqüente. O autor, portanto, não tem responsabilidade nisso. É informação que sai com frequência. Mas, a bem da verdade, sempre procuro esclarecer que não foi assim, porque, na verdade, até fui alfabetizado bem criança, entre 6 e 7 anos de idade. Morávamos nos arredores de Buritizal, atual Silva Campos, distrito de Pompéu, numa região rural chamada Queima-Fogo e um primo do meu pai, deu para mim e meu irmão Hélio aulas de alfabetização e, quando ele se foi, minha tia Dita, foi para lá e prosseguiu nas aulas e, quando ela se foi, minha mãe juntou mais algumas crianças e deu aulas para nós, de sorte que, voltando para Buritizal, e matriculando-me no grupo escolar, já sabia ler, escrever e contar as quatro operações, por isso, entrando no primeiro ano, no mesmo mês as professoras me passaram para o segundo ano. E aqui aproveito outra deixa de matéria publicada neste portal, do mesmo autor, Sebastião Verly, a respeito do Tomaz de Oliveira Campos. Isso porque uma das professoras do grupo era a primeira mulher dele, Dona Olenita, a outra era irmã desta e, assim, cunhada do Tomaz; com a morte de D. Olenita, por volta de 1936, o Tomaz casou-se com a cunhada, D. Grijalva. Ambas foram minhas professoras no grupo de Buritizal. Tomaz gostava muito de mim, pois trabalhei para ele bastante tempo. Ele tinha uma loja de tecidos e armarinhos em Buritizal, ao lado da venda de meus pais. Mas, por volta de 1936 a 1938 ele passou a comprar creme de leite e remetia para uma fábrica de manteiga, creio que em Pitangui. A fábrica não era dele. Eu é quem buscava o creme nas fazendas, no início da safra montado em um burro com duas latas de 25 litros, uma de cada lado, depois com um carro com uma junta de bois com nove ou dez latas de 50 litros. Saia de Buritizal pelo leste, dava uma volta pelas fazendas colhendo creme e chegava pelo Oeste. Fiz isso durante três anos, a começar com a idade entre 11 a 12 anos, e o Tomaz me pagava o salário correspondente ao de um homem. Por isso gostei muito de ver estampada uma matéria sobre ele.</p>
<p>2) Outra questão é a do Chico Campos, que, como diz Verly, nasceu em Dores do Indaiá, mas seu pai, o Dr Jacinto Álvares da Silva Campos, que era juiz de direito, salvo engano, era pompeano, inclusive o mais antigo grupo escolar de Pompéu se chama Jacinto Campos. Portanto, nascer em Dores do Indaiá foi mera circunstância, porque basicamente ele era pompeano e deu mostra disso vivendo em Pompéu até morrer.</p>
<p>Atenciosamente.</p>
<p>José Afonso da Silva”</p>
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		<title>Zico do Nereu</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Dec 2009 18:24:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sebastião Verly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Meu primeiro contato consciente com o Dr. José Afonso da Silva foi ao chegar numa livraria onde vi o livro “Buritizal”, a história de Miguelão Capaégua. Só de folhear fiquei encantado com a obra e quis saber quem era aquele agradável autor. Minha grande surpresa foi quando soube que se tratava do pompeano Zico do Nereu, mas a surpresa se tornou maior ainda quando me disseram que o mesmo era, de fato, o conhecido jurista e constitucionalista Dr. José Afonso da Silva, homem de confiança do ex senador e depois governador de São Paulo Mário Covas. De 1995 a 1999 foi Secretário da Segurança Pública do Estado de São Paulo, inovando ao incrementar a hegemonia da Justiça naquele órgão. Antes, na Constituinte de 1988, como chefe de gabinete do então senador, que foi nada menos que o relator da Constituinte, foi José Afonso quem teve a responsabilidade real de dar alinhavo à nossa atual constituição. Já que auto-estima pouca é bobagem, como mineiro de Pompéu quero dizer que tanto a constituição de 1937, a famosa “polaca”, quanto os Atos Institucionais de nºs 1 e 2, bem como extensos trechos da Constituição de 1967, tiveram a lavra de outro pompeano, o ex-ministro Francisco Luís da Silva Campos, o Chico Ciência, como era tratado de forma bem humorada pela grande mídia, ou Doutor Chiquinho, como era chamado lá em Pompéu. Explico, apesar de ter nascido em Dores do Indaiá, se tornou pompeano por opção, pois lá ele foi pioneiro na criação de gado zebu, em sua Fazenda do Indostão, e hoje dá seu nome ao distrito de Silva Campos, antigo Buritizal, de onde veio o Dr. José Afonso, se vocês me permitem a intimidade, o Zico do Nereu. Só que o Doutor Chiquinho deixou sua marca, liberal com os ricos e autoritário com os pobres, fortemente concentrador de poderes na União Federal em detrimento de estados e municípios. Já o Zico surgiu, dizem os videntes, para pagar o carma de Pompéu e Buritizal com o Brasil, emprestando seu espírito anti-liberal e democrático, além de fortemente federalista e descentralizador de poderes e recursos. Para escrever essa brilhante obra, não me refiro aqui à Constituição de 88, mas “Buritizal”, alguém o vira, durante alguns dias, lá em Pompéu, no armazém da Marlene, filha de um primo seu já falecido, coletando e validando informações sobre a História da cidade e os causos do distrito. Meus [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-1857" title="Zico do Nereu" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2009/12/zico.jpg" alt="Zico do Nereu" width="500" height="375" /></p>
<p>Meu primeiro contato consciente com o Dr. José Afonso da Silva foi ao chegar numa livraria onde vi o livro “Buritizal”, a história de Miguelão Capaégua. Só de folhear fiquei encantado com a obra e quis saber quem era aquele agradável autor.</p>
<p>Minha grande surpresa foi quando soube que se tratava do pompeano Zico do Nereu, mas a surpresa se tornou maior ainda quando me disseram que o mesmo era, de fato, o conhecido jurista e constitucionalista Dr. José Afonso da Silva, homem de confiança do ex senador e depois governador de São Paulo Mário Covas. De 1995 a 1999 foi Secretário da Segurança Pública do Estado de São Paulo, inovando ao incrementar a hegemonia da Justiça naquele órgão. Antes, na Constituinte de 1988, como chefe de gabinete do então senador, que foi nada menos que o relator da Constituinte, foi José Afonso quem teve a responsabilidade real de dar alinhavo à nossa atual constituição.</p>
<p>Já que auto-estima pouca é bobagem, como mineiro de Pompéu quero dizer que tanto a constituição de 1937, a famosa “polaca”, quanto os Atos Institucionais de nºs 1 e 2, bem como extensos trechos da Constituição de 1967, tiveram a lavra de outro pompeano, o ex-ministro Francisco Luís da Silva Campos, o Chico Ciência, como era tratado de forma bem humorada pela grande mídia, ou Doutor Chiquinho, como era chamado lá em Pompéu. Explico, apesar de ter nascido em Dores do Indaiá, se tornou pompeano por opção, pois lá ele foi pioneiro na criação de gado zebu, em sua Fazenda do Indostão, e hoje dá seu nome ao distrito de Silva Campos, antigo Buritizal, de onde veio o Dr. José Afonso, se vocês me permitem a intimidade, o Zico do Nereu. Só que o Doutor Chiquinho deixou sua marca, liberal com os ricos e autoritário com os pobres, fortemente concentrador de poderes na União Federal em detrimento de estados e municípios. Já o Zico surgiu, dizem os videntes, para pagar o carma de Pompéu e Buritizal com o Brasil, emprestando seu espírito anti-liberal e democrático, além de fortemente federalista e descentralizador de poderes e recursos.</p>
<p>Para escrever essa brilhante obra, não me refiro aqui à Constituição de 88, mas “Buritizal”, alguém o vira, durante alguns dias, lá em Pompéu, no armazém da Marlene, filha de um primo seu já falecido, coletando e validando informações sobre a História da cidade e os causos do distrito. Meus sobrinhos informaram-me isso por telefone, dizendo que se tratava do Zico do Nereu.</p>
<p>Zico era, segundo o Astrogildo e a Mirtes, meus sobrinhos e informantes, um garoto intrépido que, lá pelo fim da década de 1940, vivia ali pelas bandas do Buritizal, hoje distrito de Silva Campos, no município de Pompéu. O pai tinha lá suas posses suficientes pelo menos para manter a família e dar condições para que os filhos saíssem da roça para vencer na metrópole.</p>
<p>Morando na roça, dizem que só se alfabetizou com quinze anos de idade, emigrou para São Paulo com a cara e a coragem junto com os irmãos, e certamente trabalhou muito para chegar ao topo do Direito Constitucional no Brasil. Foi lavrador, garimpeiro, alfaiate e oficial de justiça antes de se tornar bacharel em direito. José Afonso da Silva conseguiu graduação em Direito pela Universidade de São Paulo em 1957 obteve livre-docência em direito constitucional pela mesma universidade em 1969. Formado em Direito, esse notável pompeano decidiu que, além de atuar como advogado, deveria especializar-se no Direito Constitucional e ainda se dedicar a ministrar conhecimentos como professor. Foi Professor Titular da Faculdade de Direito da USP de 1975 a 1995. Tem diversos livros e artigos publicados sobre o tema, e é bem conhecido nas faculades de direito. No corredor das faculdades é comum a expressão entre os estudantes: “me empresta o seu José Afonso?”.</p>
<p>Professor, elevou-se cada dia mais e passou a ser respeitado como o maior nome do Direito Constitucional no Brasil. Um grande professor, dono da Cátedra de Direito Constitucional, o menino humilde que saíra lá das redondezas do Buritizal ganhara respeito e admiração. Seus trabalhos sobre o difícil tema que é o Direito Constitucional são os mais complexos, completos e obrigatórios para quem deseja usar o título de advogado. São obras como <a href="http://www.malheiroseditores.com.br/titulo.asp?codigo=522076" target="_blank">COMENTÁRIO CONTEXTUAL À CONSTITUIÇÃO</a>, talvez a mais ampla sobre o assunto</p>
<p>Livros à disposição, leu tudo o que pode ler, estudou tudo sobre os meandros do Direito e das Leis. Fez amizades, ensinava com dedicação e aprimorava-se dia a dia. Voltava à sua terra geralmente para a festa de julho, mesmo quando era secretário de estado e principal assessor do relator da Constituinte. Ainda que pareça secundário, disseram-me <em>de ouvir dizer</em> que Zico era um jovem considerado bonito, um belo rapaz. A beleza que as pessoas vêem em nós é diretamente relacionada à nossa auto-imagem, à nossa felicidade e ao nosso  brilho interior. A beleza ideal e o padrão de beleza estão na nossa auto-imagem que fará a cabeça de quem nos vê.</p>
<p>Nosso Jurista tornara-se um homem realizado.</p>
<p>Chegava o tempo de ir rever sua terra com um novo olhar. Foi por isso que muita gente viu o Zico do Nereu, no fim da década passada, depois de ter enfrentado seus maiores desafios na vida pública, conversando pelas ruas de Pompéu, especialmente em Buritizal, digo Silva Campos, coletando e refinando seus dados com os mais velhos e conhecendo o que da terra sabem os mais jovens. Quem leu Guimarães Rosa, sabe que foi assim que também ele escrevera grande parte das melhores obras da nossa Literatura.</p>
<p>O Dr. José Afonso da Silva é uma pessoa que venceu barreiras imensas pelo mérito e pela pura força de vontade, o que vem a mostrar o milagre que a aplicação nos estudos pode fazer por uma pessoa. Por tudo o que foi e que ainda pode ser dito posso dizer com orgulho que este nosso conterrâneo de Minas Gerais e de Pompéu é uma pessoa realmente notável, por tudo o que fez não apenas no direito constitucional, mas pela grande figura humana que é.</p>
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		<title>Thomaz Campos &amp; Cia</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Nov 2009 17:17:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sebastião Verly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Na pacata cidade de Pompéu, no interior de Minas Gerais, havia um homem com um perfil muito especial. Nos meados do século XX, Thomaz de Oliveira Campos, ou simplesmente o Thomaz, uniu-se a sócios escolhidos a dedo e, para fabricar manteiga, fundou uma empresa, a Thomaz Campos &#38; Cia. Ltda. E fabricava uma manteiga especial. Ouvia seus sócios, mas comandava os negócios sozinho. Era um líder que se impunha pela presença, pela sua inteligência e pela sua elevada capacidade de argumentar. Cabelos grisalhos, rugas na testa, raramente andava a pé. Saia com sua caminhonete pelas ruas da cidade, viajava até uma fazenda alugada e diariamente ia uma ou duas vezes ao sítio, também arrendado, na periferia. Freqüentava o comércio e os ambientes honestos da cidade. Eu trabalhava em outra firma de materiais de construção de um de seus sócios naquela fábrica, onde ele passava todos os dias e, muitas vezes assentava-se no alto balcão – que eu mantinha super limpo – e ali com uns e outros fregueses conversava um pouquinho. Eu era um garoto de doze para treze anos, a quem ele só sabia fazer elogios. Elogiava a água que nem filtrada era naquela época, e a bebia, retirada do pote, no copo comum de todos os demais fregueses. Na maioria das vezes, passava para comprar uma pequena peça, um objeto necessário em sua casa, um veda rosca, uma conexão hidráulica. Gostava de ouvir meus casos. E me perguntava por determinadas pessoas que ali entravam. E agradava-lhe ouvir minha franqueza. Eu sempre soube que era de mau gosto chamar uma pessoa de judeu. Mas via seus amigos mais chegados chamarem-no dessa maneira e um dia ousei também fazer com ele esta brincadeira. Thomaz esboçou um sorriso amarelo e com muito tato e paternalmente explicou-me a carga negativa daquela palavra. No seu caso, tratava-se de seu grande interesse por negócios lucrativos. Dando uma voltinha no texto, conto que Thomaz casou-se pela primeira vez e teve um casal de filhos, Hipólito e Berenice, enviuvou-se e casou, creio, com uma cunhada. Aí teve mais um casal: Humberto e Grijalva. Berenice casou logo e vivia muito bem com o filho de um grande adversário político. Tudo bem. Enviuvou-se de novo. Depois, ficou ali numa casa antiga, mas muito bem conservada com um quintal todo plantado e sua vida era orientar os filhos, mantendo os mais novos em colégios noutras cidades e ao mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na pacata cidade de Pompéu, no interior de Minas Gerais, havia um homem com um perfil muito especial. Nos meados do século XX, Thomaz de Oliveira Campos, ou simplesmente o Thomaz, uniu-se a sócios escolhidos a dedo e, para fabricar manteiga, fundou uma empresa, a Thomaz Campos &amp; Cia. Ltda. E fabricava uma manteiga especial. Ouvia seus sócios, mas comandava os negócios sozinho. Era um líder que se impunha pela presença, pela sua inteligência e pela sua elevada capacidade de argumentar.</p>
<p>Cabelos grisalhos, rugas na testa, raramente andava a pé. Saia com sua caminhonete pelas ruas da cidade, viajava até uma fazenda alugada e diariamente ia uma ou duas vezes ao sítio, também arrendado, na periferia. Freqüentava o comércio e os ambientes honestos da cidade.</p>
<p>Eu trabalhava em outra firma de materiais de construção de um de seus sócios naquela fábrica, onde ele passava todos os dias e, muitas vezes assentava-se no alto balcão – que eu mantinha super limpo – e ali com uns e outros fregueses conversava um pouquinho.</p>
<p>Eu era um garoto de doze para treze anos, a quem ele só sabia fazer elogios. Elogiava a água que nem filtrada era naquela época, e a bebia, retirada do pote, no copo comum de todos os demais fregueses. Na maioria das vezes, passava para comprar uma pequena peça, um objeto necessário em sua casa, um veda rosca, uma conexão hidráulica.</p>
<p>Gostava de ouvir meus casos. E me perguntava por determinadas pessoas que ali entravam. E agradava-lhe ouvir minha franqueza. Eu sempre soube que era de mau gosto chamar uma pessoa de judeu. Mas via seus amigos mais chegados chamarem-no dessa maneira e um dia ousei também fazer com ele esta brincadeira. Thomaz esboçou um sorriso amarelo e com muito tato e paternalmente explicou-me a carga negativa daquela palavra. No seu caso, tratava-se de seu grande interesse por negócios lucrativos.</p>
<p>Dando uma voltinha no texto, conto que Thomaz casou-se pela primeira vez e teve um casal de filhos, Hipólito e Berenice, enviuvou-se e casou, creio, com uma cunhada. Aí teve mais um casal: Humberto e Grijalva. Berenice casou logo e vivia muito bem com o filho de um grande adversário político. Tudo bem.</p>
<p>Enviuvou-se de novo. Depois, ficou ali numa casa antiga, mas muito bem conservada com um quintal todo plantado e sua vida era orientar os filhos, mantendo os mais novos em colégios noutras cidades e ao mais velho entregando os negócios. Ali sua empregada e companheira Luzia procurava fazer o melhor que podia para agradar a vida daquele velho senhor.</p>
<p>Thomaz Campos estava sempre saudável, barba e bigode escanhoados, bem vestido, sapatos bem engraxados e altaneiro estava sempre de cabeça erguida e olhares ternos e suaves. Na cidade, muitas moças diziam às escondidas e até para que chegasse aos seus ouvidos que ele era um “bom partido”.</p>
<p>Volto ao industrial. Naquele tempo não se costumava chamar esse tipo de negociante de empresário e muito menos de empreendedor. A fábrica de manteiga, como era mencionada por todos os pompeanos, fabricava as manteigas Jussara e Jarina, exclusivamente para exportação. Toda a produção ia para a Holanda, acredito. Era uma delicia aquela manteiga! Os sócios podiam apanhar uma quantidade razoável para seu consumo e tudo era pago no fim do mês. Até por isso, chamavam-no de judeu. Numa cidade daquele tamanho, ninguém esperava que uma “grande” fábrica cobrasse dois ou três quilos de manteiga dos sócios. Onde já se viu?! Ah, os familiares dos fornecedores de creme e que vivessem na cidade, também poderiam levar uma quantidade mínima de manteiga enlatada. No acerto de contas, o valor era descontado em quilos de manteiga. Muito justo, como tudo que o Thomaz fazia.  Até mesmo com as obrigações fiscais ele era rigoroso em seu cumprimento.</p>
<p>Lá no meu emprego, sempre que o Thomaz observava um feito meu, digno de elogio, ele dizia: “Se algum dia você sair daqui, quero que vá trabalhar comigo.” Foi o que fiz. Ao deixar  meu emprego, eu o procurei. Apesar da pouca idade, ele entregou-me toda a responsabilidade por um turno no Posto de Abastecimento de Combustível e Serviços que a empresa possuía em terreno contíguo com atendimento para a rodovia Pompeu-Abaeté.</p>
<p>Mais tarde o Posto foi vendido e eu trabalhei na Fábrica de Manteiga: serrava lenha para a caldeira, ligava os motores a diesel (a cidade não contava com a energia elétrica), recuperava o piso de entrada, varria interna e externamente a fábrica e seu imenso terreno, recebia o creme que chegava em caminhões ou trazidos pelo próprio fazendeiro nas selas do cavalo: tirava amostras, analisava, registrava tudo nas fichas do fornecedores e encaminhava as latas para  junto das batedeiras.</p>
<p>Na época da seca, ou quando o fornecedor tinha prestígio para que batesse sua manteiga na hora ao invés de cálculos das análises, eu me orgulhava de poder fazê-lo. Por fim, pesava e enlatava a manteiga, limpava a gordura externa das latas com serragem e as colocava em caixas para a exportação. Ah, eu mesmo atendi várias vezes o fiscal do DIPOA (Departamento da Produção Animal) do Ministério da Agricultura que ia a Pompéu inspecionar o produto que ele, o fiscal, não cansava de elogiar. Nos intervalos eu recebia os produtos comprados pela empresa ou recebia e entregava o arroz beneficiado na grande máquina instalada na área e que prestava serviços a toda a comunidade. Terminei indo trabalhar no escritório contábil. Relatei tanto sobre mim, para mostrar o quanto aprendi com este senhor.</p>
<p>Mas, voltemos ao nosso notável Thomaz. Foi ele quem me fez passar por todos os serviços de uma empresa e também foi ele quem me ensinou muito do que aprendi na vida. Thomaz era filiado à União Democrática Nacional, UDN, partido político que pregava a moralidade, mas convivia muito bem com todos os adversários políticos. Creio que ele nunca disputou pessoalmente nenhum cargo público.</p>
<p>Thomaz era uma pessoa cordial, e também um homem extremamente comedido em tudo que fazia, mas ao mesmo tempo era ousado em decidir nas suas empreitadas.  E fazia tudo com extrema rapidez. Para ele, agir depressa era natural e obrigatório. Tinha muita coragem para negócios e agia com ânimo exagerado. Dormia pouco, mas, deitava e levantava muito cedo. Dizia para mim que cuidava do que era seu porque era sagrado. Preservava sua riqueza porque sabia o quanto ele lutou para construí-la.</p>
<p>No decorrer da vida, que foi de muitos contatos entre nós, eu nunca mais o chamei de judeu! E sempre o respeitei muito.</p>
<p>Thomaz de Oliveira Campos era, como as pessoas diziam, um homem como poucos. Em seu silêncio e objetividade aprendi a admirá-lo e até hoje gosto de refletir sobre este Homem Fabuloso que me fez saber, mais do que acreditar que tudo posso quando tenho coragem, amor, força e ação na hora.</p>
<p>Nesta crônica, além da homenagem pessoal quero deixar para meus conterrâneos de Pompéu uma provocação afetuosa. Pompéu, além de ter uma grande destilaria de álcool de propriedade dos próprios pompeanos, produz quase meio milhão de litros de leite diários, sendo a maior bacia leiteira do Estado de Minas Gerais, e a segunda maior do Brasil. Sua cooperativa de produtores rurais, é a quarta maior acionista da Itambé, maior laticínio de capital nacional. E hoje mais de meio século depois da Thomaz Campos &amp; Cia ter atingido seu auge com a produção de manteiga de qualidade para exportação, nossa Pompéu exporta todo o seu leite “in natura”, sem agregar valor e deixando de criar muitos empregos. Fica a pergunta: já não era hora de termos nosso próprio laticínio? Sua bênção, Thomaz, descanse em paz!</p>
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