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Resguardar-se

Publicado por Carlos Bittencourt Almeida em Psicologia
data: 22/09/2009

Em resposta à leitora Alba Valéria

Quando convivemos muito tempo com uma pessoa – pai, namorado, amigo – a nossa história com esta pessoa é tecida ao nosso redor. O tempo não é linear, é circular. Fatos ocorridos há 10 anos podem estar tão próximos quanto algo que aconteceu há uma semana. Nossas vivências se agrupam dentro de nós por temas. Situações parecidas se agrupam. As rejeições ficam juntas, os momentos muito felizes ficam juntos, as doenças graves se aglutinam.

Para compreender nossas reações, nossos sentimentos, precisamos contemplar tudo que vivemos juntos, desde o primeiro dia. A memória emocional não esquece. Quanto mais intensa foi a emoção vivida, mais fortemente ela fica marcada em nós. Se alguém nos magoou profundamente, mesmo que há muitos anos,mesmo se achamos já tê-lo perdoado, pode ser que algo se modificou em nós a partir daquela época e nunca mais voltamos a ser a mesma pessoa. Algo se quebrou, rasgou-se em nós. Presenciei casos em que um adultério cometido há 20 anos, arruinou um casamento, mesmo que a relação tenha prosseguido, mesmo que depois disto tenham nascido filhos e que a pessoa deu evidencias de não ter repetido a conduta.

Nas relações humanas confiança é o que há de mais delicado. Podemos amar profundamente alguém, desejá-lo, querer o seu bem, mas por algum fato grave acontecido no passado a confiança se quebrou. Amor e desconfiança podem viver lado a lado: ‘Eu não confio mais em você’. Para haver entrega, seja na vida sexual, seja nos laços afetivos, seja na vida profissional, é preciso confiar. Para ser capaz de sorrir de coração para alguém, para estar relaxado e leve na sua companhia é preciso confiar.

Existem atos que cometemos que causam danos irreparáveis. É preciso assumir a responsabilidade por aquilo que fazemos ou dizemos. Há palavras ditas com grande intensidade emocional que penetram no ouvinte como um punhal, como um veneno que vai atuar de modo permanente a partir de então. E não adianta pedir desculpa, arrepender-se, tentar reparar. É bom que se faça isto tudo quando reconhecemos que erramos, mas é preciso saber que não há como apagar o que foi feito. E não adianta culpar o outro por ter coração duro, ser ressentido, não ser capaz de perdoar. Por mais que saibamos que errar é humano,que todos erramos, é preciso também saber que as marcas que deixamos no mundo podem ser permanentes. É preciso aprender a ser cauteloso, pensar antes de agir, ter grande autocontrole, medir consequências, porque depois pode ser tarde demais.

Acontece frequentemente de transferirmos para outras pessoas sentimentos que não nasceram dentro do relacionamento. Conheço um caso de uma pessoa que era muito apegada à mãe na infância. Tinham uma relação muito íntima. Aí a mãe é abandonada pelo marido, passa a dar pouca atenção aos filhos, tornar-se pouco presente no lar e cultiva fora do lar uma intensa vida social. Esta pessoa, magoada pelo abandono materno precoce, perde a confiança nas pessoas, não apenas na mãe. Torna-se dura, agressiva, arredia. Depois de adulta, casa-se, tem filhos, mas permanece fechada por dentro. É como se dissesse: “Nunca mais vou confiar em ninguém. Nunca mais alguém vai me fazer sofrer como minha mãe o fez. Já que minha mãe não me amou de verdade, não acredito que alguém vá me amar sem me decepcionar.”

Neste caso podemos cometer muitas injustiças. Podemos receber afeto sincero de outras pessoas, mas somos incapazes de perceber. Ficamos cegos pela dor. Fazemos greve. Passamos a ter raiva da vida. Quem foge da vida com medo de sofrer, continua sofrendo. Quem não confia em ninguém, com medo de ser abandonado ou ferido, perde a imensa delicia que é o encontro de amor, a alegria de fundir-se em doçura e aconchego com um outro ser humano.

Temos que nos responsabilizar. Quem se fecha pára de crescer. Precisamos nos fortalecer. Sabendo que viver é perigoso e arriscado, que o sofrimento é sempre possível, temos que apostar que a alegria, o prazer podem valer a pena todo o sofrimento. Não são os fatos, as pessoas, que nos fazem sofrer, mas sim o nosso modo de receber o que a vida nos traz. O mesmo fato doloroso pode ser traumático para uma pessoa e para outra pode ser algo facilmente superável. O mesmo acontecimento alegre pode ser para alguém um imenso prazer e para outro pode ser uma ninharia desprezível. Existem pessoas que descobrem dentro de si mesmas uma fonte de alegria e encantamento que não depende de nada exterior. São capazes de extrair alegria e enlevo mesmo em circunstâncias muito dolorosas e difíceis. Este é o sublime mistério da condição humana: somos tão frágeis, e ao mesmo tempo podemos fazer germinar em nós uma alegria interior maior do que tudo que a vida exterior nos traz.

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Carlos Bittencourt Almeida - Psicólogo Clínico e escritor, residente em Belo Horizonte - MG Consultas online? envie suas perguntas.
3 Comentários
  1. Sânia Campos

    Acompanho seus textos e admiro sua capacidade de síntese. Vc consegue abordar asuntos complexos com poucas palavras, sem ser superficial e de forma consistente . Este seu último texto foi o melhor de todos, na minha opinião.

  2. Alba Valéria - Almenara

    Lindo Carlos, amei o texto! Muito grata pela atenção.

  3. Cezarina da Silva Almeida /Ribeirão dasNeves

    Parabens, voce como sempre é preciso em seus comentários.Gostaria de saber o que leva os jovens a serem tão agressivos na escola comportamento muito presente entre eles,desde já agredeço pela atenção.

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