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Recomeçar Sempre

Publicado por Carlos Bittencourt Almeida em Psicologia
data: 06/12/2011

Consciente ou inconscientemente buscamos o prazer, a alegria, a felicidade, a plenitude. Para aquele que tem coragem e se lança sobre a vida com atenção e interesse a vida alimenta. Mas o contraponto de sofrimento, dor, tristeza, medo, frustração, vazio, tédio, amargura, também existe. Onde está o porto seguro, o grande amor que para sempre nos fará felizes, a realização profissional que justificará todos os nossos esforços? Serão apenas quimeras, miragens, doces ilusões que a vida se encarrega de destruir?

Aquele que busca o permanente, a base estável, percebe que a vida flutua sobre água. Dentro do barco um movimento em falso te lançará dentro da água. A vida não nos dá descanso longo. É incansável. Exige de nós sempre novos esforços. A doçura da novidade, o encanto da descoberta é seguido por um mar imenso de repetições. A novidade passa e se torna familiar, normal, agradável, mas já sem a intensidade explosiva do novo.

Quanta criatividade, busca incessante, precisamos ter para reencontrar o novo, a descoberta, o frescor intenso da beleza que se revela diante de nós, à medida que ganhamos idade, em que décadas de vida vão se acumulando em nossa memória e em nosso corpo. Quem não faz isto, quem fracassa neste esforço, envelhece, consegue a triste estabilidade dos derrotados, dos amargos, dos depressivos, daquele que acha que a vida é uma grande ilusão, que tudo é vaidade, que a felicidade, o amor, não passa de um desejo inalcançável. A estabilidade negativa é fácil. É muito freqüente encontrarmos pessoas, principalmente a partir da meia idade, dos 40 anos, que estão firmes, estáveis, seguros dentro da tristeza, do tédio, do desânimo, da aridez. Sentem-se vazios, desanimados, acham que seu tempo de ser feliz já passou, já nada esperam das décadas que virão.

A vida exige de nós muita ambição, atitude de garimpeiro. Com avidez revolver uma tonelada de terra para encontrar pequena pepita de ouro. Se somos capazes desta atitude, não vamos envelhecer. O corpo ganha anos, mas a alegria da criança descobrindo o mundo pode ser nossa.

Existem pessoas que se amarguram de modo permanente porque não encontraram no amor erótico aquilo que sonharam. Foram um dia apaixonadas e, depois de anos de convivência, aquele que um dia foi seu príncipe encantado, hoje é fonte de decepções constantes. Mesmo duas pessoas que se amaram profundamente, que foram intensamente felizes juntas por meses ou alguns anos, podem descobrir que amar não basta, que a convivência íntima, cotidiana, traz questões, impossibilidades de convivência, que sufocam e tornam impotente o doce e intenso amor dos primeiros anos da relação.

Será que isto significa que não existiu amor de verdade? Será que tudo foi um sonho que não resistiu ao teste da realidade? O fato de existir amor verdadeiro entre um homem e uma mulher não significa que este amor é o bastante para resolver todas as dificuldades, atritos e incompatibilidades que a convivência cotidiana coloca. O amor pode ser verdadeiro mas não tem potência ilimitada. Talvez conviver menos, talvez morar em casas separadas, talvez romper a relação seja inevitável. É isto um fracasso do amor? Sim e não.  Se eu fui feliz com alguém, intensa e profundamente, ou de modo doce e suave e calmo, durante um ano, cinco anos, dez anos, é um amor que gerou frutos, pedras preciosas de alegria para sempre vivas dentro de mim.

O amor pode durar não apenas na permanência da convivência cotidiana, mas também na gratidão por alguém com quem eu fui feliz por meses ou anos. Pode não durar mais como amor apaixonado e erótico, mas pode sobreviver como amizade íntima ou então apenas como um bem querer que sobrevive dentro de nós na distância, misturando gratidão, alegria e tristeza por não ter durado tanto quanto gostaríamos.

Para sermos ‘felizes para sempre’ é necessário conservar a disposição de recomeçar. Surgirá um novo amor? Talvez… Mas apenas para quem tiver a disposição de desfrutar com alegria o que a vida tem de bom, o que cada pessoa pode nos trazer de alegria, consolo – horas, dias ou meses de convivência feliz.  Durando dias ou anos cada novo amor pode nos fazer ‘felizes para sempre’. Permanece vivo dentro de nós, se soubermos extrair o veneno do desejo frustrado, das decepções, da dor da perda e do abandono.

Se não houver um novo amor e se conservarmos a atitude de garimpeiro podemos descobrir pessoas novas, livros, música, atividades, passeios, filmes, que por horas, dias ou meses possam nos dar pepitas de alegria e encantamento. A vida é fluxo. Instável, variada, cheia de solavancos, sempre em movimento. A nossa alegria estável virá de nossa capacidade de sempre recomeçar com olhar encantado e apaixonado.

 

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Carlos Bittencourt Almeida - Psicólogo Clínico e escritor, residente em Belo Horizonte - MG Consultas online? envie suas perguntas.
3 Comentários
  1. Tarcila

    Dr Carlos, encontro-me no último parágrafo desse texto:
    garimpeira tenho frutos maravilhosos de uma relação primeira.
    Hoje sou garimpeira na vida.
    Aposentada, sou livre para procurar minhas pepitas de ouro que o senhor conhece.
    Abraço.

  2. Aline

    “A nossa alegria estável virá de nossa capacidade de sempre recomeçar com olhar encantado e apaixonado.”
    Além de ser um profissional extremamente competente, é um escritor admirável… Parabéns pelos artigos publicados!

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