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Novela, Futebol e Drogas

Publicado por Carlos Bittencourt Almeida em Psicologia
data: 30/11/2009

Em resposta ao leitor Paulo, Rio de Janeiro – RJ

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Quando falamos de diferenças no comportamento entre homens e mulheres fica difícil separar o que são diferenças de base biológica daquelas que são desenvolvidas pelo ambiente, pela cultura. O fato é que para qualquer observador atento as diferenças existem. Ao mesmo tempo qualquer generalização fala de uma maioria, não da totalidade. Existem homens e mulheres que, em muitos aspectos, são diferentes da maioria do grupo. E ser diferente não quer dizer ser doentio. Faz parte da liberdade humana apresentarmos as mais variadas combinações de atitudes, preferências. Existem homens muito femininos que são heterossexuais, existem mulheres muito femininas que são homossexuais e todas as outras variações e combinações são possíveis, sem que possamos determinar qual é o jeito “certo” de ser homem ou mulher.

A telenovela brasileira tem a preferência inegável do público feminino porque ela trata, predominantemente, daquilo que interessa às mulheres: relações humanas, sentimentos, entre homem e mulher, entre pais e filhos, entre amigos, entre patrões e empregados. As mulheres em geral são mais atentas à atmosfera afetiva entre as pessoas. Tendem a ser mais comunicativas. Quase sempre são aquelas que têm mais zêlo no cuidado com os filhos. Tudo que envolva o cotidiano das relações humanas, atritos, encontros, dificuldades atrai naturalmente seu interesse. Pelo mesmo motivo existe a preferência feminina pelos filmes românticos e pelos que tratam das relações entre pais e filhos. A mulher tem a missão biológica de gerar novos seres humanos. Gerar, cuidar,nutrir, ensinar sua prole é um determinante biológico.

Os homens seguem um outro caminho. Frequentemente mais agressivo, competitivo, impessoal, prático. O esporte em geral combina todas estas características. E é altamente democrático. Em geral de fácil compreensão para todas as idades. E não apenas o esporte congrega o interesse masculino, mas também o mundo das tarefas práticas, do funcionamento das máquinas, das técnicas de construção civil, das estratégias de guerra e luta e de todos os processos envolvidos na vida econômica. Tendem a estar muito mais próximos do mundo do dinheiro e da ambição pelo poder.

Você pergunta sobre o porquê do uso de drogas nas classes mais ricas e cultas da sociedade. Para aqueles que passam a vida toda com baixos salários, ou então tendo que viver na classe média e ganhar seu salário com muito trabalho e esforço, pode parecer que ter dinheiro abundante nas mãos seria o paraíso na Terra. Infelizmente não é verdade. Aquilo que o dinheiro compra – conforto, viagens, assistência médica, lazer abundante, roupas, boa moradia e alimentação – não é suficiente para construir a felicidade humana. Talvez possamos dizer que o dinheiro pode assegurar 40% daquilo que um ser humano necessita para viver bem. Os outros 60% não estão à venda.

Dinheiro não compra saúde. Alguém que tenha doenças graves, que seja paralítico ou que tenha outras limitações importantes, pode suavizar seu sofrimento com dinheiro, mas saúde plena não está à venda. É fruto de bons hábitos e sorte.

Dinheiro não compra amor. Ter alguém que nos ame de verdade, seja amigos, seja um parceiro na vida erótico-afetiva, isto não se conquista com dinheiro. Dinheiro atrai bajuladores, exploradores e pessoas interesseiras. O afeto genuíno mora em outro local.

Dinheiro não compra entusiasmo, alegria de viver. É tarefa de cada ser humano nesta Terra, a cada dia reencontrar motivos para se sentir feliz, tarefas que lhe agradem, interesses que o desafiem e tornem a vida interessante.

Dinheiro não compra juventude permanente nem confiança diante da morte. A morte espreita cada um de nós, todos os dias de nossas vidas. Não sabemos quando nem como ela virá. Será que estamos preparados? A fé autêntica, a certeza da vida espiritual, a serenidade diante daquilo que nos aguarda após a morte do corpo – tudo isto está fora do alcance do dinheiro.

A droga é uma falsa saída muito democrática. É usada por todas as classes sociais. É o pequeno prazer, é o breve momento de alívio para questões que permanecem e a droga é impotente para resolvê-las.

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Carlos Bittencourt Almeida - Psicólogo Clínico e escritor, residente em Belo Horizonte - MG Consultas online? envie suas perguntas.
4 Comentários
  1. Paulo - Rio de Janeiro - RJ

    Carlos, gostei muito de seu artigo no que se refere às novelas e ao futebol. Aí dá para pensar como as emissoras de TV fazem questão de prender a audiência das pessoas com estes dois instrumentos. Há uma emissora de TV que exige que, nos dias de semana, o futebol só comece depois da novela, o que faz com que o torcedor que queira ir a uma partida de futebol só chegue em casa às 2 da manhã. Imagine que ele tenha que se levantar às 5 para enfrentar o batente.
    Outro aspecto do futebol como você nos mostra que ele tem todos os ingredientes das estratégias de guerra. Seria uma forma de canalizar as frustrações das pessoas para o lúdico ao invés do mundo real, onde nos acostumamos a engolir tantos sapos sem a possibilidade de expelí-los?

  2. Paulo,tenho minhas dúvidas se necessáriamente a relação dos homens com o futebol fica apenas no lúdico. Há tantos crimes de maior ou menor gravidade cometidos pelas torcidas organizadas. Isto já é o mundo real. Tem pessoas que vivem cheias de ódio, porque não conseguem se responsabilizar pelas suas frustrações e acham que alguém tem que pagar por isto, às vezes alguém completamente inocente. É fundamental que aprendamos a digerir nossas frustrações de modo construtivo. No modo como fazemos as coisas revelamos nossa índole. Para muitas pessoas o futebol é apenas um divertimento, mas para outros é uma oportunidade de se afirmarem de modo destrutivo.

  3. Felipe - Belo Horizonte

    Sobre as drogas penso que existe uma outra situação que merece ser abordada pelo autor. É a relação das drogas com o sexo. Sabemos que o sexo para cada um tem um significado diferente. Para uns é simplesmente um ato de reprodução. Para outros um ato de amor romântico. Para outros um campo extenso para fantasias. Se você visitar um sex shop, mesmo que seja virtual, você percebe os tipos de fantasias mais procuradas: enfermeiras, policiais, normalistas, freiras. A pedofilia tem sido muito combatida, mas só tem aumentado. Todos os tipos de exotismos surgem nas fantasias. Mas tem pessoas, principalmente nas classes de alto poder aquisitivo, que só conseguem promover suas fantasias sexuais com uso de drogas. Nos Estados Unidos uma grama de cocaína é vendida por 250 dólares, mais de 400 reais, e é usada em orgias nas classes altas. Ao invés de enviar exércitos para a Colômbia para combater o tráfico não seria melhor combater as raízes do problema que são estas necessidades psicológicas? Porque é que as pessoas ricas se dispõem a pagar 250 dólares para ter uma grama de cocaína em suas orgias?

  4. Felipe, recentemente conversei com um ex viciado em crack por 13 anos e me disse que usava a droga como afrodisíaco. De fato é um dos usos possíveis. Tem pessoas que usam a droga para entorpecer o pouco de senso moral que ainda possuem, para, estando drogados cometerem crimes com mais desembaraço.A perversidade humana é sem limite e droga pode ser um facilitador.O difícil, no combate às drogas é que a grande maioria das pessoas gosta de usar substâncias químicas para aliviarem seus problemas e preocupações. Como os governos são constituídos também por estas pessoas, eles próprios não tem lucidez para caminhos alternativos.O combate às drogas ilícitas é apenas a ponta do iceberg. O que é dificil para a maioria das pessoas é encontrarem meios não químicos para lidarem com a ansiedade, as frustrações e o vazio interior.A impotência dos governos espelha apenas a impotência da população na difícil arte de proporcionar alegrias saudáveis a si próprios.

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