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Morar juntos ou não

Publicado por Carlos Bittencourt Almeida em Psicologia
data: 06/11/2012

Esse artigo foi motivado pela leitora Vanessa Dayrell no artigo “Solidão a dois”. Ela comentou: “Carlos, percebo que hoje as pessoas da classe média mais alta nas grandes cidades, não têm dúvida de querer morar sozinhas, segundo dizem é uma opção mais antiga nas cidades maiores, e que vai chegando nas menores. Qual a causa disso, estamos diante de um novo tipo de família, a família poliamorosa?”

Vanessa, recordo-me de uma reportagem que li em uma revista nacional, há vários anos, sobre as pessoas que vivem sós. Dizia que em vários países do norte da Europa, chamados nórdicos, 40% da pessoas moravam sós. Os latinos são mais gregários, se agrupam preferencialmente. Não sei se você é casada, ou já foi. Morar junto com alguém, dentro de um casamento é a relação mais difícil que existe. Não sem motivo há tantas separações ou casamentos infelizes. Na medida em que nossa época foi se livrando das amarras de costumes antigos e de proibições religiosas, as pessoas vão se descobrindo livres para experimentar novas formas de relacionamento humano. Talvez você tenha notado que com frequência as pessoas são mais felizes durante o período de namoro do que depois que se casam. Já ouvi esta constatação inúmeras vezes. Quanto mais frequentemente encontramos com alguém, quantos mais interesses e tarefas dividimos com esta pessoa, mais os defeitos de ambos aparecem, mais os atritos aumentam, aumentando também o sofrimento e as decepções. Quem nunca se casou não tem como saber com precisão o que terá pela frente, de modo que só experimentando para ver. Mas entre aqueles que experimentaram e sofreram muito, alguns tornam-se muito cautelosos em dividir o mesmo espaço novamente com quem estiverem envolvidos de modo erótico afetivo. O período probatório do namoro pode se estender por muitos anos ou mesmo se cronificar. Ou seja ‘acho que damos certo como amantes e namorados, mas tenho fortes dúvidas se seríamos felizes vivendo juntos, tendo apenas uma moradia para ambos’. Há algumas décadas atrás, as pessoas que tinham vida sexual antes do casamento procuravam ser discretas, pois isto pesava negativamente na reputação das mulheres. A exigência de virgindade feminina para o casamento ainda vigorava com força várias décadas atrás. Hoje a vida sexual é livre e fácil para namorados, noivos, ‘ficantes’ ou para aqueles que buscam relações sexuais fora da relação principal. O premio que os homens e mulheres buscavam no casamento antigamente, ou seja permissão da sociedade para uma vida sexual intensa e fácil, hoje está disponível para qualquer um, casado ou solteiro. Este incentivo para o casamento não existe mais. As pessoas têm vida sexual de casados, se quiserem, mesmo morando em casas separadas, e ninguém é estigmatizado por isto – pelo menos nas grandes cidades. Em geral, os homens tem mais receio do casamento do que as mulheres. A questão da liberdade de ir e vir é um tema muito mais intenso na natureza masculina do que na maioria das mulheres. Quando um homem mora só e tem também um intenso laço afetivo erótico com uma mulher, pode ter pouco incentivo para o casamento, porque vai perder parte de sua liberdade e será muito mais vigiado e terá que prestar contas de suas atividades muito mais intensamente do que se continuar morando só. Se ele já teve um casamento e se sentiu sufocado, tem um motivo a mais. É claro que esta opção será preferencial para homens experientes que não sejam fortemente ciumentos, porque a liberdade e a dificuldade de controle e vigilância será recíproca.

Acredito que, para quem tem filhos com o seu atual companheiro, o casamento em geral será uma melhor opção para o bem estar dos filhos e para a sua educação. Mas não podemos fazer disto uma lei férrea. Tem casamentos tradicionais onde um dos cônjuges, com frequência o homem, trabalha viajando e se ausenta por longos períodos. De uma certa forma é uma versão modificada de um casal que vive em casas separadas, porque se um dos dois está fora a maior parte do tempo em outras cidades ou na estrada, por motivos profissionais, o resultado é muito parecido com morar na mesma cidade em casas separadas.

Eu sei que este tema é muito mais incômodo para a maioria das mulheres, mesmo que já tenham sido muito infelizes em um casamento anterior, porque quase sempre a mulher desejará viver no mesmo espaço que o homem que ama, mesmo que, cautelosa, demore bastante na avaliação do mesmo até chegar lá. Quase sempre as mulheres são mais fusionais do que os homens, e não há nada errado nisto. São diferenças importantes entre homens e mulheres e que devem, na medida do possível, serem conciliadas por duas pessoas que se amam eroticamente. Cada casal tem que descobrir a receita possível para ambos, sem que ninguém se sinta intensamente frustrado. O que na prática nem sempre é fácil …..

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Carlos Bittencourt Almeida - Psicólogo Clínico e escritor, residente em Belo Horizonte - MG Consultas online? envie suas perguntas.
4 Comentários
  1. Mario Teles

    Lembrei do ditado: cachorro mordido de cobra tem medo de barbante

  2. Vanessa Dayrell

    Prezado Carlos, fico grata por ter merecido a atenção de seu artigo. Você cita os nórdicos que são vanguardeiros em novas formas de familia. Quando eu era estudante da UFMG na década de 70 o programa de sábado era ir para o cine clube da FACE, e alguns outros cinemas assistir o que hoje são chamados “Filmes de Arte”. Me lembro de um desses filmes, “Cenas de um Casamento”, de Ingmar Bergman, com a formidável Liv Ullman, que era sua esposa na vida real. Ela fazia o papel de uma advogada de familia, Mariane, que tinha um casamento de 10 anos considerado modelo, ela e o marido eram sempre entrevistados sobre o sucesso de seu casamento.
    Ela é procurada por uma cliente com mais de 20 anos de casamento que queria se separar por concluir que o amor em seu casamento tinha acabado, e com ele todas as emoções.
    É quando Marianne fica grávida e, ao comunicar ao marido, vê que ele não sentiu nenhuma emoção, e passa a refletir sobre o seu próprio casamento.

    • Vanessa
      Eu também acompanhei os filmes do Bergman quando entraram no circuito comercial. Sem dúvida Cenas de um Casamento é um filme significativo. Na época cheguei a comprar o livro com os diálogos do filme. O final do filme também acho interessante. Considero a arte de terminar relações amorosas uma nobre arte, infelizmente pouco praticada, para a infelicidade dos participantes.

  3. Raquel

    Belos tempos Vanessa, os filmes em exibição hoje não me dizem nada. Me lembro que no circuito “comercial” de BH havia três cinemas especializados em filmes “cabeça”: o Pathé na Savassi, o Odeon na Floresta e o Roxy no Barro Preto. Em São Paulo frequentei muito o Belas Artes. Era o lugar de encontrar gente alegre, inteligente, sonhadora, naqueles tempos ainda ensombrados, era onde a gente podia respirar um pouco e depois saia para tomar uma cerveja gelada. Fico impressionada que hoje alguns desses filmes são encontrados em pouquissimas locadoras em uma estante bem escondida, só para os saudosistas. Essa geração de “jovens” atuais só conhece produtos culturais pasteurizados, estão todos robotizados.

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