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TV, objeto de cama e mesa

Publicado por Carlos Scheid em Cotidiano, Imprensa
data: 31/07/2017

tv objeto

Quem acompanha o itinerário da televisão no Brasil, desde os idos de setembro de 1950, deve ter notado a maré crescente do sexo que invadiu novelas e programas de auditório, com destaque especial para a propaganda, quando era praticamente impossível anunciar um novo modelo de automóvel sem que uma jovem bonita e pouco vestida fosse mostrada junto ao veículo.

Pois os tempos estão mudando. Não sei se por saturação, quando a imagem da mulher já não produz os mesmos estímulos de antes, nestes últimos meses o sexo vem abrindo espaço para a fome. É impressionante a quantidade de programas da TV ligados à comida, às receitas e à gastronomia em geral.

É verdade que desde as primeiras imagens televisivas, em 1950, os programas de culinária faziam parte da grade dos vários canais, assim como os jornais usavam receitas de bolo para preencher os vazios de suas páginas. Foi emblemática a figura de Ofélia Anunciato, 1924-1998, que esteve à frente, por mais de 30 anos, do programa “Cozinha Maravilhosa de Ofélia”, na TV Bandeirantes.

De início, tais programas eram dirigidos especificamente a um público feminino. Hoje, os homens invadiram o espaço, também eles chamados a exercitar o instinto da fome. A presença masculina está no reality “MasterChef Brasil”, da Band, e no “Cozinha Sob Pressão”, do SBT. Se, até então, todo brasileiro era técnico de futebol, agora somos gastrônomos refinados.
Mesmo os canais “católicos” dedicam precioso tempo à gastronomia, trocando as patenas pelas panelas. A TV Aparecida tem o “Chefs em ação” e as receitas de Simone Moura. A Rede Vida apresenta os seus quitutes no “Vida Melhor”. A TV Século 21 reserva duas horas para o “mulher.com”.

A onda gastronômica é tão forte que, em outubro de 2016, chegou ao Brasil o Food Network, canal especializado em culinária e comportamento (disponível na operadora Sky). O leque de programas sobre comida abre-se cada vez mais:

1. A Cozinha Caseira de Annabel (GNT)
2. A Culinária Mediterrânea de Yotam Ottolenghi (GNT)
3. A Guerra dos Cupcakes (Discovery Home and Health)
4. A Jornada Picante de Shane Delia (GNT)
5. Aprendizes de Chef (GNT)
6. Bake Off Brasil – Mão na Massa (SBT)
7. Batalha dos Confeiteiros (Record)
8. Batalha dos Petiscos (TLC)
9. BBQ Brasil (SBT)
10. Bela Cozinha (GNT)
11. Buddy’s Bakery Rescue (TLC)
12. Cake Boss (Discovery Home and Health)
13. Combate Culinário (TLC)
14. Cozinha Prática com Rita Lobo (GNT)
15. Cozinheiros em Ação (GNT)
16. Dia a Dia (Bandeirantes)
17. Diário do Olivier (GNT)
18. Desafio Culinário (TLC)
19. Desafio de Churrasqueiros (TLC)
20. Fome de Quê? (Discovery Home and Health)
21. Food Truck – A Batalha (GNT)
22. Gordon Ramsey (GNT)
23. Hell’s Kitchen: Cozinha sob Pressão (TLC)
24. Jamie Oliver (GNT)
25. Jogo de Panelas (Rede Globo)
26. Kitchen Boss (TLC)
27. MasterChef (Bandeirantes)
28. Mestres Churrasqueiros (TLC)
29. Nigella (GNT)
30. Que Maravilha! (GNT)
31. Que Seja Doce (GNT)
32. Rainha da Cocada (GNT)
33. Receita de Viagem com Bel Coelho (TLC)
34. Receitas da Carolina (GNT)
35. Tempero de Família (GNT)
36. The Taste Brasil (GNT)

E, como todos os instintos acabam saturados, logo teremos a busca de alimentos raros e exóticos, como já anuncia a dieta dos insetos, que dizem aprovada pela ONU em razão do combate à fome, da redução de recursos e de suposto valor nutricional. Ricos em proteínas, os insetos viriam suprir a mesma produção de nutrientes do gado, mas com menor gasto dos recursos naturais. Como o preço da carne bovina tende a subir sempre mais, a dieta de insetos deve ganhar muitos adeptos, para desespero das larvas e das formigas.

Não deixa de ser curioso que, num planeta onde ao menos 1/3 da população mundial passa fome, nós, ocidentais obesos, estejamos tão interessados em ficar diante da telinha para VER comida. Como se pudéssemos também comer com os olhos aquilo que a barriga não consegue mais conter…

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Carlos Scheid -
Comentário
  1. Marcelo Cirino

    É por isso que a principal epidemia moderna é a obesidade, com a liberalização, o sexo perdeu o encanto.

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