Tamanho da Letra: [A-] [A+]

Religião, religiões…

Publicado por Carlos Scheid em Crônicas Culturais, Religião
data: 24/07/2018

Religião, religiões

Maximiliano Fonseca é ateu. Assim ele se declara. Outro dia, comentei com ele:

- É uma pena! Um ateu não conhece a adoração…

- De modo algum! – respondeu ele. Claro que eu adoro! Sou torcedor do Corinthians e faço parte de uma imensa comunidade de adoradores. Adoramos a camisa do time, beijamos o escudo, e idolatramos os craques. Na falta de incenso, acendemos os sinalizadores no meio da torcida. E se alguém ofender nossos símbolos, somos capazes de tudo. Matar ou morrer! É nossa religião!

E Maximiliano disse tudo isso com aquele ardor inflamado que fez os mártires ao longo da história.

Clarimundo Arrais também se diz ateu. Jura por todos os santos que nunca entrou numa igreja. Da Bíblia, só conhece a lombada na estante da biblioteca municipal. Outro dia, comentei com ele:

- Você devia experimentar uma religião… entrar em uma comunidade… buscar pelo Salvador…

- Não preciso – cortou ele, curto e grosso. Já tenho comunidade. Sou membro do Partido Transformador Nacional. Aliás, nosso partido é exatamente a salvação para todos nós. Temos uma doutrina capaz de salvar o país. Se você conhecesse nosso credo político, também iria aderir ao partido. Na próxima eleição teremos nosso batismo de sangue…

Achei bom me calar. Afinal, é preciso respeitar quem vê o mundo ao contrário. Qualquer coisa que eu dissesse podia parecer uma blasfêmia…

Aldroaldo Bandeira é outro amigo ateu. Costuma zombar da “plebe ignara” – expressão dele – que perde tempo com religião. Ri das promessas, novenas e oferendas. E o que mais o irrita é o tal dízimo.

- Veja só! Dar dinheiro para padres e pastores, isto, sim é um sacrilégio. Eu faço tanto sacrifício para ganhar meu dinheiro, não vou dá-lo de graça…

E acrescentou:

- Tudo na nossa vida gira hoje em torno do dinheiro. Já notou que os grandes edifícios da cidade não são mais os templos e suas torres, mas os shoppings e os espigões dos bancos? É ali que as pessoas se sacrificam pelo dinheiro, matam-se de trabalhar para ganhá-lo e, se necessário, fraudamos licitações, compramos senadores, desviamos verbas e tudo mais, desde que o nobre metal acabe em nossa conta bancária! E se for dinheiro sujo, damos um jeito de lavá-lo e deixá-lo bem limpinho…

Fiquei mudo de espanto, mas Aldroaldo foi em frente:

- O dinheiro criou tudo que existe à nossa volta. Sem o dinheiro, estamos perdidos. O dinheiro nos faz criativos, ele nos inspira e garante nosso futuro. É o dinheiro que provê o pão de cada dia, garante a Previdência e nos dá segurança…

* * *

Fiquei pensando: parece que não existem ateus. Todos são muitos religiosos, preocupados com a adoração, a salvação e os sacrifícios. Apenas apostam a alma em outros deuses…

Compartilhar este Artigo

Leia mais artigos em Crônicas Culturais Religião

Carlos Scheid -
Comentário
  1. Nice Santos

    O ser humano precisa se sentir parte de algum grupo, pois afinal isso é o que nos fortalece, passamos a nos sentir com a força do grupo. Caso contrário nos sentimos como um cachorro sem dono, mendigando comida e levando pontapés.

Deixe um comentário