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Minha rua brasileira

Publicado por Carlos Scheid em Crônicas Culturais
data: 09/02/2018

Minha rua brasileira

Meu compadre Zeferim cansou-se da roça e veio para a cidade com armas e bagagens. Ou, como se diz na roça, de mala e cuia. Assim que os móveis e os trastes foram empilhados no apartamento, ofereci-me para mostrar-lhe o bairro, o comércio e tudo o mais.

Tomamos a avenida e saímos pela direita. Na primeira esquina, o Fast Food.

- Que é isso, Carlito?

- É restaurante, compadre. A comida já fica pronta à espera da gente. É só entrar e comer. Você mesmo pega e se serve…

- Não tem garçom?

- Não, é self service.

- Serve-serve?

Vi que o compadre Zeferim continuava confuso, mas ele já estava interessado em outra novidade, lendo no asfalto uma palavra de três letras:

- Bus?

- É o ponto do ônibus, compadre. Aqui na cidade, os ônibus têm esse nome curtinho: bus.

E fomos adiante. Passamos pelo Big Sound, pelo American Bar e pelo Shopping Center. No quarteirão seguinte, mais novidade:

- Pet Shop?

- É a loja de produtos para animais de estimação. E ali na frente está o Wash Car, que já foi lava-jato antes das propinas na Petrobrás. O Pit Stop é a revenda de automóveis. E esta My Bread é a padaria.

Compadre Zeferim estava perdidim, perdidim… Se tivesse baixado no planeta Marte, talvez se sentisse mais em casa.

Fomos em frente. Encontramos a Video Home, o Blockbuster e a Chicken House, com aquela desavergonhada multidão de frangos pelados na assadeira. Atravessamos a avenida e voltamos pelo lado oposto. Na Body Star – Fitness, as moçoilas corriam na esteira, queimando as calorias. Compadre Zeferim queria saber para quê tanta pressa, se elas não saíam do lugar…

Sempre adiante, vimos a Super Micro e a Lan House, com a tropa de adolescentes futicando na Internet. Tentei explicar o que era “navegar”, mas a ausência de velas, mastros e timões acabou confundindo o compadre. Ainda mais que logo topamos com a Drug Life e a Delivery Express. Pela cara do Zeferim, percebi que era hora de rumar para casa, antes que ele pegasse a primeira jardineira de volta para Bom Jardim de Minas.

Nisto, o compadre parou diante de uma placa onde se lia: Casa de Vinhos. Para meu espanto, ele tomou a iniciativa de entrar e foi direto ao balcão.

- Quem é o dono aqui?

Apresentou-se um senhor já de idade, barriga proeminente, bastos bigodes, calça larga e suspensórios.

- Cá estou eu, Manuel Gonçalves, ao seu dispor…

E o compadre comentou:

- Eu fiquei curioso com um troço dessa rua… Todas as lojas têm o nome em inglês. Só esta casa tem o nome brasileiro…

E o patrão, simpático e sorridente, retrucou:

- É que esta casa é uma casa portuguesa, com certeza!

Moral da história: o português é um idioma que se fala em Portugal.

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