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A partilha do boi

Publicado por Carlos Scheid em Crônicas Culturais, Memórias
data: 25/01/2018

a partilha do boi

Quem não se lembra daqueles circos mambembes que atravessavam o interior do país, de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, movidos por inexplicável amor à vida circense? Pelos anos 50, palmilhando as estradas de terra vermelha do Sul de Minas, lá vinha o circo…

A lona em trapos, o palhaço desbocado, a bailarina gordota, o pangaré magrelo e o picadeiro barrento que o pó de serragem transformava em pasta marrom, fornecendo à molecada excelente munição para seus combates.

A vila ficava logo sabendo da presença do circo, apesar da escassez dos meios de comunicação da época. Com a promessa de entrada grátis, os moleques acompanhavam o palhaço pelas ruas, em alegre ladainha:

- Hoje tem marmelada?
- Tem, sim sinhô!
- Hoje tem goiabada?
- Tem, sim sinhô!
- E o palhaço, o que é?
- É ladrão de muié!!!

Se fosse um circo menos miserável, teria um alto-falante de campânula, de onde uma valsinha antiga cobria os ares verdes e pacatos. Nos intervalos, uma voz fanhosa lembrava que naquela noite haveria “função”.

Ora, um dos números que mais fazia sucesso no programa era a partilha do boi. Previamente informado a respeito dos tipos mais populares da terra, o palhaço atravessava o picadeiro arrastando pelo cabresto um boizinho empalhado e começava a repartir o boi com o povo. O número era lítero-musical, e o menestrel gemia:

- Vou repartir um boi / para os amigos meus
vou repartir a mão / pro Seu Chico Romão
vou repartir o pé / pro Seu Chico Tomé
e o chã-de-dentro / é do compadre Zé do Bento
e o chã-de-fora / é do compadre Zé da Hora
e o corredor / é do Seu Doutor
pra repartir / com o Seu Promotor
e a rabada / é da rapaziada
pra repartir / com a Sá Chica Pelada
e o chifre…

E, após longa pausa, cumulada de expectativas:

- E o chifre é do tocador!!!

E o palhaço sacava o berrante da cintura e zurrava para delírio do populacho.

* * *

Bons tempos! Tempos de infância e de inocência! Agora, os bois invadem o noticiário do mundo do modo mais imprevisto. Como foi que o senador recebeu a propina? Com o dinheiro do boi? Pra que foi que o senador recebeu o cheque de dois milhões? Pra comprar a bezerra… Que fazer para lavar o dinheiro de procedência impublicável? Comprar vaca premiada…

Lá no pasto, em sua bovina solidão, o Boi Moimeichego funga para o céu e berra um berro soturno, traduzindo as mais profundas mágoas populares. Esse boi é nosso “eu”, não foi à toa que Guimarães Rosa lhe deu quatro nomes do “eu”: moi, do francês / me, do inglês / ich, do alemão / ego, do latim.

Sobreviver, como dói! Os velhos palhaços já se foram. Os circos morreram de tristeza. Agora, é a vez de o povo bancar o palhaço. Enquanto isso, parece que a vaca foi pro brejo…

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Carlos Scheid -
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