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XXVII – A caminhada continua

Publicado por Bill Braga em Memórias
data: 06/09/2013

Sentia ainda aquela afasia, aquele distanciamento do mundo real, onde tudo parecia sem sentido e sem profundidade. Sentia a falta do amor, que eu projetava apenas em duas mulheres, sem saber que ele está espalhado pelo mundo, nos seres imagináveis e inimagináveis. Mas um dia tomei a decisão. Sim, dar fim àquela existência inútil de um ser que sobrevivia vendo televisão de costas, não lia, não falava, não interagia. Decidi este dia, enquanto sentava na janela do meu quarto, olhando no escuro da imensidão para o chão do prédio.

Suicidar-se, dar fim à própria vida é um ato que exige muita coragem. Pensava até onde teria consciência, pensava em meus pedaços espalhados pelo chão, minha família desolada. Mas era a saída que eu conseguia enxergar naquele momento. Queria descolar-me deste corpo, parar de sentir as dores da alma e do coração. No computador, deixei recados para cada um dos meus familiares, para acalentar seus corações diante do ato que se aproximava. Eu não sentia medo, pois para mim a vida já chegara ao fim, meu amigo. Sentia compaixão, pelos que ficariam nesta vida, carregando o trauma de um suicídio de um jovem promissor nas costas. Fitava o chão e via o infinito, imaginava o que ocorreria se minha alma descolaria do corpo, se eu iria para algum limbo, ou direto para o Inferno… Existiria inferno pior do que a não-vida que levava?

Num lampejo quase alquímico meu coração despertou antes de me atirar daquela janela. O amor despertou em meu Ser, através da figura de um menino. Meu irmão mais novo, ele não merecia viver com essa cruz. E como eu o amava, não queria abandoná-lo, ainda mais de uma forma tão violenta.

E assim, fitei uma última vez o chão do prédio da janela lateral, e voltei para dentro do meu quarto, meu universo particular. Se me perguntares hoje: porque você está vivo?, te responderia, pelo amor fraterno que me salvou naquele dia. Se os laços com o mundo, amigos, família e tudo mais estavam desfeitos, houve uma fina mas profunda teia de amor que me impediu de desfazer-me do milagre da vida. Se agradeço? E como! Sou eternamente grato por poder continuar minha jornada, minhas vivências.

Acho que foi neste ponto que deu uma virada na depressão. Passei a não mais aceitá-la como dominante e fui retomando meu papel como ser ativo. O processo foi lento, incluiu tentativas vãs de reconciliação com as minhas musas, mas aos poucos meu coração foi se abrindo, e fui deixando o passado no seu lugar, projetando novos caminhos para o futuro. Quais caminhos?

Não tinha ideia meu caro, estava sem emprego, pois não me aceitavam de volta na UFMG, onde trabalhei por quatro anos como Assistente de Pesquisa, tinha um Mestrado em andamento por terminar, sem saber como, tinha me afastado dos amigos, sem convívio social nenhum. Era como se minha vida fosse um computador reformatado. Agora era a hora de realimentá-la de dados e projetos. Medo, nenhum. Depois que encarei a morte frente a frente, nada mais eu temia. Esse era meu grande trunfo na batalha pelo recomeço.

Parece fácil, lendo essas palavras, mas foi duro. Não sei como saí da depressão, mas sei que foi quando parti para a ação. Arrumei um novo emprego, fui ser vendedor de livros, ou algo mais nobre, livreiro, e aos poucos a vida passou a fluir novamente.

Mas cuidado companheiro, os homens de branco ainda estão por aí, e nosso amor e alegria ainda estão em risco permanente. Digo isso porque acabo de retomar essas memórias, dois dias após uma nova internação de quase um mês. Chegaremos até o caminho que me levou a ela, mas deixo um aviso. Nós, os “loucos”, “malucos beleza”, argonautas, somos uma minoria que tende a ser mediocrizada pela hipocrisia científico-racional. Mas a caminhada continua e a batalha de todo o dia é constante.

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Bill Braga -
4 Comentários
  1. Beatriz

    Meu querido, se foi o fio de amor fraterno que te prendeu a nós, acredite que ele é bem mais forte que você imagina. Não estamos aqui por acaso. Cada um de nós tem o seu papel e a sua missão. Para evoluirmos espiritualmente necessitamos cumprir cada uma das nossas atribuições nessa vida e passar com sabedoria e serenidade pelas provas que nos foram atribuídas. Temos na mamãe, sua avó, exemplos de superação que não podem ser descartados. Você ainda tem muito o que fazer e ensinar para nós que te amamos. VIDA!
    Te respeito, te admiro,… sou sua fã!

    • bill braga

      Oi Dinda…

      Hoje tenho essa clareza de que temos que evoluir a partir dos desafios que nos são impostos… Nada é por acaso, e hoje dou um valor imenso a vida… Quem sou eu para ensinar, tenho muito é a aprender com vocês!!

  2. Ufa! Nós é que temos que agradecer: ao Leo, por despertar em você esse amor salvador; a você por reconhecê-lo; e ao tempo, que, sem alterar o seu ritmo, tem cumprido suavemente o seu papel. Tem muito amor ainda para ser reconhecido e vivido.

    • bill braga

      Com certeza pai! Não tenho dúvidas de que ainda há muito amor a ser vivido, alguns já reconhecidos, outros por vir… Afinal o Amor é a força maior do Universo..

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