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XXVI – A loucura é a sanidade travestida de felicidade e prazer

Publicado por Bill Braga em Memórias, Psicologia, Psiquiatria, Xamanismo
data: 19/12/2012

A rejeição dos meus supostos amores, Fernanda e Mel, me jogou numa ilha de isolamento. Aos poucos, nem as saídas mais me satisfaziam. Via com monotonia aquelas conversas fúteis e banais que meus amigos e os homens e mulheres comuns levavam. Afinal de contas, de que valia a vida sem o amor? Nada. Um vazio imenso se adentrava, naquela época, no meu ser. Era o vazio do amar, a necessidade constante do amor como via de mão dupla. O foco do meu desejo estava em duas mulheres que não mais queriam o mínimo contato comigo. Meus laços com o mundo se desfaziam na medida exata da rejeição que sofria… E cada vez mais tediosa a vida ia parecendo aos meus olhos.

A fuga inicial se dava pela veia poética que desenvolvia. Através da poesia, quando saía dava aquela piropada, cantava as mulheres anônimas, paquerava indistintamente buscando fugir de mim mesmo, da imensa ausência que sentia das mulheres que desejava. Desejava quem eu ferira, aquelas que eu marcara profundamente, em meio às raias da loucura? Ferira profundamente a pobre senhorita, de nome doce. E Fernanda, pobre coitada, não queria carregar lembrança nenhuma da clínica, e eu representava um trauma que ela não conseguia carregar… E apesar de tudo isto eu mantinha meu desejo direcionado a elas, numa insistência que abria um imenso vazio, preenchido apenas pela necessidade da poesia.

Seria a poesia o substituto do amor, conseguiria ela me satisfazer no plano da imaginação os desejos frustrados na realidade? Na prática, os poemas escritos em guardanapos, não rendiam beijos, mas olhares admirados, como quem nunca havia visto um poeta de carne e osso. Era eu um poeta? Havia a loucura me transformado em poeta? Saborosa loucura! Mas entre a imaginação e o palavrear, há o espaço-tempo real. E o verbo pluriamar, tão bem conjugado por Drummond, haveria de ser conjugado na vivência, tão bem quanto na imaginação.

Eu tinha uma fascinação por olhos. Os olhos, dizia Fernando Pessoa, são as janelas da alma. Os olhos melancólicos me atraíam ainda mais. Era como se pudesse captar a tristeza, a melancolia na alma por detrás daqueles olhos e a transubstanciasse em palavras. E nisso os olhos cambiavam, me olhavam com admiração, como quem diz: como adivinhastes minhas dores mais profundas? Era apenas a poesia, regada pelo restinho de loucura que ainda persistia não domada pelos remédios….

Pobre poesia, herdeira do fardo de uma vida! Pobres musas da poiésis, meu caro. Pois elas não aguentaram… Veio o outro lado da moeda, segundo o homem de branco, ou psiquiatra, o outro lado do surto. O lado negro, a depressão, a angústia, a afasia. Aos poucos fui me soltando de todos os laços que me prendiam a este mundo. O amor já não o tinha. A família, não mais representava abrigo, era indiferente. E entrei nas profundezas do emsimesmamento. Sim, não há palavra melhor, o processo de imersão dentro de si, sem comunicação com o mundo externo, fechamento total à vida, pensamentos turvados. Sem alegria, sem fala. Sem vida. Fui me tornando um ser quase vegetal, me prendendo à minha cama, e à televisão, que assistia, de costas para ela.

E a vida passava, parecendo não passar, lentamente… Seria a depressão uma causa natural pós crise, ou seria ela causada pelos remédios que me haviam dado, o excesso de medicamentos? Cabe a pergunta sempre… Nunca há uma depressão natural. Depressão é desequilíbrio da alma. É desequilíbrio do homem internamente com seu meio ambiente, é falta de paz interior… Nada disso é natural, mas nada é mais natural nestes dias perigosos de se viver, tudo é artificial meu amigo. Não sei se devo lhe contar meus pensamentos mais profundos deste período, eles são carregados, podem lhe fazer mal. Mas por outro lado, eu renasci. Saí de lá, e cá estou. Mas o fato é que está tudo na mente. E mentem aqueles que dizem que não. Homens de branco, racionalistas, donos de uma falsa verdade, pensam pensar. Mas se limitam. As curas para estes males, pelo qual passei, retirei de dentro de mim, não vieram dos pharmakóns.

Um dia ainda vão entender melhor o que digo. Aquela inquietação aquela melancolia que sempre sentiram, o mal-estar da civilização, têm cura. Mas o caminho é longo e tortuoso, nem todos estão dispostos a enlouquecer para se tornarem sãos. Sim, é isso. A loucura é a sanidade travestida de felicidade e prazer. Por isso causa medo. Temos medos de travestis, temos medo de sermos felizes plenamente e de realizarmos tudo que nos dá prazer. Sentimos culpa. Eu sentia culpa. Freud explica. Marcuse ajuda ainda mais. O homem é multidimensional, e nos prendemos na nossa unidimensionalidade racionalista. Malditos sejam os iluministas que nos deixaram de herança esta tradição! Mas voltemos aos fatos, esqueço-me sempre deles.

Em meio à culpa que sentia, e ao vazio deixado pelos amores, imergi numa depressão profunda. Não falava, quase não comia, não socializava. Não sorria. Não tocava violão. Era o império do não. Tudo ao contrário. Mas os pensamentos mais fatalistas me invadiam. Precisava de uma solução para aquela dor na alma profunda que sentia. A saída ía se tornando mais clara…

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Bill Braga -
2 Comentários
  1. josé nilton

    acabei de ler esse artigo sobre a loucura, e me fiz a seguinte pergunta, será que ele é esquizofrênico? se for graças a deus por isso porque tenho em mente aquela velha frase do Raul seixas ( A arte de ser “louco” é jamais cometer a loucura de um sujeito “normal” )

    • josé nilton

      RETIFICANDO A FRASE…
      A ARTE DE SER “LOUCO” É JAMAIS COMETER A LOUCURA DE SER UM SUJEITO “NORMAL”

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