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XXXII – Caminho para São Thomé

Publicado por Bill Braga em Memórias, Psicologia, Psiquiatria, Xamanismo
data: 07/08/2014

Saí da clínica Pinel, em Outubro de 2012, e lá vinha pela frente mais uma reconstrução. Fiquei um tempo afastado do trabalho. O INSS me considerava não apto para o trabalho. Aquilo para mim era uma bênção! Tinha tempo livre, podia fazer o que bem quisesse. O meu ímpeto, meu âmago me levava a investir no espírito, buscar minha essência, mergulhar no meu âmago. Quão estranho não deveria soar tudo isso para aqueles que estavam ao meu lado. Eu havia me graduado em História, fui desenvolvendo meu intelecto na academia, depois me transmutei em comerciante, tudo muito vinculado ao mundano. Mas as experiências das iluminações haviam acendido em mim a vontade de explorar as profundezas da minha alma, de me abrir novamente ao universo, buscar Deus!

Era um novo Eu que buscava surgir. Talvez fosse na verdade o meu Eu verdadeiro, minha essência divina que buscava encontrar. Mas nem sempre sabemos aproveitar o fato de ter todo o tempo livre. Às vezes a mente nos trai e caímos em futilidades, nos vemos vítimas do nosso ego em verdade e podemos cair numa depressão, por excesso de tempo livre. Olhem que contradição, o tempo, que sempre reclamamos não ter, quando o temos somos vítimas de nós mesmos e caímos. Dizem os homens de branco que isso é uma outra fase do transtorno bipolar.

Após uma fase de excitação extrema, a que eu chamo iluminação, viria o lado oposto, uma fase de marasmo, desânimo e depressão. A solução para os homens de branco: os coquetéis de medicamentos. Aiai! Sempre as panacéias químicas externas para socorrer-nos. Está errado, nenhuma resposta externa pode nos ajudar! O trabalho verdadeiro precisa ser interno e silencioso. Basta abrir o coração. Isso eu ainda não sabia, mas iria aprender. Do meu jeito buscava em coisas externas apoio e aliados para não dar-me por vencido. Houve mesmo um médico que me disse que essa sensação de angústia e solidão que vem seria fruto duma saudade dos tempos de “mania”. Poxa como não sentir saudades de se sentir integrado com todo o universo, de ser altamente criativo, de se encantar com a beleza da vida, de me emocionar com uma flor? Então assumo, realmente sentia uma saudade infindável das minhas iluminações e buscaria na espiritualidade alguma forma de me encontrar.

Natália continuou do meu lado com apoio incondicional. Um amor realmente lindo, talvez me faltou percepção para valorizar na época. Eu estava com ela, mas também não estava, estava também com Daniela, aquele ser misterioso, místico, que me cativava. Parece que Natália sabia disso, e lutava por mim. Às vezes via eu conversando com Daniela pelo computador, e esperava o fim da conversa. Era como se meu coração estivesse dividido em dois, de um lado a pureza e estabilidade de Natália, de outro o mistério e o imprevisível de Daniela. Ambas me despertavam um calor sexual, eu queria na verdade as duas num só ser. Já provara isso, sabia que as almas, os espíritos podem se fundir. Mas eu parecia me impor uma escolha. Nessa sociedade o amor tem de ser direcionado, assim nos ensinam. Amar duas pessoas é traição, é culpa. Terríveis asneiras que nos aprisionam. O Amor é universal, no momento que se torna posse ele morre em sua essência. Mas ainda estamos muito longe de compreender o amor, porque ele não é compreensível. A tentativa de compreendê-lo já é um erro. Ele deve ser sentido, assim sim, é verdadeiro e livre.

Depois de certo tempo eu voltei a trabalhar, não tive dificuldades de retomar o serviço. Voltei diferente, acho que todos perceberam. Mas não me importava o que pensavam. Na realidade muitas pessoas ficam preocupadas com julgamentos dos outros, eu não. Se me olhavam como um louco, que foi internado, ou se como o colega modelo do trabalho, não me importava. Até porque aprendi que a loucura tem o poder de nos deixar bem perto das verdadeiras verdades. Renasci novamente no trabalho, retomei as atividades, contatos, relacionamentos. Mas por mais que eu não me importasse com os outros, é sempre difícil retomar, porque no tempo em que estive enjaulado a vida prosseguiu, então as pessoas se acostumaram com o trabalho sem minha presença. A empresa se transformou também. E eu tinha que buscar novamente o fio da meada, retomar a embocadura, reconquistar as confianças, alcançar os passos que já tinham sido dados. Mas encarei novamente de frente o desafio e fui seguindo o roteiro.

Enquanto isso minhas conversas com Daniela iam se tornando mais constantes e mais intensas. Ela dizia ver em meus olhos uma força, como ninguém nunca havia me dito. Parecia que ela me considerava um cara especial, como também eu nunca pensei. Ela carinhosamente me chama de “meu Che”. Conversamos sobre a energia da Kundalini, aquela mesma energia que eu senti quebrando minha coluna e que me preencheu e me abriu de forma tão intensa. Um dia ela mencionou algo que eu nunca tinha ouvido falar. Uma tal bebida indígena, ayahuasca. Fiquei magnetizado por esse assunto. Ela disse que essa bebida podia me ajudar no caminho espiritual. Ajudaria a me libertar de tudo que me prendia, e alcançar um estado de iluminação. Tudo bem místico e misterioso, mas fiquei com aquilo na cabeça. Quando tivesse a oportunidade, iria experimentar essa bebida e experienciar aonde ela podia me levar.

Como sempre eu estava bem. E sempre achei que não precisava de remédios. Essa foi uma intuição sempre. Aos poucos fui confiando que poderia largá-los. Ardilosamente fingia tomá-los para tranqüilizar a minha família enquanto ia diminuindo as doses. Tinha uma crença, que só poderia vir do espírito, de que aqueles remédios não eram necessários, que eu poderia atingir o equilíbrio sem eles. E também havia lido que, para tomar a ayahuasca, eu não poderia estar sob efeitos de remédios. E como acreditava que alguma hora em breve eu teria a oportunidade, larguei-os. Como se do dia pra noite eu mudasse porque me libertei dos remédios. Não, não funciona assim.

Toda minha ânsia de libertação encontrava ressonância nas conversas com Daniela. Ela me fortalecia, apoiando e incentivando minhas decisões. Tratava-se para mim agora de uma revolução total. O foco tinha mudado, eu precisava me despir, me libertar de tudo que eu acreditava ser verdade até então para me redescobrir. Em meio a todas essas conversas decidi ir me encontrar com Daniela. Obviamente não era uma decisão fácil, pois todos ao meu redor ficariam em estado de alerta se eu revelasse a minha intenção. Primeiro por causa de Natália, como abandonar aquela doce garota, que ficou a meu lado todo o tempo, para ir ao encontro de outra, desconhecida, sombria, misteriosa. Além disso pairavam sobre mim as sombras da desconfiança. O medo alheio de outra crise ocorrer. Isso é como um fantasma que acho que me perseguirá para sempre. A qualquer momento em que pareço estar bem demais surge a desconfiança. Já não me importo mais, cada um que cure suas neuroses.

Combinamos de nos encontrar no dia 21 de dezembro de 2012. Passaríamos o fim de semana juntos. Apesar dela ser casada, isso nunca me preocupou, tamanho magnetismo ela me causava. Pouco me preocupava também como ela faria para ele não desconfiar. Alguma explicação resolveria esse problema. Eu combinei com ela que estaria lá. Decidi que simplesmente iria, sem dar satisfações a ninguém. Pegaria meu carro, e cairia na estrada. Algo como uma fuga, sem mais satisfações. Afinal de contas eu deveria ter direito a essa liberdade, porque todos ficam sempre tentando controlar, sob o pretexto de cuidar. Os outros! Estava decidido. Eu havia escolhido viver a aventura chamada Daniela, deixando o meu amor por Natalia de lado. A vida é assim, feita de escolhas, já que não podia ter as duas, decidi encontrar com aquela que pareceu uma musa, uma alma gêmea, que tanto despertou em mim.

E a data não podia ser mais especial. Esse dia, o 21 de dezembro de 2012, era uma data mística em que o calendário maia previa o fim do mundo. Na realidade se tratava mais de uma mudança energética na Terra, com o fim da Era de Peixes, e o inicio da Era de Aquarius. Era um momento especial, em que muitas transformações passariam a acontecer no planeta. E o local escolhido foi mais que especial, São Thomé das Letras, no Sul de Minas Gerais.

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Bill Braga -
2 Comentários
  1. Nicoly

    Boa noite!
    Gostaria de tomar ayahuasca em São Thomé. Estarei na cidade dia 01/03. Você pode me passar mais informações?
    Já tomei o chá um vez, e a experiência foi incrível.
    Aguardo retorno urgente!

  2. bill

    Olá Nicole,

    Lá em São Thomé sempre têm eventos com ayahuasca. Procure a Pousada Nhá Chica e converse com seus proprietários, Diego e Karol, eles são filiados ao Santo Daime e também promovem vivências na linha do xamanismo.

    um abraço

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