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XX – Uma Bomba Relógio Ambulante

Publicado por Bill Braga em Memórias, Psicologia, Psiquiatria, Xamanismo
data: 12/04/2012

Aqui, na Pinel, os dias são quase sempre iguais, apesar de todas loucuras possíveis e impossíveis estarem reunidas em um mesmo lugar. Normalmente acordo em meu colchão no chão, para evitar as terríveis dores de coluna. Olho para cima e ao lado está: ou a melancólica Valéria, ou a carinhosa Sandra, companheiras que se revezam em velar meus sonhos noturnos. Rapidamente colocamos meu colchão na cama, antes que o Sr. Lucas abra a porta para investigar o dormitório. Sinceramente, não sei qual o problema que ele enxerga no colchão no chão. Será que ele pensa que sou louco de abrir mão do conforto? Mesmo encarcerado, o conforto deve falar mais alto! Na sequência uma garrafa de iogurte e uma barra de chocolate, uma bem específica, somente ela serve, que minha mãe trás. Não comeria daquela comida ali, sabe-se lá que tipo de phármakons podem estar escondidos nelas. Deixo o café-da-manhã da clínica para meus ilustres convidados e amigos de cárcere. Todo dia alguém come aquele café-da-manhã suspeito, para me provar e tentar me convencer a comê-lo. Prefiro continuar sem comer nada que seja produzido ali dentro.

Alimentação para o corpo, alimentação para a alma. Aqui dentro não tenho meus livros, quase não posso viver o amor. O amor, causa e cura de todos estes males. Ousei amar demais, ainda sinto a pulsão quando penso na atraente Sandra, pernambucana-carioca, que conheci no Rio. Ou em Tatiana, que quase não mais sussurra palavras ao meu ouvido. Em minha namorada, quanto dói pensar nela, eu aqui dentro, ela já não vem mais. Mas já devo viver outros amores, outras ilusões de felicidade.

Logo depois de deixá-la em casa, naquele fatídico carnaval, continuei desorientado. Os sentimentos que fervilhavam, paradoxos latentes, raiva, tristeza, mágoa, explosão. Podia voltar em casa, resolver tudo na mão, na violência extirpar tudo aquilo que esvaía em lágrimas raivosas. Mas não. Não era o caminho. Fui a um jogo de basquete, reencontrei velhos conhecidos, bebi várias cervejas enquanto acompanhava o jogo em ritmo alucinante. Um conforto temporário eu teria ali.

Mal saía do ginásio, e meu telefone não parava de tocar. Minha mãe já soubera da briga, pedia para eu voltar para casa, para conversarmos, tudo ficaria bem. Eu não volto, não enquanto este idiota estiver aí, eu bradava nas alturas. E depois chorava copiosamente. Dirigi o carro, sem rumo, parando de buteco em buteco para mais uma cerveja e mais um cigarro. Eram os combustíveis para aplacar minha mágoa.

A noite caíra, eu não mais atenderia o celular. Nem minha mãe, nem minha namorada. Aquela noite seria somente eu…. e meus demônios interiores. Veio uma idéia. Subir até a Praça do Papa. Contemplar a cidade do alto, regado a cervejas e cigarros. Respirar um pouco de ar puro, se ainda era possível encontrá-lo naquela urbs. Subi a avenida acelerando, a velocidade parecia ser outra forma de colocar para fora todos os paradoxos internos. Velocidade, cerveja, cigarro, velocidade de pensamento, sentimento. Intenso. A praça estava linda, a noite deslumbrante, a lua pairava soberana sobre a metrópole. Mas não aplacou minhas mágoas, meu drama. Não consegui ficar ali, na contemplação. Precisava de mais velocidade mais intensidade.

Descia rapidamente a avenida, quando parei. Uma daquelas moças simpáticas de saia curta, decotes chamativos, parada, encostada em um poste me chamou a atenção. Era isso, eu precisava de sexo! A única via de explodir sem causar maiores estragos. E eu precisava explodir. Era uma bomba ambulante. Pulsante. Rapidamente a moça entrou no meu carro e fomos para um lugar mais tranqüilo.

Após alguns toques, e estímulos, a solução do descarrego fora encontrada. Animalidade à flor-da-pele. Os nervos e as neuroses se esvaíam através do ato. Uma catarse. E o telefone tocava sem parar. Já não me preocupava com ele, preocupava em descarregar o máximo do peso que carregava em mim naquele ato. E assim foi feito. Depois conversamos muito, cada um sobre suas mágoas, e ela tirou um saquinho de pó. Queria me vender. Não queria pagar. Após mais muitas conversas, acabou me dando uma boa dose de pó. Como era simpática aquela moça, mal sabia ela o quanto me ajudara. Logo que ela desceu já cheirei uma boa carreira. Pó. Cocaína. Alegria e energia artificiais. Enquanto decidia se voltava ou não para casa, cheirei todo o resto. Esperava sentir-me mais leve, esperava mais energia, esperava, esperava, esperava…

Cheguei em casa, combinei com minha namorada, viajaríamos no outro dia pela manhã. Passei a noite em claro, arrumando minhas coisas, pensando no que faria quando voltasse de viagem, onde moraria, que rumo tomaria… De repente já eram seis da manhã, era hora de partir. Nada de sentimentos de culpa, nada de cansaço, nada de tristeza. Na animalidade do coito, teriam se resolvido meus dilemas, e a bomba não estouraria. Por enquanto…

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Bill Braga -
2 Comentários
  1. Caraca! que franqueza!

  2. Não existe uma origem única. Os gatilhos disparados somam-se para um resultado que pode não ser tão bom. Parabéns pela coragem e pelo processo de reorganização interna. Você é o cara!

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