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XLII – Desafiando a Matrix

Publicado por Bill Braga em Memórias, Psicologia, Psiquiatria, Xamanismo
data: 09/10/2017

desafiando a matrix

O mundo que me aguardava eu esperava que fosse receptivo. Afinal de contas eu estava em um estado de consciência expandida, pleno de amor, e não havia com o que me preocupar. Era apenas dar tempo ao tempo e todos entenderiam a mágica a que aquela experiência havia me transportado, e por consequência todos entenderiam a importância da ayahuasca na minha vida. Ledo engano. As pessoas no mundo ordinário não estão preparadas para lidar com pessoas em estado de consciência expandida. Quantos Budas, quantos Jesus já não se perderam em meio à intolerância daqueles ligados ao status quo, àqueles que dormem na Matrix, e quando alguém sai dela… A solução é sempre psiquiatrizante, atribuindo uma doença mental, e os grilhões pós-modernos são os remédios, que atuam como neuro-químico-domadores, trazendo aqueles que poderiam ser gênios de volta para a mediocridade do mundo da Matrix.

Mas eu estava disposto a viver fora da Matrix, e por isso precisava de algumas estórias para enganar minha família, enquanto eles se habituavam com a ideia do modo como eu iria viver. Estava disposto a ser da tribo xamânica, e a levar até o fim essa decisão. Primeiro tinha que reforçar a história de que tinha ido para um retiro de meditação. E foi o que fiz. Disse que havia sido ótimo, que tinha tido uma cerimônia que durou a noite toda, e ficamos em meditação. Não era de todo uma mentira, mas eu omitia que havia tomado o chá novamente. E cheguei animado.

Desci na Rodoviária de Belo Horizonte e senti que precisava tomar um banho e trocar de roupas, senão ia correr o risco das pessoas acharem que eu estava louco de novo. E no banheiro da própria Rodoviária tomei um banho, conheci um rapaz e conversamos um pouco. Saímos e fomos dar uma volta na praça em frente à Rodoviária, ele tinha que esperar um ônibus. Havia muita coisa acontecendo ali, mas me lembro de um cara, numa barraca, vendendo uma água cheia de ervas. Na hora imaginei que aquilo fosse a erva do Santo Daime e comprei uma garrafa. Parecia estar tudo conectado. Dentro e fora em sintonia, o mundo trazia estímulos que se conectavam a minhas memórias e pensamentos, e tudo fazia um sentido maior. Em tudo havia uma transcendência imanente. Junto na minha mochila estavam um pacote de tabaco, para ritual do cachimbo sagrado e uns CDs que comprei em São Sebastião do Paraíso. Além do livro sobre a História da Ayahuasca.

Em casa não consegui identificar nenhum olhar condenatório, parecia que a história da meditação estava realmente colando, e eu estava me sentindo super bem. Eu possivelmente tinha que retornar ao trabalho, não me lembro se estava afastado ainda pelo INSS ou se tinha que voltar. Mas isso não importa. Eu estava preparado para seguir um novo caminho, dentro do xamanismo, e desenvolver minha mediunidade e, quem sabe, tornar-me um curador holístico. Um novo sonho que alimentava minha caminhada, mas agora sob os efeitos da ayahuasca, eu me sentia fortificado e pronto para me reerguer na vida. Mandava para longe os tempos deprimidos e vislumbrava um outro, novo e belo.

Eu estava muito empolgado com os novos amigos que fiz, e comecei a adicioná-los no facebook. Aí foi que cometi um erro mortal. Meus amigos novos, xamânicos, que nada sabiam da minha história pregressa me marcaram em algumas fotos do ritual no facebook. Meu pai viu as fotos e descobriu que se tratava de um ritual com ayahuasca, e contou para minha mãe. Foi como se o mundo caísse na minha cabeça. De repente todos os planos que eu havia feito foram cortados com o acesso que caiu sobre mim. Me condenavam pesadamente por ter tomado o chá, que era um absurdo, que isso, que aquilo! As ameaças eram terríveis de internação e tudo o mais. Fizeram um terrorismo com os padrinhos que comandavam o instituto, de que iam colocar a polícia atrás deles e que eles não poderiam ter me dado ayahuasca.

Eu fiquei em contato com eles, pedindo desculpas pela situação, explicando que não queria que nada daquilo acontecesse e que queria continuar frequentando os rituais… que eles tinham que ajudar, que aquela mulher que dizia ser minha mãe não me entendia…

Nos contatos com os amigos xamânicos descobri que ia ter outro trabalho no Instituto da Milena, em Franca, São Paulo. Resolvi que iria até lá. Isso causou uma reação drástica de minha mãe. Ela disse que era um absurdo eu querer ir para lá por causa de uma mulher e para tomar o Daime. Não deixaria eu ir. Eu disse que ela não tinha que deixar, que não podia me impedir. Discutimos. As coisas ficaram realmente quentes, e eu não conseguia entender porque eles, os ditos normais, queriam sabotar toda a onda que eu estava tendo, a conexão xamânica que a ayahuasca me proporcionava. Era um confronto de realidades, mais do que qualquer coisa. É muito cômodo se colocar em alguém uma etiqueta de bipolar, e taxar de crise de mania qualquer manifestação de liberdade. Afinal de contas era só o amor se manifestando através de mim, e esse amor me guiava para Milena, e Franca seria a redenção, me declararia para ela, e tudo faria sentido e as coisas dariam certo. Mas como explicar tudo isso, para alguém que já acha que você está fora de si? Tinha de encontrar um caminho…

Mais uma vez as coisas saiam dos trilhos e uma experiência única, oceânica, como Freud disse, se perdia nas teias de um diagnóstico médico. Misturava-se meu misticismo, minha transcendência, com um comportamento que a sociedade não pode aceitar, por estar fora dos padrões, fora da Matrix. Novamente eu seria julgado por ser eu mesmo, sem filtros e nem pudores, e a solução encontrada novamente foi a mais cruel: encarceramento! Novamente seria enjaulado, enfiado numa clínica, distante da realidade, sedado com medicações cavalares. A solução do mundo dos ditos sãos é essa, isolar, isolar até que todos os laços sejam cortados, e você aceite que uma vida medíocre é aquela que você deve ter, seja por medo de experienciar o algo a mais, seja por simplesmente desistir de ser quem é.

Mas eu estava determinado, e não seria essa internação nem nada a mais que me abalaria, já que havia experimentado o gosto do infinito, e não mais me contentaria com menos. Ayahuasca seria minha salvação. Xamanismo. Daniela. Tudo passava pela minha cabeça. Sair de casa, fugir para o Céu do Mapiá, deixar o Grande Espírito me guiar. Qualquer caminho era melhor que aquele. Parece que ali já estavam marcadas as cartas, restava-me saber se teria força e coragem para sustentar minha posição fora do sistema.

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