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XIII – Dissociações Conexas

Publicado por Bill Braga em Memórias, Psicologia, Psiquiatria, Xamanismo
data: 02/02/2012

Acordei novamente na Pinel, esta clínica que tem se transformado em minha morada. Não que aqui eu tenha aquele sentimento de lar, aquele acolhimento… Não que minha cama, com este estrado estragado, que estraga minha coluna diariamente seja um repouso. Não é o lugar, são as pessoas. Estes autistas, narcóticos, maníacos e estas depressivas, suicidas, me fazem me sentir em casa. Me dão o acolhimento que ameniza o encarceramento. Sim, porque clínicas são eufemismos de prisões, por mais que se diga o contrário.

Acordei na Pinel, e busco as lembranças fugidias de quando acordei, após meu sono de volta em BH. Se não me engano foi o nobre poeta Waly Sailormoon quem disse que a memória é uma ilha de edição. A minha foi editada, não fui eu quem a editei. Não há como dosar até que ponto os remédios, até que ponto minha própria psique me “protegeu” de minhas memórias, mas o fato é que elas se esvaem. Escorregam do meu pensamento, mais esguias do que serpentes. Flashes. Desconexos. Intensos. Imagens e avalanches de sentimentos. É assim que estas memórias, mais que desconexas, se projetam quando eu teimo em buscá-las. Edito-as sem a menor pretensão objetiva, pois é o subjetivo que se expressa neste processo de edição e supressão.

Quando acordei em BH, no meu quarto, após o regresso da viagem de Juiz de Fora, nada havia passado. Doce ilusão de minha mãe. Na realidade, ao nos depararmos com um problema inesperado, sempre ansiamos por que ele passe, sem danos, sem causar estragos. Mas neste caso não passou, e o acordar somente me trouxe novamente ao conflituoso universo em que vivia. Minha mãe ter ficado toda a noite sentada à porta do meu quarto, não me ajudou, tanto quanto ela imaginava. Nem mesmo o real acolhimento do lar, nem o aconchego do meu mundo, meu quarto, puderam fazer desaparecer as vozes daqueles que me acompanhavam, ou acalmar minha mente e meu coração. Ao acordar, voltava a buscar os meus: meu pai, Marquinhos, e, essencialmente Tatiana. Porque teimavam em se esconder de mim, e apenas sussurrar doces e pesadas palavras em meus ouvidos? Eu sabia que eles ainda estavam por perto… E dentro do jogo que jogávamos, eu e os três, eu deveria seguir as pistas para encontrá-los. Haviam outras variáveis nesta equação, além de minha mãe, do Léo, havia uma namorada. Não só ela. Junto com ela vinham várias pessoas, vários momentos, vários sentimentos, várias emoções. Talvez ela, mais do que Tatiana, pudesse acalmar minha profusão de sentidos.

Mas ainda não a encontraria tão logo. Por mais que desejasse. Desejava o mundo, por mais imundo que o sentisse. E meu próprio lar me privava do mundo. Entre um banho e outro, um cigarro e outro, um litro d´agua e outro, precisava sair. Precisava encontrá-los, mas me foi privado este direito. Quando fugimos à lógica racional-medíocre, tendem a nos considerar um perigo a nós mesmos e à sociedade… Qualquer semelhança com a caracterização de criminosos não é mera coincidência. Criminosos do pensamento, da mente. Assim somos eu e meus amigos da Pinel.

Chegou um momento que nem os banhos, nem os cigarros aplacavam meu sofrimento. Sofria internamente, não queria mais jogar aquele jogo, esperava apenas o (re)encontro. Aquelas vozes não jogavam mais do meu lado, nem elas nem aqueles que as orquestravam. Elas inquietavam meu ser, torturavam meu viver. Deitava, mas não conseguia ficar. Me levantava. Precisava sair, precisava me dissolver no mundo, talvez assim tudo cessasse. Não agüentava mais.

E sinto agora o que senti quando estava deitado em minha cama, e ela (re)apareceu…Agora não era mais uma miragem, nem mesmo uma projeção de meu pensamento/sentimento. Não era Tatiana. Era a doce donzela que me proporcionara momentos únicos de amor, até minha viagem. Ela não merecia meus pensamentos, minhas pulsões… Eu ansiava por este encontro, e agora que ele se materializava, sua simples imagem me perturbava ainda mais do que aquelas vozes que tanto me atordoavam.

Não que a culpa fosse dela, dona da imagem que me tirou do centro de gravidade que não tinha, mas o encontro foi, mais uma vez bombástico. Talvez o grande drama humano seja entender o amor. Como dizia Vinicius de Moraes, para isto fomos feitos, para amar e ser amados. Mas será que estamos sempre prontos para a intensidade e o caos deste sentimento? Um amigo adentra meu quarto, preciso conversar com ele, por mais que não responda. Apenas me ouvir já é mais do que preciso…

Devo avisar que não há linearidade daqui para frente. Até porque a linearidade de pensamento, filha do positivismo evolucionista, não é adequada à experiência vivida. Não caminhamos em uma linha reta rumo a algum objetivo. Navegamos em meandros, em multi-temporalidades, em que os nexos são construídos não pelas datas, mas pelos sentidos. E assim se fez meu pensamento e assim se constroem minhas memórias. Associações-livres, dissociações conexas.

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Bill Braga -
6 Comentários
  1. Mel

    Se tivesse chamado de “Doce donzela” no dia, seria muuuitoo diferente, Bill!!! hahaha Tá bom.. foi só pra descontrair!!

    Muito bom acompanhar essa história que tem muito de mim, e faz parte do que eu sou hoje. Cresci muito ao tentar entender tudo isso, assim como creio que você também!! E o melhor é saber que hoje está tudo bem! Longe de miragens, vozes e sofrimentos!

    Continue a escrever e explore cada vez mais esse seu talento.. mas que venham ficções.. que saiam da sua criatividade e não da própria pele outra vez!

    Parabéns!!!
    Na espera pelo próximo capítulo!

    • Bill Braga

      Tá certo Mel, talvez chamei só no caos do pensamento… hehe

      Sim, tem muito de você nesta história, que é a minha, então sempre terá muito de você em mim, por tudo isto que, como você disse, fez parte da nosso amadurecimento…

      Obrigado pelas palavras, lembrei da canção.. Cada um de nós compõe a sua própria história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz… de ser feliz…

  2. César G.

    É isso aí Gabriel! A conectividade de um quebra-cabeças e a sua não linearidade. Tenho acompanhado. Bem acompanhado do seu texto. Vai nessa que a hora é sempre essa.

    • Bill Braga

      Valeu grande César…

      Aprendi com você a percorrer as multitemporalidade, o tempo que traça e esburaca, está lembrado?

      Grande abraço, poeta camarada!

  3. Myriam Menin Ferreira

    Querido Biel,com certeza voce sofre de novo ao escrever o que sentiu na ocasião. Naquele caos terrivel não havia nada que pudesse servir de ponto de apoio? Beijo Vó

    • Bill Braga

      Vovó, havia, e sempre haverá…

      O mais nobre de todos os sentimentos, mas não há sofrimento na escrita, a escrita é libertária e catártica!

      beijos!

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