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VIII – A Viagem Interior

Publicado por Bill Braga em Memórias, Psicologia, Psiquiatria, Xamanismo
data: 30/12/2011

Os dias passam, eu converso com o Lucas, doutor não é, porque ainda não fez doutorado, e nada muda. Ele permanece com sua secura, se tomando como senhor da verdade, e nada de deixar eu sair da Clínica Pinel. Mas há um mundo lá fora me esperando, sinto uma necessidade de sair e me dissolver na massa humana que me espera lá fora, no caos urbano. Mas não, ainda querem me trancafiar. Sei que é porque não conseguem suportar as verdades que ouso dizer e as idéias que ouso pensar. Estão além do que estes homens de branco podem compreender. Mas enquanto houver você do outro lado, você, não sei quem, para quem escrevo, daqui do meu lado eu consigo me orientar. Lembrei-me da música. A música foi meu refúgio naquela viagem. Estávamos eu, a música e a escrita naquele ônibus em que parti de Juiz de Fora rumo a BH. Mas não seria uma viagem simples, nem tampouco direta. Dentro de minha cabeça, aquela viagem se expandiu no tempo e no espaço. E maior viagem não era aquela feita no trecho Juiz de Fora – BH, mas aquela por que passou minha mente. Naquele ônibus a bomba que eu me tornara, explodiu de vez.

Junto comigo, embarcaram naquele ônibus meu pai, Marquinhos e Tatiana. Várias pessoas teimam em me dizer que eles não estavam lá. Mas eu tenho certeza. Naquele momento, para mim eles estavam. Eu ouvia claramente eles sussurrarem nos meus ouvidos, me dizendo para me acalmar, ora me chamando, ora me reprimindo. Ela não. Nunca me reprimia, sempre me acolhia com suas tenras palavras. As outras duas vozes pareciam me perseguir. Eram elas que estavam orquestrando aquela viagem, as vozes tinham o controle do ônibus e do motorista. Eu não podia mais beber café, nem fumar um cigarro, minha mente estava a mil por hora. O ônibus arrancou, por sorte consegui ficar sozinho com duas cadeiras para me ajeitar. As vozes começaram a me incomodar, falavam alto demais, queriam me manipular, manipulavam a viagem. Eu sabia que eles não me deixariam sair de Juiz de Fora, eles tentaram desde a venda da passagem me impedir. Mas não conseguiriam. Eu tentava não ouvi-los. Mas eles me perturbavam. Então resolvi caminhar pelo ônibus, tentando encontrar onde os donos das vozes estavam escondidos. Como eram vis, se escondendo para tentar deter-me! Eu havia de encontrá-los. E andava a esta altura pelo ônibus, para lá e para cá, protegido por meus óculos escuros, escutando minha música no PSP, me blindando das pessoas que estavam ali, sempre buscando de onde eles emitiam aquelas vozes.

A viagem assim se foi. Por pouco tempo. Pararam o ônibus na garagem, pediram para todos descer. Eu não queria. Aquilo era mais um teatro armado, para tentarem impedir minha fuga de Juiz de Fora. Se eu descesse, não conseguiria voltar ao ônibus, seria abandonado ali, até que eles me resgatassem. As vozes riam de mim, sentado, empacado na cadeira, ouvindo Zeca Baleiro. Por fim me convenceram a descer, fiquei andando pela garagem, fumando um cigarro atrás do outro. Tenho certeza que voltei ao mesmo ônibus, que não haviam trocado nenhuma peça. Eu conseguira enganá-los, e seguiria minha viagem de volta a BH. E ainda achava que tinha despistado meu pai e aqueles que o acompanhavam, e não paravam de atormentar minha mente. Mas não. Em pouco tempo na estrada, eu senti tudo de novo. Me perseguiam, riam. Mas não me davam liberdade, pediam para eu voltar, me achavam ridículo. Quando queria esconder deles, ia para o banheiro. Lá era o local seguro, onde eu ficava o tempo necessário para me sentir melhor, para parar de ouvir. Não a música, ela que sempre foi um dos refúgios. Eu queria parar de sentir, parar de pensar. Meu cérebro comprimia a caixa craniana, parece que o excesso de idéias e sentimentos iria transbordar. Não estranharia se meu cérebro escorresse pelos ouvidos. Tudo seria melhor do que aquela sensação. Voltava do banheiro mais calmo, menos ofegante. Mas tudo aquilo me cansava, eu não conseguia mais me desacelerar. Slow down your minds. E o ritmo dos meus pensamentos ditava a música, que do Zeca Baleiro pulou para o Pink Floyd e o Led Zepellin. Como dizia a canção do Floyd: “The lunatics were in my head”.

Neste momento descobri a válvula de escape, a única forma de me expressar, de despejar meu turbilhão interno, de transferir o peso da avalanche que caía sobre mim. A escrita. Em meio da viagem, ao som do psicodelismo, liguei o notebook e comecei a escrever. Não só a escrever, mas a escrever e ler, queria que todos soubessem o que eu sabia, que me ajudassem a acabar com aquela farsa de viagem, que me ajudassem a voltar para BH, que estivessem do meu lado. Escrevi, e li, declamei, gritei, gargalhei para as vozes daqueles que me ameaçavam. A catarse se fez completa. Mas isso incomodou a todos do ônibus, que não entendiam, se supreendiam. E o ajudante do motorista começou a querer me reprimir. Pedia para eu parar de gritar, eu não ligava. Ele desafiava meu império sobre mim, queria me impor um comportamento. Eu dizia em alto e bom tom: Foda-se, eu faço o que quiser. E começamos a discutir, e a coisa pode ter esquentado. Não me lembro. Sei que uma das vezes que voltei do banheiro, meu PSP tinha sumido. Outra vez que voltei ele aparecera. Há quem diga que cheguei a BH com a cara inchada. Talvez ele tenha me agredido. Eu não lembro. Não sei porque não lembro. Lucas não sabe me explicar. Minha mãe também não. Mas meu pai estava lá. Mas me diz que não estava. Como não estava? Eu sentia sua voz dentro de mim, ressoando em mim a ponto de não agüentar mais ouvi-la?

Por fim, após a catarse da escrita-declamação, adormeci. Estas são algumas das palavras que pularam do coração para o papel durante aquele trecho, que parecia não ter fim:

“Pois a vida é mais fácil e mais tranqüila para os felizes. Por isso a felicidade me persegue como uma andorinha que voa baixo. Baixo mas perto. Sempre perto, tentando me alcançar, mas sem nunca chegar. A felicidade está sempre ao nosso redor. Não adianta tentarmos nos esconder dela. Isso é impossível. Ela sempre nos quer e nós a queremos. Mas ela nunca chegará se nós não corrermos atrás. Ela só vem quando a gente quer. E a vida é mesmo isso. Chegadas e partidas. Idas e vindas. Mas continuamos sempre… Para frente, isso deve ser uma verdade. Mas andamos rumo ao incerto. Sem rumo, perdidos. Sem pais, sem mães, sem mulheres, homens, mulatos, negros, brancos, amarelos. Andamos sem rumo, rumo ao infinito, permito o pleonasmo, pois é impossível não cometê-lo. O fim da vida, ou das contas, é sempre o medo. A solidão. Mas sempre ficamos tristes com a possibilidade de partida. Dessa vida ou de outra. Nos ensinaram assim. Infelizmente temos que partir dessa para uma melhor. Ou pior. Ou não. Ou sim. A vida é sempre assim. Triste e contente. Dialética nos termos, mas prática na vida. Ela é assim, pois fomos feitos para amar. Todos e uns aos outros, sem medo de sofrer e de magoar, sem medo de fazermos o que queremos, sem ligarmos para os padrões e o que a sociedade nos informa. Isso é fato. (…). Feita de pais e filhos, feita de tensão, tesão. TESÃO. Isso é o que nós queremos. Isso é o que nos faz viver. Dinheiro para que? Podemos caminhar, pensar, cantar, tocar, não tocar, ou simplesmente ficarmos sós. Solidão é algo angustiante, não devo esconder de você. Mas infelizmente é somente sozinhos que resolvemos nossos problemas. Lembrei Guimarães Rosa, a colheita é junto mas o capinar é sozinho. Ninguém nunca poderá nos ajudar. Pois somos apenas um homem, ou uma mulher. Ou então somos tudo isso junto, ou separado, sei lá. Somos feitos do pó. Ao pó voltaremos. Tristes ou felizes? Depende de nós. Perdoe-me o chavão, mas é assim que a vida funciona. Se é que realmente sei algo dela, pois sou apenas um jovem. Um jovem como qualquer outro, mas que não sabe que rumo tomar. Por isso, digo-lhe faça o que tu queres, pois é tudo da lei, outro chavão. Depois disso, se morreres, meu caro leitor, se é que tu existes, seremos felizes. Aonde? Em qualquer lugar que não seja aqui. Onde estou, como estou, como faço as coisas. Mas isso são apenas devaneios de um pseudo-poeta, falso moralista, tentativa de professor, historiador de meia-tigela. Mas enfim, fazei o que quiserdes e sede felizes. (…) Por que?

Se deus existe ele mora dentro do seu coração. E é você quem pode achá-lo, da forma que bem entender. Cada um diz o que pensa. (…) Mas a vida é mesmo dura. Resta-nos a escolha. Viver ou sofrer. Eu prefiro viver sendo feliz. Quando posso. Quando quero. Quando preciso. Quando não dá pra ser triste. A vida é um grande teatro em que todos somos atores. Atores da Divina Comédia Humana, em que Dante nem existe, desde que você não queira. Tudo depende apenas de uma única pessoa. Você. Eu? Não sou ninguém. Como diria meu xará, aquele que pensa e o chamam de Pensador, eu sou mendigo, indigesto, indigente, indolente, vagabundo. Eu sou o resto do mundo. E você o que faz para mudar seu mundo? Cria sereias e bichos imaginários ou simplesmente não faz nada. Se você consegue ser um desses, eu simplesmente o admiro. Pois que mortal gostaria de trabalhar arduamente de segunda a segunda e ainda ter que escrever essas tristes páginas para desabafar um problema tão comum na vida dos outros. Mas enfim caboclo, isso faz parte da vida. Viva-a intensamente a cada milionésimo de segundo, pois ela passa rápida e o motorista não pára o ônibus. Ai ai…”

Adormeci, e quando abri os olhos, pensando estar de volta a Juiz de Fora, chegava em BH. Terminava a viagem sem fim de ônibus, continuava uma outra viagem interior que me levaria rumo à Pinel.

 

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Bill Braga -
10 Comentários
  1. Myriam Menin Ferreira

    Biel querido, interessantíssimo o texto escrito durante a sua viagem.Lí duas vezes, como lí duas vezes o texto do Eulálio.Acho que alí tem muita coisa que escapa de um texto escrito em condições normais de temperatura e pressão. Continuo angustiada durante a leitura, principalmente por voce ter estado sozinho em uma hora tão complicada de sua vida. E principalmente por voce ter se sentido sozinho, o que é pior.Beijo de Vó

    • Bill Braga

      Vovó, obrigado pelas palavras e companhia mais que fiel…
      A angústia da leitura pode ser um bom catalisador de boas coisas em nossa vida, concorda?
      Tem certos momentos, que precisamos passar por certos processos na solidão, só assim fazemos nossa metamorfose..
      Talvez eu esteja fazendo como o Eulálio, inventando passados, para cimentar os futuros por vir…
      beijos

  2. Junia Mortimer

    “Lembrei Guimarães Rosa, a colheita é junto mas o capinar é sozinho.”
    Que boa lembrança!

    • Bill Braga

      Putz, resumiu com maestria Junia, vc e o Guimarães… Vale a pena capinar sozinho, porque a colheira sempre rende boas surpresas, É isso aí…

      Obrigado!

  3. Ondina

    Importante não ter esquecido nenhum detalhe de tudo que te aconteceu.Deus te segurou pela mão e firmou teus passos.Bjs carinhosos da prima,
    Ondina – RJ

    • Bill Braga

      Ondina, muito obrigado pelo carinho, você sempre me acompanhando nesta jornada…

      Como escrevi naquele trecho de viagem interior:”Se deus existe ele mora dentro do seu coração. E é você quem pode achá-lo…”

      bjos

      • Ondina

        Sim, querido primo, o reino de Deus está dentro de nossos corações. ELE é nossa força, socorro presente nas tribulações. Fiel em Suas promessas, pois somos seus filhos amados como Jesus.
        Se a jornada é difícil, segura na mão de Deus (diz o hino). Bjs carinhosos da prima, fiel leitora,
        Ondina-RJ

  4. Mel

    Nossa.. me lembro com detalhes de tudo o que aconteceu neste dia, Bill! Do lado de fora, o telefonema do seu pai, várias ligaçoes perdidas para você, e das vezes que me atendeu, uma ainda em viagem e outra depois que chegou em BH e, finalmente, o telefonema da sua mãe. Foi muito difícil(quase surreal), mas nada perto de ler pelo que passou no mesmo dia. Impressionante ler tudo isto depois de quase 4 anos, mais impressionante os textos tão bem escritos e detalhados que saíram de uma época tão turbulenta.

    • Bill Braga

      Pois é Mel.. Acaba que pelas memórias fugidias, só tenho acesso a um lado, o meu da história, por mais que tente projetar os outros… E vejo que é difícil para as pessoas lerem, reviverem comigo tudo isto, mas é uma dificuldade libertadora… E para mim é tão importante sua leitura, e seus comentários, é como se eu me reconciliasse com minha própria história.. Obrigado!

  5. Bill Braga

    Oi Ondina, uma coisa eu concordo, esta entidade a que os homens chamam de Deus, Alá, Jah, Sheeva, ou qualquer outra deídade, realmente está dentro de nós mesmos, é uma projeção do nosso eu interior… de nossos anseios ansiosos por sentidos supra-terrenos…
    E isto é uma questão de fé, crença, vai além do racional… Como este é um espaço democrático, há aqueles que podem dizer que foi a mão de deus, ou outros que digam que foram os espíritos… Eu ainda fico com o homem, a mente, os sentimentos,a razão, a poesia imanente do mundo e, porque não a desmedida. Mas a pluralidade de pontos de vista é uma virtude, por isso obrigado pela companhia e por manifestar-se!

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