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Por uma subjetividade erótica – parte III

Publicado por Bill Braga em Psicologia, Psiquiatria, Xamanismo
data: 14/06/2018

Por uma subjetividade erótica – parte III
Esses novos seres que o guru preconizava, ou profetizava, se sintetizariam na ideia de Zorba, O Buda. Esses seriam seres que conjugariam as duas dimensões essenciais da existência humana: uma terrena, mundana, de prazeres e gozos, hedonista diríamos, o lado Zorba, inspirado no personagem Zorba o Grego. Do outro lado sua natureza búdica, que se manifesta na contemplação e meditação, comungam com o Universo e transcendentalidade. Imanência e transcendência fundidos em um novo sujeito. Uma forma de subjetivação livre das amarras sociais, das pedagogias autoritárias, dos moralismos hipócritas e do materialismo niilista. Essa a síntese que Osho ousou flamejar nos corações dos sannasysins, aqueles que o seguiam.

Soma, Anarquia e Capoeira – De Reich à antipsiquiatria – o devir revolucionário, o corpo como instrumento da micropolítica libertária – ideia da escultura de si e da vida-artista – estética da existência – Coiote x Zorba, o Buda.

Roberto Freire foi outro marginal, subversivo e inquieto. Foi médico, psicanalista, escritor, e múltiplo acima de tudo. Assim como Reich, foi comunista, da Ação Popular, perseguido pela Ditadura Militar, preso algumas vezes. Descobriu a Anarquia e com ela desenvolveu a Soma, juntando as referências de Reich, da Gestalt e da Antipsiquiatria. Ainda incluiu a capoeira como prática corporal e lúdica, como forma de soltar as couraças neuromusculares. Foi genial, e ainda hoje permanece menos reconhecido pela academia do que merecia ser. Marginal, foi chamado de guru e comparado a Osho. Isso porque a Soma dava uma importância fundamental ao tesão, palavra que foi ressignificada de vez nos idos de Maio de 1968 pelas revoltas que eclodiram pelo mundo. Sem tesão, para ele não haveria solução, e sua visão era holista, mas não mencionava a espiritualidade. Por outro lado, seu forte viés politico, focado nas microrrelações de poder e afeto foi deveras revolucionária. Sexo e política, autogestão e terapia grupal. Combinações explosivas que culminavam numa concepção de ecologia libertária, já que para Freire, num viés quase biológico, para sobrevivermos enquanto espécie só com um mutualismo ou comunalismo anárquico perduraríamos e desmancharíamos as neuroses e psicoses que a sociedade burguesa capitalista introjetava nos jovens.

De fato, Freire defendia uma espécie de erótica solar, uma subjetividade voltada para o corpo e mente integrados, numa manifestação de vida que esculpia a si mesma. Como um artista, sua vida e sua obra instigam a escultura de si, conceito de Foucault que ele também se apropriou na sua existência. Afinal de contas onde estaria o sentido da vida senão em amar, dar vexame, se unir a outros tesudos e construir uma utopia heterotópica de uma vida comunitária livre de autoritarismos, seja do Estado ou da família. Pela expressão que ficou registrada nos seus coiotes, mutantes do século XX, que se não tinham, para Freire, sua natureza búdica, mergulhavam na materialidade do hedonismo para libertar-se das amarras egóicas e fundarem uma nova vida em comum. Coiotes de Freire, ou Zorbas, os Budas de Osho são expressões de quebras de paradigmas dos processos condicionantes de subjetivação impostos na sociedade de controle. Se de um lado temos a forte imanência e materialidade dos coiotes, em Osho unem-se materialidade e transcendência num sujeito que é capaz de encher a cara e ainda meditar.

Acima de tudo, tanto Osho, quanto Reich, quanto Freire representaram com suas vidas e pensamentos, cada um a seu modo, exemplos do que Deleuze chamou de um devir revolucionário. Uma existência sempre aberta, inconclusa, que busca liberdade acima de tudo, mas numa vida em comunidade, sem repressões de Estado, religiões ou famílias. Exemplos de um idealismo místico romântico, herdeiros das tradições poéticas que vão de Rimbaud, Blake aos beats, eles revolucionaram os saberes psis, unindo num todo integrado o ser humano, recuperando uma espécie de holismo que nunca teria sido perdida.

Tesudos e Budas do mundo Uni-vos!

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