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XXIV – Eu, caçador de mim

Publicado por Bill Braga em Memórias
data: 21/11/2012

E cá estou eu, novamente expurgando minhas dores, pós-Pinel. Sim, aconteceu de novo. Mas calma, antes de lhe contar tudo que aconteceu nesta nova crise, ou surto como gostam de dizer os homens de branco, devo lhes contar o meio. O Entre, o tudo que aconteceu entre estas duas internações. Entre o abrir daquela porta, em que meus olhos lacrimejavam ao ver a liberdade, e hoje, em que encontro-me novamente “preso” em casa, pós-surto.

Foram-se quatro anos e meio, muita coisa ocorreu e as causas e efeitos, se é que existem são muitas e entrelaçadas, e temos que retomar os fios desta trama para entender a situação presente. Saí da Pinel, naquele maio de 2008, ainda acelerado, mesmo que sob efeito de pesadas medicações. Como havia lhe dito, camarada, haviam usado o Haldol, em mim, inimigo dos poetas e loucos. Sãos? Estava carregado de medicamentos mas em minha mente ainda via o mundo cindido em seus pólos dialéticos. Ainda carregava a marca dos que sofrem do transtorno maníaco-depressivo, doença tão antiga quanto a humanidade.

Quando saí, o primeiro passo era ressocializar. Afinal de contas, afastado por quase dois meses do mundo dos “sãos”, medíocres?, conversando apenas com os internos, tinha que reaprender a conversar os assuntos, tinha que me tornar novamente um homu socialis. Mas duas mulheres ainda estavam em minha cabeça.

A doce Carmelita, senhorita Mel, que havia terminado há pouco comigo, rondava meus pensamentos…. Porque será que ela havia se afastado? Será que eu havia contado algo que havia magoado ela? Meus pensamentos com Tatiana, Sandra, será que ela sabia de tudo isto e não quis mais ficar ao meu lado? Era um mar de interrogações que inundava meus pensamentos, que não encontravam respostas. Mandei um e-mail para ela. Obtive uma resposta seca. Sem mais contatos futuros, por favor. Ela estava realmente fechada. Isso me magoava muito, eu queria ela, queria que ela me ajudasse a readentrar no mundo dos homens, que não me tornasse um Lobo da Estepe.

Havia ainda em minha cabeça a senhorita Fernanda, que conheci e tive um rápido relacionamento dentro da Pinel. Fernanda representava para mim uma saída para o amar e sentir-se amado. Liguei para ela, sabia que já tinha saído também. Em vão. Novamente a secura foi total. Eu estava totalmente desamparado no campo amoroso, nenhuma opção me foi resguardada.

Como podem os poetas, os loucos, os bipolares, ou malditos, viverem sem amor? Quão cruel não será negar-lhes a possibilidade de amarem. Isso me foi um baque. Mas em meio ao baque eu sentia-me o Juan, e saía com meus amigos à caça, em busca de novos amores. E poetizava o mundo, em meio à aceleração de meus neurônios. Cada pedaço de papel, de guardanapo, era uma possibilidade de escrever um poema para conquistar um novo amor.

O sentimento de plenitude, de potência máxima ainda me invadia, mesmo com todos os remédios mediocrizantes, e apesar dos belos poemas, e flertes, cada vez era uma nova frustração em termos amorosos. Parecia que o mundo não me cabia e eu não cabia no mundo. Começava a pessoar-me, dividindo-me heteronimamente, fundido em meus eus, em minhas várias facetas, para conviver nos circulos sociais. Mas era doído, como era doído! O não se encaixar, o inadaptar. Sofria muito no meu âmago, embora parecesse o mais feliz dos seres.

Depois vieram os efeitos colaterais dos remédios. Síndrome de perseguição. Dificuldade de ir ao banheiro. Uma luta. Medo. Angústia. O Cenário foi cambiando. E eu na eterna luta, caçando-me nas  beiradas do meu próprio eu.

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