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Circunflexão

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 25/10/2016

Onde você estava quando fui a Marte Em busca dos nossos antepassados Cem meteoros rasgaram minhas veias E choveu sangue no Mar Vermelho? Onde eu estava quando você sumiu Nas chamas do incêndio que tragou As minhas primeiras únicas palavras No caos da biblioteca de Alexandria? Onde estávamos quando capturavam almas Para entregar em oferenda aos deuses Que entretanto nos haviam relegado Ao imenso escuro e frio Armageddon? O...

Era setembro

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 30/09/2016

Faz cinquenta e cinco anos Que vim do pó E com ele em breve terei O tal encontro marcado. Embarquei na canoa dos homens Fiz mil e uma estripulias Mas estou farto. Farto de aprender a navegar Para ao fim e ao cabo Morrer na praia. Fui aquém na longa estrada Fiz menos do que devia Tenho saldos a pagar. Adianto aos amigos que não Se trata de adeus Antes pelo contrário É mais um até logo. Compartilhar este Artigo

Em obras

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 05/08/2016

Qualquer dia desses O mundo devia fechar para reforma. Conserta aqui, reboca acolá E em breve o chateau poderia reabrir Sob nova direção. Eu aproveitaria para me remendar Com linha, agulha e esperança Mas apenas o necessário. Bom seria retroceder no tempo. Aceitar aquele convite, me esforçar Um pouco mais, dar a mão à palmatória, Não ser tão imprevidente. Reforma faz parte da obra. O mundo precisa de uma. Uma em mim...

e-juninas

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 24/06/2016

Não derramo uma lágrima neste cancioneiro Não sei chorar Quando chega junho esfrio até a alma Nasci para estrume Na terra petrificada O olhar que lanço ao passado é retorno É um desespero de homem aos pedaços O tempo de que me ocupo Apenas deserto de onde vim para onde vou Desfigurada hoje Havia, alhures, uma pequena cidade O circo na cumeeira do morro A noite mais estrelada do mundo E o São João, nossa Natividade, e...

Sumidouro

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 10/05/2016

Por onde passo terra arrasada e sobre ela indiferentes vão os sonâmbulos ao cadafalso com eles ando anos e anos sempre ao relento malta insalubre sem para onde nem para quê pois nenhum vale coisa nenhuma gente a mancheias cumprindo a sina de tão somente se desmembrar mudam os nomes os corpos mudam mas essa fila é sempre a mesma almas penadas ao entardecer seguindo o cetro vão noite adentro em carne e ossos branda manada ...

Por um ano novíssimo

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 29/12/2015

Revendo essa minha agenda Percebo, feliz e fagueiro, Que ainda tenho amigos Para o que der e vier. E não é pequena a tropa. Um deles manda um correio Em que recomenda (ordena?): Toque o trombone, meu velho, Mostre ao mundo o seu veneno. Mas não sei tocar trombone. Quando me lembro deles Amigos da vida inteira O meu rosto se ilumina Sorrio de orelha a orelha. Sorriso silencioso Típico dos Almeida. Aos amigos do peito Distri...

Na barca dos homens

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 03/05/2013

Aleluia! Aleluia! Aleluia! Mas meu coração não acredita em deus. Mas meu coração acredita em deus. Deus existe há tanto tempo, louvado seja! O diabo é que também não acredito no diabo, mas no inferno acredito: é logo ali. Entre deus e o diabo, melhor é me escafeder. Nossa estrada é curta, longo é o beco, voltemos ao fim do dia para a nossa aldeia, cantando. Cantemos alto e juntos anjos caídos o angelus. Pela últ...

O inúmero

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 22/03/2013

Aqui estou. Presente, invisível, quase não eu. Um pouco de mim, um quase mim, tantos e diferentes que fui, o que serei, seja o que for. O último da linhagem do silêncio – a quem a própria voz me surpreende, sobressalta: por evidente, tudo estava escrito antes de mim e para além sei que estará, fora de mim. Dizer que sou é pouco dizer, quase não dizer. Os estranhos de mim, os obscuros, parcos e indiferentes ao que ro...