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	<title>Fundação Metropolitana &#187; Maria de Lourdes Utsch Moreira</title>
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	<description>Fundação Educacional e Cultural Metropolitana</description>
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		<title>A Lista de Harold Bloom</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Sep 2010 17:19:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maria de Lourdes Utsch Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Harold Bloom, ex-professor da Universidade de Yale, ensaísta e crítico literário de renome, escreveu O Cânone Ocidental. Faz tempo que chegou ao Brasil e já deve ter sido dissecado pelos iluminados da literatura. Este comentário é simples, pretende atingir o leitor comum que não teve acesso à obra, com informações ligeiras e superficiais. O autor, leitor voraz, teria começado a ler no ventre materno tal a riqueza bibliográfica revelada. Leu, estudou, praticamente, todos os grandes autores do ocidente e até do oriente. Com essa bagagem cultural, escreveu uma obra ousada, polêmica, mas de alta erudição. Cânone é palavra chave. O próprio autor afirma a origem religiosa do termo. Segundo Houaiss, cânone ou cânon: norma ou regra interpretada por um conselho da Igreja; lista de livros considerados de inspiração divina; a parte mais solene e invariável da missa; uma das regras ou princípios sobre o qual algo é baseado, maneira de agir; padrão. O Cânone de Harold Bloom também é normativo, seletivo, cheio de exigências estéticas no apuramento dos escritores para pertencerem ao Cânone. Dá a impressão de que quem o atinge fica num lugar sacralizado. A lista canônica que vem como apêndice tem um lado elitista e arbitrário, baseado em valores abstratos, impossíveis de sofre uma quantificação. A base da formação do Cânone é a seleção dos escritores, os melhores, segundo os critérios de Harold Bloom. Não são poucos: sublimidade natureza representativa. Grande valor estético, força espiritual, poder de influenciar outras gerações, imortalidade da obra, que sobrevive à morte do autor, sobrevivência de séculos. Estilo que contagia outras artes, originalidade e estranheza. Aquilo que se lê e se considera bom de reler classifica-se e recebe o selo da canonicidade. H. B. diz: “A gente só entra no Cânone pela força poética que se constitui basicamente de um amálgama: domínio da linguagem figurativa, originalidade, poder cognitivo, conhecimento, dicção exuberante”. Com estes requisitos à mão escolheu os canônicos, vinte e seis escritores, entre romancistas, poetas, filósofos, ensaístas, dramaturgos, cientistas. São eles: Shakespeare, Dante, Samuel Johnson, Goethe, Wordsworth, Cervantes, Chaucer, Joyce, Montaigne, Molière, Milton, Jane Austen, Walt Whitman, Emily Dickinson, Charles Dickens, Eliot, Tolstoi, Ibsen, Freud, Proust, Virgínia Woolf, Kafka, Neruda, Borges, Pessoa, Beckett. Interroga-se pela omissão de tantos que também merecem a canonicidade. “Mas onde andam Petrarca, Rabelais, Ariosto, Racine, Rousseau, Blake (&#8230;)” e centenas de outros. Harold Bloom justifica-se, dizendo: “É possível escrever um livro sobre vinte e seis escritores, mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/09/image00120.jpg"><img class="size-full wp-image-3860  aligncenter" title="image001" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/09/image00120-e1285780651774.jpg" alt="" width="480" height="324" /></a></p>
<p>Harold Bloom, ex-professor da Universidade de Yale, ensaísta e crítico literário de renome, escreveu <em>O Cânone Ocidental</em>. Faz tempo que chegou ao Brasil e já deve ter sido dissecado pelos iluminados da literatura. Este comentário é simples, pretende atingir o leitor comum que não teve acesso à obra, com informações ligeiras e superficiais.</p>
<p>O autor, leitor voraz, teria começado a ler no ventre materno tal a riqueza bibliográfica revelada. Leu, estudou, praticamente, todos os grandes autores do ocidente e até do oriente. Com essa bagagem cultural, escreveu uma obra ousada, polêmica, mas de alta erudição.</p>
<p>Cânone é palavra chave. O próprio autor afirma a origem religiosa do termo. Segundo <em>Houaiss, </em>cânone ou cânon: norma ou regra interpretada por um conselho da Igreja; lista de livros considerados de inspiração divina; a parte mais solene e invariável da missa; uma das regras ou princípios sobre o qual algo é baseado, maneira de agir; padrão. O Cânone de Harold Bloom também é normativo, seletivo, cheio de exigências estéticas no apuramento dos escritores para pertencerem ao Cânone. Dá a impressão de que quem o atinge fica num lugar sacralizado. A lista canônica que vem como apêndice tem um lado elitista e arbitrário, baseado em valores abstratos, impossíveis de sofre uma quantificação.</p>
<p>A base da formação do Cânone é a seleção dos escritores, os melhores, segundo os critérios de Harold Bloom. Não são poucos: sublimidade natureza representativa. Grande valor estético, força espiritual, poder de influenciar outras gerações, imortalidade da obra, que sobrevive à morte do autor, sobrevivência de séculos. Estilo que contagia outras artes, originalidade e estranheza. Aquilo que se lê e se considera bom de reler classifica-se e recebe o selo da canonicidade. H. B. diz: “A gente só entra no Cânone pela força poética que se constitui basicamente de um amálgama: domínio da linguagem figurativa, originalidade, poder cognitivo, conhecimento, dicção exuberante”.</p>
<p>Com estes requisitos à mão escolheu os canônicos, vinte e seis escritores, entre romancistas, poetas, filósofos, ensaístas, dramaturgos, cientistas. São eles: Shakespeare, Dante, Samuel Johnson, Goethe, Wordsworth, Cervantes, Chaucer, Joyce, Montaigne, Molière, Milton, Jane Austen, Walt Whitman, Emily Dickinson, Charles Dickens, Eliot, Tolstoi, Ibsen, Freud, Proust, Virgínia Woolf, Kafka, Neruda, Borges, Pessoa, Beckett.</p>
<p>Interroga-se pela omissão de tantos que também merecem a canonicidade. “Mas onde andam Petrarca, Rabelais, Ariosto, Racine, Rousseau, Blake (&#8230;)” e centenas de outros. Harold Bloom justifica-se, dizendo: “É possível escrever um livro sobre vinte e seis escritores, mas não sobre quatrocentos”.</p>
<p>Os ensaios sobre os vinte e seis escolhidos são grandiosos, onde o autor exibe sua excepcional competência e vasta cultura literária. Marcou o tempo em que viveram, inspirado no ciclo de Gianbattista Vico, ou seja, a era Teocrática, Aristocrática, Democrática e a do retorno à segunda fase Teocrática. H. B. substituiu esta última pela era do Caos, que corresponde ao século XX.</p>
<p>A lista canônica elaborada como um apêndice no fim do livro, abrange todos os escritores considerados canônicos. Encaixou-os nas referidas eras de Vico.</p>
<p>Na <strong>era Teocrática </strong>estão os grandes nomes da Antiguidade Clássica: os gregos antigos, os helenistas gregos, os romanos; Homero, Hesíodo, Virgílio, Cícero e muitos outros dessa fase.</p>
<p>A <strong>era Aristocrática</strong> é longa, abrange quinhentos anos, vai de Dante a Goethe. Inclui gente ilustre, alguns já bem conhecidos: Luís de Camões, Miguel de Cervantes, Petrarca, Maquiavel, Giordano Bruno e uma centena deles.</p>
<p>A <strong>era Democrática</strong>, situa-se no século XIX. A Inglaterra surge com o maior número de canônicos: William Blake, Lord Byron, Thomas Carlyle, Lewis Carol, Oscar Wilde e tantos mais se pudesse citá-los todos.</p>
<p>Sobre a <strong>era do Caos</strong>,<strong> </strong>H. B. faz uma profecia pessimista “não estou tão certo desta lista quanto das três primeiras. Pode ser que nem todas as obras aqui relacionadas se revelem canônicas, para muitos deles a superpovoação literária é um risco. Mas não fiz inclusões, nem exclusões com base em qualquer tipo de política cultural”. Misturadas temos, então, na lista da era do Caos, muitas obras passíveis de não serem canônicas, só o tempo dirá. Luigi Pirandello, Miguel de Unamuno, Fernando Pessoa, Paul Valèry, Carlos Drummond de Andrade estão garantidos pela imortalidade das obras. Carlos Drummond de Andrade é o único brasileiro na lista de Harold Bloom, enquanto os da América Hispânica estão bem citados. Desprezo, indiferença, desconhecimento da literatura brasileira? Mestre universitário, doutor da literatura, que já leu até Gilgamesh e o Corão, e inclui na sua lista Salman Rushdie, nunca ouviu falar de Machado de Assis? Registro aqui o protesto contra esta omissão imperdoável.</p>
<p>“A principal função pragmática do Cânone é lembrar e ordenar a leitura de uma vida”, diz H. B. A lista de autores é um catálogo de sugestão à leitura. O fundamento desta seletividade mundial é a escolha. O quê vou ler? É o dilema canônico. H. B. &#8211; apesar de ser pessimista quanto ao perfil do leitor da era do Caos, da tecnologia ameaçando o livro, da balconização da literatura -, como mestre e como crítico, dá alguma direção aos leitores resistentes e fiéis. Alerta quanto ao tempo que dispomos e à qualidade do que se escolhe para ler:</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>“Quem lê tem de escolher, pois não há tempo suficiente para ler tudo, mesmo que não faça mais nada na vida, além disso. Somos mortais e, também, meio retardatários, só temos um determinado tempo, esse tempo deve ter um fim, enquanto há mais para ler do que jamais houve antes”. </strong></p>
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		<title>Cascalho, de Herberto Sales</title>
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		<pubDate>Wed, 26 May 2010 16:19:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maria de Lourdes Utsch Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica Literária]]></category>

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		<description><![CDATA[Um bom livro pode ficar esquecido em algum canto, mas um dia um leitor especial há de descobri-lo. Não sei se o romance Cascalho está nesta condição. Se está, que o descubra logo um leitor de bom gosto. Baseado no livro, o diretor e roteirista Tuna Espinheira, rodou o filme homônimo, Cascalho, na própria Chapada Diamantina. A realização do longa, que tem no elenco atores como Harildo Déda, Othon Bastos e Irving São Paulo (já falecido), só foi possível graças ao edital de roteiro de Fernando Coni Campos, vencido em 2002. Na ocasião, o filme recebeu cerca de R$ 1,1 milhão, verba insuficiente para finalizar o projeto. A luta para que a produção chegasse às telas levaria ainda seis anos e consumiria ainda, cerca de R$ 400 mil. Voltando ao livro, o autor Herberto Sales, foi um baiano que passou a infância, a adolescência e a juventude em Andaraí, na Chapada Diamantina. Houve um período em que estudou em Salvador. De volta dos estudos, regressa a Andaraí, cidade onde nasceu, viveu alguns anos e exerceu várias atividades. Conheceu de perto e a fundo a engrenagem, o funcionamento dos garimpos de diamante, sem perder de vista as implicações sociais, econômicas, morais, geográficas, dando relevo e importância aos garimpeiros, aliás, os protagonistas do romance. Publicou Cascalho em 1944. Com certeza, nessa altura, já estivesse bem relacionado nos meios literários do Rio. Marcos Rebelo era um dos amigos de então. Por sua influência entrou para a ABL. Não se entusiasmou com a crítica, até aceitou a sugestão de Sérgio Milliet de reescrever o romance. Na segunda edição foi bem recebido pelos críticos em evidência. Cascalho é uma narrativa heróica da vida dos garimpeiros da região baiana das lavras de diamantes, precisamente, nas cidades de Andaraí, Piranhas e Paraguaçu. A visão é neorrealista. Não é uma cópia, mas o reflexo do real. Andaraí seria uma lembrança na memória do autor que junto à imaginação transfigura e recria uma nova Andaraí. Seus moradores são personagens consistentes e verossímeis: os coronéis, donos das lavras, o médico velho e doente, o vigário, o turco de mil negócios, o farmacêutico, o juiz de direito, o delegado, a polícia, os jagunços, as parteiras, as benzedeiras, os comerciantes, a arraia miúda, cheia de carência, forasteiros, as mulheres damas com fortes ligações com os garimpeiros. As relações entre as pessoas alimentam a trama. O fulcro do relacionamento é a situação conflituosa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-2989   alignnone" title="Cascalho, de Herberto Sales" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/05/image00120.jpg" alt="" width="480" height="297" /></p>
<p style="text-align: left;">Um bom livro pode ficar esquecido em algum canto, mas um dia um leitor especial há de descobri-lo. Não sei se o romance <em>Cascalho</em> está nesta condição. Se está, que o descubra logo um leitor de bom gosto.</p>
<p style="text-align: left;">Baseado no livro, o diretor e roteirista Tuna Espinheira, rodou o filme homônimo, Cascalho, na própria Chapada Diamantina. A realização do longa, que tem no elenco atores como Harildo Déda, Othon Bastos e Irving São Paulo (já falecido), só foi possível graças ao edital de roteiro de Fernando Coni Campos, vencido em 2002. Na ocasião, o filme recebeu cerca de R$ 1,1 milhão, verba insuficiente para finalizar o projeto. A luta para que a produção chegasse às telas levaria ainda seis anos e consumiria ainda, cerca de R$ 400 mil.</p>
<p style="text-align: left;">Voltando ao livro, o autor Herberto Sales, foi um baiano que passou a infância, a adolescência e a juventude em Andaraí, na Chapada Diamantina. Houve um período em que estudou em Salvador. De volta dos estudos, regressa a Andaraí, cidade onde nasceu, viveu alguns anos e exerceu várias atividades. Conheceu de perto e a fundo a engrenagem, o funcionamento dos garimpos de diamante, sem perder de vista as implicações sociais, econômicas, morais, geográficas, dando relevo e importância aos garimpeiros, aliás, os protagonistas do romance.</p>
<p style="text-align: left;">Publicou <em>Cascalho</em> em 1944. Com certeza, nessa altura, já estivesse bem relacionado nos meios literários do Rio. Marcos Rebelo era um dos amigos de então. Por sua influência entrou para a ABL. Não se entusiasmou com a crítica, até aceitou a sugestão de Sérgio Milliet de reescrever o romance. Na segunda edição foi bem recebido pelos críticos em evidência.</p>
<p style="text-align: left;"><em>Cascalho</em> é uma narrativa heróica da vida dos garimpeiros da região baiana das lavras de diamantes, precisamente, nas cidades de Andaraí, Piranhas e Paraguaçu.</p>
<p style="text-align: left;">A visão é neorrealista. Não é uma cópia, mas o reflexo do real. Andaraí seria uma lembrança na memória do autor que junto à imaginação transfigura e recria uma nova Andaraí. Seus moradores são personagens consistentes e verossímeis: os coronéis, donos das lavras, o médico velho e doente, o vigário, o turco de mil negócios, o farmacêutico, o juiz de direito, o delegado, a polícia, os jagunços, as parteiras, as benzedeiras, os comerciantes, a arraia miúda, cheia de carência, forasteiros, as mulheres damas com fortes ligações com os garimpeiros.</p>
<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-2990  aligncenter" title="Cascalho, de Herberto Sales" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/05/image0031.gif" alt="" width="308" height="255" /></p>
<p style="text-align: left;">As relações entre as pessoas alimentam a trama. O fulcro do relacionamento é a situação conflituosa entre os garimpeiros (explorados) e os patrões (exploradores).</p>
<p style="text-align: left;">É um livro duro, onde não há lugar para a complacência. Não há espaço para o amor. Os apelidos que uns dão para os outros revelam muitos aspectos das condições de vida e da psicologia dos garimpeiros: Neco Rompedor, Manuezim Conguia, Agenor Cabeça Cega, João Boi, Filó Finança, Benedito Laqueado, Zeferino Boca de Virgem, Juvenal Bosta Boa&#8230; A ignorância, a bravura, a força física, a sensualidade, acrescente-se a imbecilidade e a obsessão de resistir em viver procurando e buscando, na miséria, a riqueza.</p>
<p style="text-align: left;">Dá para organizar um pequeno léxico da linguagem regional designativo dos garimpos, do seu instrumental e técnicas de funcionamento, como também, os nomes dos lugares, das pessoas, das plantas, dos animais, dos objetos domésticos etc. Além dos termos chulos, expressões e aforismos populares.</p>
<p style="text-align: left;">“Envoltos na escuridão reinante, os garimpeiros como que se prostravam diante daquelas duas forças que se defrontavam na noite: as águas rouquejantes do rio Paraguaçu e o patrão majestático”.</p>
<p style="text-align: left;">Há dois elementos telúricos no romance: o rio Paraguaçu e a serra. Ambos ligados à faina do povo, principalmente, na dos garimpeiros. Eles compõem a paisagem, além disso, para os homens escravizados, subservientes aos senhores das lavras inspiram sentimentos opostos. O bem é o rio correndo, mansinho, onde lavam os corpos sujos, distraem-se com a beleza das águas, o prazer. Do mal, quando o rio se enfurece e com violência devastadora vai causando destruição e morte. O romance começa e termina com as cheias arrasadoras do rio Paraguaçu invadindo as minas e matando os companheiros.</p>
<p style="text-align: left;">A serra é um bem, mas, desventrando-a, com ambição mineradora desordenada dos homens, é que é o mal. Bem é vê-la intacta, ao longe, numa perspectiva sonhadora, infinita, de liberdade.</p>
<p style="text-align: left;"><em>Cascalho </em>foi publicado em 1944, portanto, na segunda onda do modernismo, especificamente, dentro do regionalismo nordestino. Muitos manuais de literatura omitem o nome de Herberto Sales, citando seus companheiros de geração: Mário Palmério, Antônio Callado, Josué Montello, Bernardo Elis&#8230; H.S. mudou o rumo da sua produção literária. Além dos Marimbus, Dados Biográficos do Finado Marcelino, O Fruto do Vosso Ventre, Histórias Ordinárias, Transcontos, O Lobisomem, O Sobradinho dos Pardais e A Vaquinha Sabida (literatura infantil). Em <em>Cascalho</em> o autor coloca, entre os famosos tipos do romance regional, o garimpeiro baiano que pode ser o protótipo dos outros garimpeiros que perambulam por este Brasil afora, carregando sobre si mesmos as marcas da busca interminável de um tesouro escondido.</p>
<p style="text-align: left;">Quando de seu falecimento, em 1999, teve o corpo velado no Salão dos Poetas Românticos, no Petit Trianon, sede do Silogeu brasileiro. Foi sepultado no Cemitério São João Batista, no Mausoléu da Academia. Cascalho está disponível para venda pela Editora Círculo do Livro.</p>
<p style="text-align: left;">Veja o trailer do filme:</p>
<p style="text-align: left;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/EFvnMdxUzZ8&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/EFvnMdxUzZ8&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
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		<title>Saramago apedrejado em Portugal</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Jan 2010 16:58:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maria de Lourdes Utsch Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica Literária]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Penafiel, Concelho do Douro Litoral, preparou-se uma grande festa em homenagem a José Saramago, por ocasião do lançamento do último romance, Caim. O clima festivo mal terminou e a revelação do conteúdo do livro e as afirmações do autor sobre a Bíblia, Deus e a Igreja Católica, desencadearam uma onda de protestos que o Nobel de 1998 não merecia. As pedras vieram de todos os lados: das autoridades, religiosas ou não, dos desafetos, dos adversários políticos, dos invejosos dos meios literários, de outros setores da ainda conservadoríssima sociedade portuguesa. Houve até quem sugerisse ao romancista a renúncia à cidadania lusa – este é um dos que levaram Saramago ao exílio, depois de aviltá-lo pelo Evangelho Segundo Jesus Cristo. A mesma celeuma. Esta de outubro de 2009 foi pior. Encontraram um Saramago fisicamente abatido, fragilizado. As imagens vistas na televisão e na imprensa mostravam-no com o olhar de alguém apavorado com a violência das palavras apedrejadoras. Ele parecia um menino desprotegido. Onde estariam, naquele momento, os amigos e estudiosos da sua obra: Eduardo Lourenço, Leyla Perrone Moisés, Maria Alzira Seixo, Umberto Eco e tantos outros. Nas entrevistas, mal tinha forças para responder às perguntas maliciosas, até ofensivas, de alguns jornalistas. “Não procurem hematomas, a pele é dura”, disse Saramago a um repórter. Essa afirmação diz bem do teor da agressão verbal que sofreu. Ninguém ignora o seu ateísmo, por ele próprio propalado. “Sou um ateu tranquilo”, o que não é verdade. Há uma complexidade de idéias e sentimentos envolvendo essa convicção. Seu humanismo, por exemplo, é um dos componentes fortes do seu espírito. “Não há ateu absoluto”, diz ele. O tema é absolutamente polêmico, mas não é motivo de críticas ferozes. Quanto à Bíblia, fez uma leitura ao pé da letra. “Tomei na letra o que na letra está”.  Sem compromisso com normas e dogmas das religiões que adotaram a Bíblia como um livro sagrado, matéria de fé, Saramago leu literalmente o Velho Testamento. Retirou episódios escabrosos, já absorvidos e aceitos pela consciência anestesiada do povo, pela via da doutrina do mistério. Baseados nestes fatos, Saramago chegou a dizer “A Bíblia não é um livro que se deve ter em casa ao alcance das crianças. É um manual de maus costumes, um catálogo de crueldades.” Alegam os devotos: a linguagem bíblica é simbólica, deixada a cargo dos teólogos e outros exegetas que ainda estão entalados na decifração dos símbolos. Nesta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2121" title="Saramago apedrejado em Portugal" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/01/saramago.jpg" alt="" width="292" height="280" /></p>
<p>Em Penafiel, Concelho do Douro Litoral, preparou-se uma grande festa em homenagem a José Saramago, por ocasião do lançamento do último romance, <em>Caim.</em> O clima festivo mal terminou e a revelação do conteúdo do livro e as afirmações do autor sobre a Bíblia, Deus e a Igreja Católica, desencadearam uma onda de protestos que o Nobel de 1998 não merecia. As pedras vieram de todos os lados: das autoridades, religiosas ou não, dos desafetos, dos adversários políticos, dos invejosos dos meios literários, de outros setores da ainda conservadoríssima sociedade portuguesa. Houve até quem sugerisse ao romancista a renúncia à cidadania lusa – este é um dos que levaram Saramago ao exílio, depois de aviltá-lo pelo <em>Evangelho Segundo Jesus Cristo.</em></p>
<p>A mesma celeuma. Esta de outubro de 2009 foi pior. Encontraram um Saramago fisicamente abatido, fragilizado. As imagens vistas na televisão e na imprensa mostravam-no com o olhar de alguém apavorado com a violência das palavras apedrejadoras. Ele parecia um menino desprotegido. Onde estariam, naquele momento, os amigos e estudiosos da sua obra: Eduardo Lourenço, Leyla Perrone Moisés, Maria Alzira Seixo, Umberto Eco e tantos outros.</p>
<p>Nas entrevistas, mal tinha forças para responder às perguntas maliciosas, até ofensivas, de alguns jornalistas. “Não procurem hematomas, a pele é dura”, disse Saramago a um repórter. Essa afirmação diz bem do teor da agressão verbal que sofreu.</p>
<p>Ninguém ignora o seu ateísmo, por ele próprio propalado. “Sou um ateu tranquilo”, o que não é verdade. Há uma complexidade de idéias e sentimentos envolvendo essa convicção. Seu humanismo, por exemplo, é um dos componentes fortes do seu espírito. “Não há ateu absoluto”, diz ele. O tema é absolutamente polêmico, mas não é motivo de críticas ferozes. Quanto à Bíblia, fez uma leitura ao pé da letra. “Tomei na letra o que na letra está”.  Sem compromisso com normas e dogmas das religiões que adotaram a Bíblia como um livro sagrado, matéria de fé, Saramago leu literalmente o Velho Testamento. Retirou episódios escabrosos, já absorvidos e aceitos pela consciência anestesiada do povo, pela via da doutrina do mistério. Baseados nestes fatos, Saramago chegou a dizer “A Bíblia não é um livro que se deve ter em casa ao alcance das crianças. É um manual de maus costumes, um catálogo de crueldades.” Alegam os devotos: a linguagem bíblica é simbólica, deixada a cargo dos teólogos e outros exegetas que ainda estão entalados na decifração dos símbolos.</p>
<p>Nesta fonte, o Gênesis, inspirou-se Saramago para criar o romance “amaldiçoado”, <em>Caim.</em></p>
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		<title>Fernando Pessoa e os heterônimos</title>
		<link>http://www.metro.org.br/maria/fernando-pessoa-e-os-heteronimos</link>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 15:22:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maria de Lourdes Utsch Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica Literária]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[em resposta ao leitor Sílvio Miranda, que fez um comentário a outro artigo e deixou esta pergunta: “&#8230; Aproveito para dizer que tenho uma imensa curiosidade mas também uma grande dificuldade em relação a Fernando Pessoa. Fiquei muitíssimo curioso em relação a esta história dos “heterônimos” em seu outro artigo. Parece que o autor usava vários pseudônimos e depois esses pseudônimos foram criando personalidade, vida e obra próprios. A autora conhece casos semelhantes na literatura ou se trata de uma especificidade de Pessoa? Gostaria muito de ser orientado sobre a obra deste grande poeta da língua portuguesa.” Quando Fernando Pessoa morreu, em 1935, deixou publicado apenas o livro Mensagem, de 1934, classificado na Literatura Portuguesa como saudosista – nacionalista. O período em que o escreveu coincide com a fase conflituosa dos primeiros anos da República Portuguesa. Mensagem são vários poemas divididos em três partes: Brasão, Mar Português e O Encoberto. Cuidam estes versos da volta ao passado, da revisão da formação de Portugal, a identificação com o mar, as grandes navegações, D. Sebastião, o sonho com o Quinto Império. Pessoa viveu praticamente ignorado do grande público. Ignorância que perdurou por muito tempo e não podia ser diferente. Por natureza de suas criações que escapam ao entendimento imediato do leitor comum. Acrescente-se a isto o ineditismo da herança literária, volumosa e diversificada. A partir de 1940, cinco anos portanto após sua morte, amplia-se a divulgação da vastíssima obra de Fernando Pessoa. Finalmente, o poeta chegou às mãos dos mais simples e menos ilustres leitores. Entre os inéditos estão as trezentas e vinte cinco Quadras ao Gosto Popular. “Quem faz quadras portuguesas comunga a alma do povo (&#8230;)” disse-o na introdução às trovas. Esta é uma das faces de Pessoa, uno e múltiplo. Hoje quantos repetem fragmentos de versos que se tornaram populares: “navegar é preciso / viver não é preciso”, “preciso de verdade / e aspirina”, “Ó mar salgado quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal”, “Valeu a pena? Tudo vale a pena / se a alma não é pequena”, “Morrer é só não ser visto”. Sua poesia envolve todo um conjunto de concepções e sentimentos polêmicos: a vida e a morte, o espaço e o tempo, o finito e o infinito, Deus, a alma, o amor, enfim, o ser. Terrível sua estranheza de existir. Poeta de altos vôos, às vezes, faz poesia como exercício de raciocínio. Sua poesia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-1348        aligncenter" title="fernando" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2009/09/fernando.JPG" alt="fernando" width="200" height="301" /></p>
<p>em resposta ao leitor Sílvio Miranda, que fez um comentário a outro artigo e deixou esta pergunta:</p>
<p>“&#8230; Aproveito para dizer que tenho uma imensa curiosidade mas também uma grande dificuldade em relação a Fernando Pessoa. Fiquei muitíssimo curioso em relação a esta história dos “heterônimos” em seu outro artigo. Parece que o autor usava vários pseudônimos e depois esses pseudônimos foram criando personalidade, vida e obra próprios. A autora conhece casos semelhantes na literatura ou se trata de uma especificidade de Pessoa? Gostaria muito de ser orientado sobre a obra deste grande poeta da língua portuguesa.”</p>
<p>Quando Fernando Pessoa morreu, em 1935, deixou publicado apenas o livro <em>Mensagem, de 1934, </em>classificado na Literatura Portuguesa como saudosista – nacionalista. O período em que o escreveu coincide com a fase conflituosa dos primeiros anos da República Portuguesa. <em>Mensagem</em> são vários poemas divididos em três partes: Brasão, Mar Português e O Encoberto. Cuidam estes versos da volta ao passado, da revisão da formação de Portugal, a identificação com o mar, as grandes navegações, D. Sebastião, o sonho com o Quinto Império.</p>
<p>Pessoa viveu praticamente ignorado do grande público. Ignorância que perdurou por muito tempo e não podia ser diferente. Por natureza de suas criações que escapam ao entendimento imediato do leitor comum. Acrescente-se a isto o ineditismo da herança literária, volumosa e diversificada. A partir de 1940, cinco anos portanto após sua morte, amplia-se a divulgação da vastíssima obra de Fernando Pessoa. Finalmente, o poeta chegou às mãos dos mais simples e menos ilustres leitores. Entre os inéditos estão as trezentas e vinte cinco <em>Quadras ao Gosto Popular</em>.<em> </em>“Quem faz quadras portuguesas comunga a alma do povo (&#8230;)” disse-o na introdução às trovas. Esta é uma das faces de Pessoa, uno e múltiplo. Hoje quantos repetem fragmentos de versos que se tornaram populares: “navegar é preciso / viver não é preciso”, “preciso de verdade / e aspirina”, “Ó mar salgado quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal”, “Valeu a pena? Tudo vale a pena / se a alma não é pequena”, “Morrer é só não ser visto”.</p>
<p>Sua poesia envolve todo um conjunto de concepções e sentimentos polêmicos: a vida e a morte, o espaço e o tempo, o finito e o infinito, Deus, a alma, o amor, enfim, o ser. Terrível sua estranheza de existir. Poeta de altos vôos, às vezes, faz poesia como exercício de raciocínio. Sua poesia é inesgotável. Comparável a Pessoa só Camões.</p>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: center;">
<dl id="attachment_1349" class="wp-caption aligncenter" style="width: 348px; text-align: center;">
<dt class="wp-caption-dt"><img class="size-full wp-image-1349 " title="casa" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2009/09/casa.JPG" alt="Casa onde nasceu Fernando Pessoa" width="338" height="255" /></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Casa onde nasceu Fernando Pessoa em Lisboa</dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align: center;">“Multipliquei-me: para me sentir/ para me sentir, preciso sentir tudo/ transbordei-me não fiz senão extravasar-me.” Esta confissão pode explicar a origem dos heterônimos. Mas há outros motivos. Por exemplo, como fenômeno mediúnico. De fato, ele tinha o lado esotérico. Namorava o ocultismo. Foi Rosa Cruz. Fez horóscopos. Andou por estes caminhos. Pode se alegar também o excesso de inspiração e talento. Ou a amargura de viver só. Resta lembrar o lado feminino, a imagem materna (geradora) é a única imagem positiva. O desejo de extravasar a amargura e as mágoas íntimas, sem ser repetitivo. Ninguém melhor do que ele mesmo para explicar a origem dos heterônimos. Eis o que ele diz numa carta ao escritor Adolfo Casais Monteiro:</p>
<p style="text-align: center;">“(&#8230;) seja como for a origem mental dos meus heterônimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. (&#8230;) Desde criança que tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram.(&#8230;)  Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterônimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente – um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos (&#8230;). Abri com um título – “O Guardador de Rebanhos”. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. (&#8230;) Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome e ajustei-o a si mesmo porque nessa altura já o via. (&#8230;) E, de repente, em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jato, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos (&#8230;).”</p>
<p style="text-align: center;">Aí temos os três heterônimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Caeiro é e não é guardador de rebanhos. Vive em contato com a natureza, confundindo-se com ela. Sua visão de mundo é realista, objetiva, clara. Sem metafísica, mas real, sensível. Em “<em>O Guardador de Rebanhos</em>” encontra-se seu lado pagão.</p>
<p style="text-align: center;">Ricardo Reis destaca-se nas belas odes como aquela em que chama Lídia: “vem sentar-se comigo, Lídia, à beira do rio / sossegadamente fitemos o seu curso e aprendemos / que a vida passa e não estamos de mãos enlaçadas / (enlacemos as mãos)”. Vida que flui como as águas de um rio. O <em>Carpe Diem </em>do poeta Horaciano. Gozar o momento, já que a vida é breve. Estudioso dos clássicos, era mais culto do que Caeiro.</p>
<p style="text-align: center;">Álvaro de Campos era engenheiro naval, futurista, compôs poemas de fôlego louvando o progresso da tecnologia, das máquinas, das fábricas, da energia elétrica, da indústria e de todos os aspectos da modernidade. Mas não usufruía destes progressos. Era desempregado, assim confidenciou seu criador. Autor da <em>Ode Triunfal, </em>obra prima do futurismo.</p>
<p style="text-align: center;">Quem estudar <em>O Guardador de Rebanhos </em>de Caeiro, as odes de Ricardo Reis e <em>Ode Triunfal </em>de Álvaro de Campos, vai perceber a diferença que há entre eles.</p>
<p style="text-align: center;">Jorge de Sena disse, com referência a Pessoa: “É um indisciplinador de almas.” Sempre interrogativo, alimenta a dúvida, a inquietude, a irrealidade, instigando o pensamento, a emoção, embebido em sofrimento. Numa visão trágica e niilista, ou seja, descrente, da vida.</p>
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		<title>Saramago: por onde começar a ler?</title>
		<link>http://www.metro.org.br/maria/saramago-por-onde-comecar-a-ler</link>
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		<pubDate>Tue, 25 Aug 2009 18:43:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maria de Lourdes Utsch Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica Literária]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Em resposta ao leitor Silvio Miranda Prezado Silvio, obrigado por ter lido nosso artigo e por seus comentários. Quem quer começar a conhecer a obra de Saramago não deve iniciar-se com Ensaio Sobre a Cegueira. É um livro terrível e difícil. De caráter alegórico, como disse alguém “uma viagem pelo horror da indiferença e perversão do ser humano”. Há múltiplas interpretações, até já virou filme, a mais simples delas fala da cegueira espiritual do homem. Não deve entrar pela primeira vez no mundo de Saramago por este livro. Deixa-o para o fim, além do Ensaio Sobre a Cegueira há outros que significam uma fase diferente do autor depois da mudança pelo impacto do Evangelho segundo Jesus Cristo. São eles: Todos os Nomes, Ensaio Sobre a Cegueira, Ensaio Sobre a Lucidez, O Homem Duplicado, A Caverna, As Intermitências da Morte. O leitor procure informações sobre o autor e sua obra, suas características invulgares como o rico vocabulário, com arcaísmos, citações em outras línguas, termos chulos, expressões latinas. O narrador onisciente em primeira pessoa. Muitas vezes interrompe a narrativa para emitir opiniões pessoais, fazer observações, reflexões, digressões, comentários. Depois volta ao ponto em que deixou a narrativa, continuando o assunto abordado. Outro recurso expressivo são as enumerações longas, ocupando várias páginas. Repetitivo, mas não maçante. Transgride as normas gramaticais. Só utiliza a vírgula e o ponto final. Assim consegue a oralidade dos seus textos, forçando o leitor a uma leitura ininterrupta, quase sufocante. O uso arbitrário das maiúsculas e minúsculas, quase ausência de parágrafos. Cita provérbios eruditos, populares, antigos e modernos. A ironia domina toda a sua obra. Outro atrativo de Saramago é o realismo fantástico. A Jangada de Pedra é um exemplo disto. A ruptura da Península Ibérica do continente europeu, por si só, é uma fantasia e os personagens têm seu tanto de magia. Um bando de estorninhos sobrevoa sem trégua a cabeça de José Anaiço. A terra treme debaixo dos pés de Pedro Orce. Joaquim Sassa atira uma pedra na beira da praia e o mar se rebela. Joana Carda risca o chão com uma vara de negrilho, abre-se uma fenda que não se fecha. A este grupo juntar-se-á a espanhola Maria Guaivara. Os cinco personagens vão rodar terras de Portugal e Espanha, guiados por um cão desconhecido. Há ressonâncias clássicas no romance. A Jangada de Pedra lembra as aventuras nos mares na Odisséia de Ulisses. A figura confusa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-1074 aligncenter" title="image001" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2009/08/image0016.jpg" alt="image001" width="500" height="333" /></p>
<p><strong>Em resposta ao leitor Silvio Miranda</strong></p>
<p>Prezado Silvio, obrigado por ter lido nosso artigo e por seus comentários.</p>
<p>Quem quer começar a conhecer a obra de Saramago não deve iniciar-se com <em>Ensaio Sobre a Cegueira. </em>É um livro terrível e difícil. De caráter alegórico, como disse alguém “uma viagem pelo horror da indiferença e perversão do ser humano”. Há múltiplas interpretações, até já virou filme, a mais simples delas fala da cegueira espiritual do homem. Não deve entrar pela primeira vez no mundo de Saramago por este livro. Deixa-o para o fim, além do <em>Ensaio Sobre a Cegueira</em> há outros que significam uma fase diferente do autor depois da mudança pelo impacto do <em>Evangelho segundo Jesus Cristo. </em>São eles: <em>Todos os Nomes, Ensaio Sobre a Cegueira, Ensaio Sobre a Lucidez, O Homem Duplicado, A Caverna, As Intermitências da Morte.</em></p>
<p>O leitor procure informações sobre o autor e sua obra, suas características invulgares como o rico vocabulário, com arcaísmos, citações em outras línguas, termos chulos, expressões latinas. O narrador onisciente em primeira pessoa. Muitas vezes interrompe a narrativa para emitir opiniões pessoais, fazer observações, reflexões, digressões, comentários. Depois volta ao ponto em que deixou a narrativa, continuando o assunto abordado. Outro recurso expressivo são as enumerações longas, ocupando várias páginas. Repetitivo, mas não maçante. Transgride as normas gramaticais. Só utiliza a vírgula e o ponto final. Assim consegue a oralidade dos seus textos, forçando o leitor a uma leitura ininterrupta, quase sufocante. O uso arbitrário das maiúsculas e minúsculas, quase ausência de parágrafos. Cita provérbios eruditos, populares, antigos e modernos. A ironia domina toda a sua obra.</p>
<p>Outro atrativo de Saramago é o realismo fantástico. <em>A Jangada de Pedra</em> é um exemplo disto. A ruptura da Península Ibérica do continente europeu, por si só, é uma fantasia e os personagens têm seu tanto de magia. Um bando de estorninhos sobrevoa sem trégua a cabeça de José Anaiço. A terra treme debaixo dos pés de Pedro Orce. Joaquim Sassa atira uma pedra na beira da praia e o mar se rebela. Joana Carda risca o chão com uma vara de negrilho, abre-se uma fenda que não se fecha. A este grupo juntar-se-á a espanhola Maria Guaivara. Os cinco personagens vão rodar terras de Portugal e Espanha, guiados por um cão desconhecido. Há ressonâncias clássicas no romance. <em>A Jangada de Pedra </em>lembra as aventuras nos mares na <em>Odisséia </em>de Ulisses. A figura confusa e frágil de Pedro Orce lembra Anquises envolto na fumaça de Tróia. Maria Guaivara providencial e fecunda é a Deusa Deméter. O cão que os acompanha, com um fio de lã azul na boca, é da estirpe do Cérberos. <em>A Jangada de Pedra </em>é um dos mais lindos romances da língua portuguesa.  <em> </em></p>
<p>Leia os romances em seqüência pela data da publicação: <em>Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra, A História do Cerco de Lisboa</em>. Até aqui o leitor já estará adaptado ao estilo de Saramago, tomando conhecimento de seu Humanismo. Agora segue em frente na leitura dos que tratam de problemas universais. E o leitor terá como prêmio <em>A Viagem do Elefante</em> e o prazer de conhecer parte da obra de um escritor genial. Digo parte porque ele tem ainda livros de contos, poesias, crônicas, teatro, lembranças de viagens, diários e memórias. E continua escrevendo&#8230;</p>
<p>Vá em frente, pois você estará conhecendo a obra de um dos maiores escritores de língua portuguesa de todos os tempos.</p>
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		<title>Um passeio pelos romances de Saramago</title>
		<link>http://www.metro.org.br/maria/um-passeio-pelos-romances-de-saramago</link>
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		<pubDate>Tue, 11 Aug 2009 17:26:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maria de Lourdes Utsch Moreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica Literária]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Tranqüilamente ateu, confessa Saramago inúmeras vezes. Que ele seja ateu, acredita-se, porém, tranqüilo não. Há uma pendência não resolvida entre ele e Deus. O Deus que ele “persegue” é o Deus que foi herdado do Velho Testamento e adotado pelos cristãos. Um Deus menos severo e mais oculto nas relações humanas. Os seguidores de Jesus espalharam-se pelo mundo ocidental. Muitos esqueceram pelos caminhos o essencial da doutrina de Cristo. Instalaram-se em Roma. Foram se organizando, sistematizando-se com a ajuda de alguns teólogos e filósofos. São Tomás de Aquino, por exemplo. Durante vinte séculos a Igreja Católica acumulou erros, a infalibilidade papal, deu azo a que houvesse papas e Papas, criadores de dogmas, responsáveis pelos célebres desvios, como as Cruzadas e o Santo Ofício. Essa face vulnerável do catolicismo é que José Saramago atinge e, por extensão, o Deus dos católicos. Ridiculariza-os com ironia implacável, que é um de seus grandes trunfos. O “Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991) é um livro polêmico. Bateu de frente com o Vaticano e com o catolicismo conservador dos portugueses. Provocou mudanças. O subsecretário de cultura do governo vetou a candidatura deste livro ao Prêmio Literário Europeu. Magoadíssimo, deixou Portugal, “Lisboa, o Tejo e tudo”, indo viver na Ilha de Lanzarote, nas Canárias, território espanhol onde não corre um fio de água doce. Em decorrência ou não destes acontecimentos, Saramago vem mudando a temática dos romances posteriores ao Evangelho. Os primeiros romances têm Portugal, sua história, seus homens, as paisagens, o espaço, enfim, enaltecendo ou mesmo criticando a gente lusitana. “Manual de Pintura e Caligrafia”(1977), pouco divulgado e conhecido, é quase uma autobiografia. Sua importância para os estudiosos da obra de Saramago é irrefutável. Assim o reconhece a mestra Maria Alzira Seixo: “Manual é o cadinho de elaboração de todas as tendências pré-ficcionais de Saramago e daí sua grande importância e originalidade na consideração evolutiva da sua obra.”. “Levantado do Chão” (1980) é a saga de várias gerações da mesma família alentejana: Mau Tempo. Faz um painel social, político e cultural, com todos os pormenores, denunciando a opressão, as torturas da ditadura salazarista, a omissão, a conivência da Igreja Católica. O padre Agamedes é um exemplar perfeito: “O vosso reino não é deste mundo, padecei para ganhardes o Céu.” A construção do Convento de Mafra é o tema do romance “Memorial do Convento” (1982). Dom João V, rei de Portugal, século XVIII, fez a promessa de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-973 aligncenter" title="Saramago" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2009/08/image0011.jpg" alt="Um passeio pelos romances de Saramago" width="500" height="487" /></p>
<p>Tranqüilamente ateu, confessa Saramago inúmeras vezes. Que ele seja ateu, acredita-se, porém, tranqüilo não. Há uma pendência não resolvida entre ele e Deus. O Deus que ele “persegue” é o Deus que foi herdado do Velho Testamento e adotado pelos cristãos. Um Deus menos severo e mais oculto nas relações humanas. Os seguidores de Jesus espalharam-se pelo mundo ocidental. Muitos esqueceram pelos caminhos o essencial da doutrina de Cristo. Instalaram-se em Roma. Foram se organizando, sistematizando-se com a ajuda de alguns teólogos e filósofos. São Tomás de Aquino, por exemplo.</p>
<p>Durante vinte séculos a Igreja Católica acumulou erros, a infalibilidade papal, deu azo a que houvesse papas e Papas, criadores de dogmas, responsáveis pelos célebres desvios, como as Cruzadas e o Santo Ofício. Essa face vulnerável do catolicismo é que José Saramago atinge e, por extensão, o Deus dos católicos. Ridiculariza-os com ironia implacável, que é um de seus grandes trunfos.</p>
<p>O “Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991) é um livro polêmico. Bateu de frente com o Vaticano e com o catolicismo conservador dos portugueses. Provocou mudanças. O subsecretário de cultura do governo vetou a candidatura deste livro ao Prêmio Literário Europeu. Magoadíssimo, deixou Portugal, “Lisboa, o Tejo e tudo”, indo viver na Ilha de Lanzarote, nas Canárias, território espanhol onde não corre um fio de água doce.</p>
<p>Em decorrência ou não destes acontecimentos, Saramago vem mudando a temática dos romances posteriores ao Evangelho. Os primeiros romances têm Portugal, sua história, seus homens, as paisagens, o espaço, enfim, enaltecendo ou mesmo criticando a gente lusitana.</p>
<p>“Manual de Pintura e Caligrafia”(1977), pouco divulgado e conhecido, é quase uma autobiografia. Sua importância para os estudiosos da obra de Saramago é irrefutável. Assim o reconhece a mestra Maria Alzira Seixo: “Manual é o cadinho de elaboração de todas as tendências pré-ficcionais de Saramago e daí sua grande importância e originalidade na consideração evolutiva da sua obra.”.</p>
<p>“Levantado do Chão” (1980) é a saga de várias gerações da mesma família alentejana: Mau Tempo. Faz um painel social, político e cultural, com todos os pormenores, denunciando a opressão, as torturas da ditadura salazarista, a omissão, a conivência da Igreja Católica. O padre Agamedes é um exemplar perfeito: “O vosso reino não é deste mundo, padecei para ganhardes o Céu.”</p>
<p>A construção do Convento de Mafra é o tema do romance “Memorial do Convento” (1982). Dom João V, rei de Portugal, século XVIII, fez a promessa de construir uma basílica se tivesse um filho herdeiro do trono. Mas quem pagou a promessa foram os trabalhadores pobres e miseráveis. Saramago vai buscá-los na história para os imortalizar. Dá-lhes destaque especial às lutas e tormentas que enfrentaram, organiza uma lista dos prováveis nomes deles, como uma lápide tardia.</p>
<p>“O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984) começa com a chegada a Lisboa de Ricardo Reis, que se tornou personagem de Saramago sendo na realidade um dos <a title="heterônimos" class="a" href="http://www.pessoa.art.br/?p=563" target="_blank">heterônimos</a> usados pelo poeta Fernando Pessoa. Ricardo Reis regressa do Brasil. Mais uma vez, Lisboa é o lugar em que se desenrola o romance. Os passeios de Ricardo Reis, quase sempre à chuva (o autor gosta de expor seus personagens à chuva), pelas ruas, avenidas, parques, bairros, traçam um roteiro turístico. Ricardo sabe que Fernando Pessoa já morreu. Os encontros dos dois poetas ocorrem freqüentemente, como se ambos fossem vivos. A intertextualidade dos versos de ambos e as citações de Camões dão aos textos uma densidade poética muito grande.</p>
<p>“A Jangada de Pedra” (1986) – a Península Ibérica desprende-se dos Pirineus, como um barco vai pelo Atlântico afora. Os motivos dessa ruptura simbólica, imaginada por Saramago, são um protesto contra o isolamento, o sentimento de inferioridade frente aos outros países europeus, a discordância da entrada de Portugal na União Européia. A Jangada de Pedra é um dos mais lindos romances que José Saramago escreveu.</p>
<p>“A História do Cerco de Lisboa” (1989) passa-se nos séculos passados e no presente simultaneamente. Assim nos encontramos no ano de 1147, quando aparece o rei Dom Afonso Henriques com seus cavaleiros, esperando o momento certo de atacar os mouros sitiados no Morro do Castelo. A estória acontece com personagens históricos e imaginários. O protagonista é o revisor Raimundo. Ele modifica uma frase de um livro de história, colocando um – Não – na frase que dizia que “os cruzados ajudaram os portugueses a expulsar os mouros”. Este procedimento trouxe-lhe muita contrariedade. “O gesto contrário de escrever – Não – tem efeitos na vida do revisor, e não no texto do historiador traído (…). E a grande alteração obtida por Saramago está na maneira de ler e refletir sobre a História Acreditada.” (Leyla Perrone Moisés ).</p>
<p>Talvez a mágoa seja o fator de mudança temática e de tornar indefinidos os espaços das suas fabulações. Nestes romances anteriores, Portugal era o lugar preferido. Isto pode indicar a universalidade que vem dando às suas obras recentes. Os romances publicados depois do “Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991) são referências a temas universais: “Todos os Nomes” (1997), “Ensaio Sobre a Cegueira” (1995), “Ensaio Sobre a Lucidez” (2004), “O Homem Duplicado” (2002), “A Caverna” (2000), “As Intermitências da Morte” (2005) – todos tratam de assuntos relacionados com a existência, a busca de identidade, a morte, a cegueira humana, Deus, o individualismo, a globalização, mudanças sociais, enfim, problemas de teor universal.</p>
<p>“A Viagem do Elefante” lançado em 2008, na Casa das Américas, em Madrid, traz de volta o Saramago de O Memorial do Convento ou da História do Cerco de Lisboa. Mais despojado, sem truques imaginários. Nada barroco. Menos retórico. Mantém os mesmos recursos formais, preservando a agudeza do humor e da ironia e as farpas contra a igreja Católica, seus padres, seus santos, seus dogmas.</p>
<p>A estória passa-se no reinado de D. João III, em 1551. O rei, em colóquio íntimo com a rainha Catarina d’Áustria, decide seguir a sugestão da mulher: oferecer o elefante, como presente de casamento ao arquiduque Maximiliano II, da Áustria. O paquiderme morava em Lisboa há dois anos. Veio de Goa, vivia sob os cuidados de um tratador indiano de nome Subhro. O elefante, de nome Salomão, pertencia ao rei. Após o deslumbramento do povo por aquele animal exótico, Salomão caiu no esquecimento e na solidão. Até que a rainha se lembrou dele. O arquiduque aceitou o presente e aguardava-o na Espanha. Em Lisboa começa a viagem cujo roteiro inclui Espanha, França, Itália, Áustria (Viena). Vão em cortejo com todas as provisões indispensáveis. Em Valadolid o arquiduque associou-se ao grupo. Salomão suportou as intempéries climáticas e outras. Representou bem o seu papel com galhardia que tornou-se em leveza o peso de quatro toneladas. Houve até quem o chamasse de meigo e fofinho. Saramago dá-lhe um banho de linguagem poética.</p>
<p>A magia, o maravilhoso dos textos, o emprego recorrente de determinados nomes, tornaram-se emblemáticos: a pedra, as mãos, a terra, a chuva, a oliveira, o rio, o cão, a viagem, os olhos, a sombra, o céu.</p>
<p>Contamos, aproximadamente, mais de setecentas vezes o emprego da palavra céu. Há duas referências: ao céu comum, o firmamento que nos cobre, e ao céu como morada de Deus. O autor fala de todos os dois, mas o céu dos católicos é tratado com toda a ironia. “O céu estava nublado por igual, como um gorro de lã suja, ao senhor não devia ser fácil perceber do alto o que andam fazendo as suas ovelhas.”</p>
<p>Onde termina a nossa visão do céu começa o infinito. Sem levar o assunto para a Filosofia, sentimos que o céu no texto de José Saramago permite que se tirem várias conotações: espiritualidade, esteticismo, transcendência, misticismo. Quem sabe, nesses domínios da emoção o escritor encontre o Sagrado?</p>
<p>Embora diga que não há algo inquietante em seu espírito, Saramago põe em causa a relação do homem com Deus.</p>
<p>A malquerença não é com o problema da existência de Deus. A animosidade de Saramago é com o Deus que o catecismo católico nos ensinou, enchendo-nos de culpa e de medo, cuja face desumana reflete-se no catolicismo em determinadas pessoas, épocas e lugares. Essa agressividade manifesta-se como um dos componentes do seu humanismo. “Para ser ateu como eu sou deve ser preciso um alto grau de religiosidade.” Religiosidade que inclui o ser humano. Apesar de seu pessimismo pela humanidade contemporânea, não descarta o homem do centro de suas atenções. “Sem o homem a vida pára.”</p>
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