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Publicado por Bill Braga
Não há mais o que dizer da monótona monotonia dos dias de cárcere nesta clínica. Nem mais o violão, nem mesmo ter conhecido Fernanda, nada aplaca a dor de estar… Porque não é a dor de ser ou de existir, mas a dor de não poder ser plenamente, de existir como uma ave, com asas cortadas e correntes prendendo as patas. Sem falar nas grades da gaiola que evitam qualquer mínima tentativa de voar. A Pinel é minha gai...
Publicado por Bill Braga
Abro meus olhos e, mais uma vez a cena se repete: Valéria deitada na cama ao meu lado, eu no chão, o mesmo quarto, a mesma TV, as mesmas portas. Como eram iguais aqueles dias, que teimavam em não passar, dentro da clínica-prisão. Já não agüentava mais a monotonia, a mesmice. Ainda mais que eu tinha saído, tinha respirado os ares da liberdade por pouco tempo, até me trancafiarem novamente. Tinha flanado pelas ruas...
Publicado por Bill Braga
Aqui, na Pinel, os dias são quase sempre iguais, apesar de todas loucuras possíveis e impossíveis estarem reunidas em um mesmo lugar. Normalmente acordo em meu colchão no chão, para evitar as terríveis dores de coluna. Olho para cima e ao lado está: ou a melancólica Valéria, ou a carinhosa Sandra, companheiras que se revezam em velar meus sonhos noturnos. Rapidamente colocamos meu colchão na cama, antes que o Sr. Luc...
Publicado por Bill Braga
Ao passo que conto da chegada na Pinel, ainda me encontro cativo nesta simpática clínica. Em meio a Sandras, Valérias, Daniéis, Moniques, Fernandas, e tantos outros companheiros de jornada. Uns que se foram, outros que ficam. E eu que já estive do lado de fora, voltei, e não sei quando sairei novamente. Só me resta escrever, é a única forma de não deixar adormecer o potencial revolucionário dentro de mim, minha resi...
Publicado por Bill Braga
Apagar e acordar. Acender e desligar. Lembrar e esquecer. Lembrar é esquecer. Nessa dialética entrei desde aquela primeira internação, na clínica Santa Maria. Drogado pelos anti-psicóticos e tranqüilizantes mais pesados, era nessa corda bamba que passaria a viver. E assim se teciam minha lembranças e esquecimentos, meus sentimentos e minhas paixões, meus conflitos e meus tesões. Ainda hoje, na Pinel, uma confusão me...
Publicado por Bill Braga
Realmente não sei mais o que fazer. Preciso sair, preciso ver o mundo. As conversas não mudam de tom, ficam no mesmo tom e eu sem perspectivas de sair. Porque não dão o braço a torcer, porque não me libertam? Talvez porque eu já tenha saído antes. Me lembro que saí. Lembro da sensação de passar por aquela porta de ferro, ver as árvores lá fora, os carros passando, gente. A primeira respirada, do ar da liberdade en...
Publicado por Bill Braga
Como venho lhes dizendo, eu estava tentando aprender a jogar. A melhor forma de resistência é a pacífica, já ensinava Gandhi. Aqui, dentro da Pinel, só preciso entrar no jogo quando converso com o Dr. Lucas. Os enfermeiros e enfermeiras já entraram no meu jogo. Com o violão, conquistei meus colegas. Sinto-me um líder aqui dentro. Todos vêm para o meu quarto, todos me contam suas angústias. Talvez eu os ajude mais que...
Publicado por Bill Braga
Sobre médicos e loucos, ou talvez médicos-loucos, digo uma coisa: é tudo uma questão de representação. Hoje entendendo isso, e por mais que ainda permaneça encarcerado, entendi que tenho que jogar o jogo, para sair. Temos que entrar nele para modificá-lo, para invertê-lo para expor cruamente nossa razão única, nossa visão de mundo diferenciada. Definitivamente eles, homens de branco, familiares, não estão prontos...