Arquivo do Autor

A moça do lotação

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 26/04/2018

Todo dia espera que ela esteja no ponto e suba os degraus do coletivo Àquela hora a luz da alvorada nascente junto às fracas luzes dos postes mal consegue espantar a escuridão Vê a moça que se aproxima no rosto ainda marcas do sono precocemente interrompido Com o ônibus rodando ela procura se equilibrar com dificuldade na passarela instável Aproxima-se da catraca abre a bolsa entrega-lhe as moedas Neste momento suas mã...

Desistências

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 03/04/2018

eu e minha mãe fomos ao campo onde fica a lápide sob a qual repousam meus pai e irmão tempo nublado frio ela em roupas escuras luto que nunca termina na face envelhecida marcas de sofrimentos vida desabitada de sonhos observo-a desconfio de seu desejo de enfim desfazer-se de uma fadiga insolúvel precipitado afirmar no entanto ou supor ser ela a primeira a ir ao encontro dos que ali jazem — talvez eu me mate talvez sa...

Último registro

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 14/03/2018

A Poesia? Desceu a rua virou a esquina, seguiu pelo beco entrou no boteco onde numa vitrola gemiam boleros de incandescentes paixões Era madrugada e o sol não demoraria a raiar Um homem, ao balcão com cicatrizes na face na mesa ao lado mulher fumando coxas acariciadas pelo companheiro Pediu uma dose depois outra por ali ficou absorta tomada pelas canções que acendiam em sua memória estilhaços de um tempo ido Ao surgir o...

O vos omnes

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 08/03/2018

Quem é a Verônica? É Vera, que outro dia caminhava na biblioteca em meio às estantes à procura de um livro? Seria aquela moça agora a emitir seu canto triste que escorre pelas ladeiras rumo às campas nas encostas? O vos omnes qui transitis per viam Um véu cobrindo o rosto vestes agitadas ao vento escondendo o corpo esguio braços erguidos aos céus Quem é Verônica, digam-me que nos concita ao remorso de o Outro conde...

Ora bolas

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 28/02/2018

Todo caminho é inútil Se o não traçarmos Todo grito é inútil Se o não gritarmos Todo amor é inútil Se o não louvarmos O milagre só acontece Se como Tomé duvidarmos Todo ódio não se sustenta Se não nos atrevermos a tê-lo Compartilhar este Artigo

Uma casa sem livros

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 01/02/2018

Na casa sem livros um arco-íris não se mostra na janela nem um rio desliza na sala sob a mesa Começa a manhã quando nem se encontra o canto do pássaro O riso no quarto e as molecagens das crianças se contêm Ao café, ao almoço não tem o Seu Moço com olhos cismarentos de uma noite mal dormida O avô conta casos que ninguém ouve garotos não querem brincar à sombra da mangueira numa tarde sem cigarras A mocinha não ...

Senectus

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 24/01/2018

Cabelos brancos, escassos rugas, pele manchada presbiopia ou catarata? dentes amarelados dores ósseas, articulares sono irregular palpitações e dores no peito que bom prenúncio não são Como aconselhou Bandeira seria o caso de se tocar um tango argentino ou melhor seria – como pontuou Pagodinho em tempos recentes - deixar a vida nos levar? De minha parte, opto por um chorinho rasgado sem ficar olhando muito pela janela ...

Cenas de um casamento

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 10/01/2018

como num filme de bergman vejo-a em branco e preto contra a paisagem que se dilui em cinza braços cruzados, está ora de lado (seu perfil delicado desenha-se contra o écran da manhã invernosa) ora de frente, olhos de liv ullman que me interrogam com desaponto cobrando-me entregas não consumadas como num filme de bergman caminhamos na praia pedregosa evitando discutir promessas descumpridas seguro sua mão por instantes qua...