Arquivo do Autor

Viagens fragmentadas

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 17/09/2018

Logo que chegou ao porto arriou âncora, dispensou-me e contratou outro marinheiro. Preciso de homens robustos - disse-me. Voltou a partir; acompanhei o barco até que sumiu no horizonte. Neste lugarejo permanecerei vivendo de ajudas fortuitas, pequenos trabalhos e pescarias. Daqui não arredarei pé. Semana após semana, como estaca no cais, esperando seu retorno. Sei que a qualquer instante o barco de novo acostará e então...

Com meu cão na noite escura

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 05/09/2018

Andando por esta estrada de terra numa noite estrelada rumo a lugar nenhum, eu e você, meu cão. Sigamos sempre juntos, vivamos esta noite que - de certa forma intuímos - poderá não se repetir. Veja contra as colinas como se desdobra o firmamento, veja como as estrelas vicejam qual se fora um imenso canteiro de brilhantes margaridas. Não sabemos, nem eu, muito menos você, o que estamos a deixar para trás. Adianta relemb...

Chegou a hora de partir!

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 26/08/2018

Onde não sei hão de arriar suas mochilas no bosque à beira do riacho à sombra de um ipê florido à entrada de uma caverna Chegou a hora de partir! Caminhando rumo ao horizonte no altiplano sob a sombra fugidia das nuvens que acima perambulam Chegou a hora de partir! Surgem matagais pássaros, buritizeiros, chuva o arco-íris, um diadema sobre seus corações juvenis indômitas fibras pulsantes Chegou a hora de partir! Mã...

Desafio

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 08/08/2018

Num ato de impulso pede-me cortemos os pulsos. Faço-me de surdo tergiverso, desconverso tento mudar de assunto. Sei que me examina enquanto me fita expondo a lâmina. Os olhos de um castanho vívido contrastam com seus lábios lívidos. Ante minha tibieza sei que se pergunta: onde a paixão, as certezas? Segura de si mesma perfaz súbito o corte tendo o braço sobre a mesa. O sangue num fio contínuo escorre até a toalha ond...

Catador de imagens

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 30/07/2018

A moça assentada no ponto do ônibus na manhã de uma segunda-feira qualquer Arco de lua crescente no meio dos edifícios Um ponto de interrogação ao final da frase que se supunha viria com promessas certas. A mão que se antecipa Mostra-se em oferenda O jardim – a igreja tendo ao fundo o céu que foge rumo a meteoros que fogem para os confins do universo num quadro de Van Gogh. Contra o muro a cena de um gato a correr fr...

E fez-se o caos

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 19/07/2018

Diverte-se no Paraíso em sua pureza original nua, sem se notar nua a pele reverberando a luz na iridescência de um cristal os músculos se estendendo em harmonioso moto contínuo dando forma a uma escultura que um dia Rodin revelará Anda descuidada em meio aos vergéis onde outras criaturas já existiam Na estrato vegetal, flores, gramíneas, matas acima o arco-íris tracejando o céu e um amplo universo em derredor viceja ...

Um homem quase triste

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 28/06/2018

Não sabíamos de onde vinha nem para onde ia Era um senhor quase mudo era um senhor quase triste Meu pai dizia, quando chegava - Venha, senta à mesa Minha mãe ia às panelas um bom prato lhe provia Uma vez trouxe para mim uma pedra de cristal noutra um cachorrinho a que dei nome de Capucho Sempre com muita fome sentava-se sem palavras comia pausadamente a cabeça grisalha inclinada Arribava em diferentes horas vindo dos con...

Não se aflija

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 01/06/2018

Não se aflijaNão se aflija, meu nego, estou aqui.Não se humilhe. Você é um homem bom: bom pai, bom companheiro. Não se aflija.Ainda que se sinta o último dos homens, acabado, fraco, doente.Sei, não é fácil vencer esta maré, esta força que o derrota.Mas vamos levantar a cabeça. Não, não chore. Olha que as crianças – que o admiram - estão por perto e acabarão por também chorar.O dia todo andou por esta c...