Arquivo do Autor

E fez-se o caos

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 19/07/2018

Diverte-se no Paraíso em sua pureza original nua, sem se notar nua a pele reverberando a luz na iridescência de um cristal os músculos se estendendo em harmonioso moto contínuo dando forma a uma escultura que um dia Rodin revelará Anda descuidada em meio aos vergéis onde outras criaturas já existiam Na estrato vegetal, flores, gramíneas, matas acima o arco-íris tracejando o céu e um amplo universo em derredor viceja ...

Um homem quase triste

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 28/06/2018

Não sabíamos de onde vinha nem para onde ia Era um senhor quase mudo era um senhor quase triste Meu pai dizia, quando chegava - Venha, senta à mesa Minha mãe ia às panelas um bom prato lhe provia Uma vez trouxe para mim uma pedra de cristal noutra um cachorrinho a que dei nome de Capucho Sempre com muita fome sentava-se sem palavras comia pausadamente a cabeça grisalha inclinada Arribava em diferentes horas vindo dos con...

Não se aflija

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 01/06/2018

Não se aflijaNão se aflija, meu nego, estou aqui.Não se humilhe. Você é um homem bom: bom pai, bom companheiro. Não se aflija.Ainda que se sinta o último dos homens, acabado, fraco, doente.Sei, não é fácil vencer esta maré, esta força que o derrota.Mas vamos levantar a cabeça. Não, não chore. Olha que as crianças – que o admiram - estão por perto e acabarão por também chorar.O dia todo andou por esta c...

Carta a Van Gogh

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 08/05/2018

Para minha irmã Dulciméia Em algum lugar, em uma de suas cartas, Van Gogh, você escreveu, certamente para seu querido irmão Theo: “o Mediterrâneo tem uma cor igual à das cavalas, ou seja, mutante; nunca se sabe se é verde ou violeta, nunca se sabe se é azul…” E ainda: “O céu de um azul profundo estava salpicado por nuvens de um azul ainda mais profundo que o azul fundamental de um cobalto intenso, e por ou...

A moça do lotação

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 26/04/2018

Todo dia espera que ela esteja no ponto e suba os degraus do coletivo Àquela hora a luz da alvorada nascente junto às fracas luzes dos postes mal consegue espantar a escuridão Vê a moça que se aproxima no rosto ainda marcas do sono precocemente interrompido Com o ônibus rodando ela procura se equilibrar com dificuldade na passarela instável Aproxima-se da catraca abre a bolsa entrega-lhe as moedas Neste momento suas mã...

Desistências

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 03/04/2018

eu e minha mãe fomos ao campo onde fica a lápide sob a qual repousam meus pai e irmão tempo nublado frio ela em roupas escuras luto que nunca termina na face envelhecida marcas de sofrimentos vida desabitada de sonhos observo-a desconfio de seu desejo de enfim desfazer-se de uma fadiga insolúvel precipitado afirmar no entanto ou supor ser ela a primeira a ir ao encontro dos que ali jazem — talvez eu me mate talvez sa...

Último registro

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 14/03/2018

A Poesia? Desceu a rua virou a esquina, seguiu pelo beco entrou no boteco onde numa vitrola gemiam boleros de incandescentes paixões Era madrugada e o sol não demoraria a raiar Um homem, ao balcão com cicatrizes na face na mesa ao lado mulher fumando coxas acariciadas pelo companheiro Pediu uma dose depois outra por ali ficou absorta tomada pelas canções que acendiam em sua memória estilhaços de um tempo ido Ao surgir o...

O vos omnes

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 08/03/2018

Quem é a Verônica? É Vera, que outro dia caminhava na biblioteca em meio às estantes à procura de um livro? Seria aquela moça agora a emitir seu canto triste que escorre pelas ladeiras rumo às campas nas encostas? O vos omnes qui transitis per viam Um véu cobrindo o rosto vestes agitadas ao vento escondendo o corpo esguio braços erguidos aos céus Quem é Verônica, digam-me que nos concita ao remorso de o Outro conde...