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O que vejo

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 13/11/2018

Por mais que em sua plenitude Se instale a Primavera À minha volta Pontificam os arautos do monetarismo Por mais que a Lua flutue no ar Com indescritível beleza e sedução Vejo que à minha volta Mais atrai olhares a televisão Por mais que no jardim O tenro broto da Democracia viceje Vejo à minha volta os que se uniformizam E armas exibem à cintura Por mais que a alvorada Transpasse as janelas, imprima-se nas paredes Vej...

Doação

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 29/10/2018

Hoje ouvi a mulher dizer que quer doar um rim à irmã que tem insuficiência renal e está em hemodiálise - Ela tem uma filha… A mulher que pretende doar também tem um filho mas isto não impede seu intento Quantos irmãos tem você? – perguntei. - Quatro disse ela mas nenhum se manifesta nenhum Aquela mulher negra que por certo muito penou tanto deve ter sido menosprezada e que ainda assim capaz é de tanta gen...

A praça não é do povo

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 15/10/2018

Na Praça dos Três Poderes o Brasil não se assiste; na Praça dos Três Poderes a Pátria será que existe? Lá, a democracia rasteira, cega, circo de vaidades, criação esdrúxula, estreita, de oligarquias arcaicas. Na Praça dos Três Poderes, o que faz a Justiça, um executivo sem freios, uma Assembleia cediça? Ao Povo, só dividendos, impostos a mãos cheias, sementes lançadas ao vento no plantio sem colheitas. Tempos...

O noivo de Ordália

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 08/10/2018

Depois que terminou com Ordália Amaro ficou a se interrogar: - Por quê terminei com Ordália? Culpou o vento que lhe levantou a saia quando subia as escadas do Colégio e deixou os colegas extasiados ante a solidez de suas pernas colunas de inspirado escultor Culpou janeiro quando ela fez as malas rumando para a praia Quando voltou, era toda Gabriela urdindo feitiços e cheiros com sua nova cor de canela Mas, acima de tudo d...

Viagens fragmentadas

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 17/09/2018

Logo que chegou ao porto arriou âncora, dispensou-me e contratou outro marinheiro. Preciso de homens robustos - disse-me. Voltou a partir; acompanhei o barco até que sumiu no horizonte. Neste lugarejo permanecerei vivendo de ajudas fortuitas, pequenos trabalhos e pescarias. Daqui não arredarei pé. Semana após semana, como estaca no cais, esperando seu retorno. Sei que a qualquer instante o barco de novo acostará e então...

Com meu cão na noite escura

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 05/09/2018

Andando por esta estrada de terra numa noite estrelada rumo a lugar nenhum, eu e você, meu cão. Sigamos sempre juntos, vivamos esta noite que - de certa forma intuímos - poderá não se repetir. Veja contra as colinas como se desdobra o firmamento, veja como as estrelas vicejam qual se fora um imenso canteiro de brilhantes margaridas. Não sabemos, nem eu, muito menos você, o que estamos a deixar para trás. Adianta relemb...

Chegou a hora de partir!

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 26/08/2018

Onde não sei hão de arriar suas mochilas no bosque à beira do riacho à sombra de um ipê florido à entrada de uma caverna Chegou a hora de partir! Caminhando rumo ao horizonte no altiplano sob a sombra fugidia das nuvens que acima perambulam Chegou a hora de partir! Surgem matagais pássaros, buritizeiros, chuva o arco-íris, um diadema sobre seus corações juvenis indômitas fibras pulsantes Chegou a hora de partir! Mã...

Desafio

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 08/08/2018

Num ato de impulso pede-me cortemos os pulsos. Faço-me de surdo tergiverso, desconverso tento mudar de assunto. Sei que me examina enquanto me fita expondo a lâmina. Os olhos de um castanho vívido contrastam com seus lábios lívidos. Ante minha tibieza sei que se pergunta: onde a paixão, as certezas? Segura de si mesma perfaz súbito o corte tendo o braço sobre a mesa. O sangue num fio contínuo escorre até a toalha ond...