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	<title>Fundação Metropolitana &#187; Antonio Carlos Santini</title>
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	<description>Fundação Educacional e Cultural Metropolitana</description>
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		<title>O espinho no pé</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Jan 2012 18:06:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antonio Carlos Santini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Religião]]></category>

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		<description><![CDATA[É muita conhecida a estatueta grega do “Spinario”, genial trabalho de artista anônimo, datado do período helênico, Séc. I d.C.: um adolescente inteiramente dedicado ao trabalho de extrair um espinho do pé. Apenas um dedo é que foi ferido, mas todo o corpo reage e se debruça sobre o órgão vulnerado. A genialidade do artista consegue reproduzir as tensões musculares de todo o organismo, concentrado na tarefa de atender à necessidade de um órgão em particular. Seria difícil encontrar uma imagem mais realista daquilo que, na Igreja, chamamos de “comunhão dos santos”. Aquilo que atinge cada cristão atinge igualmente a todo o corpo eclesial. Vivemos &#8211; todos os batizados &#8211; envolvidos de modo inseparável em um processo de salvação e santificação que não deixa ninguém isolado. Por outro lado, o fato de não existir uma torre de marfim para o cristão deixa-nos todos expostos às sequelas do pecado de toda a comunidade eclesial. Comungamos na Graça, sim, mas, de certa forma, também comungamos no pecado. Cada escândalo verificado no corpo da Igreja atinge a todos os membros. A dor é uma só. A vergonha também. Ninguém pode dizer: este pecado não é meu. No mínimo, nós temos a responsabilidade de ter rezado menos, de ter dado um testemunho ralo, sem convicção. Preguiça, rotina, pouco caso, indiferença: pecadinhos nossos de cada dia&#8230; Ninguém negaria que os méritos de Jesus Cristo, da Mãe de Deus e da legião dos santos contribuíram para que a Graça da salvação atingisse a todos os nós. Da mesma forma, uma consciência reta não negaria que nosso pecado acaba resvalando sobre todo o pessoal da Igreja, escandalizando, desanimando, desiludindo&#8230; As imagens tradicionais dos membros de um só corpo (cf. textos paulinos – 1Cor 12,12ss, por exemplo) e dos ramos da videira (Jo 15) apenas confirmam esta verdade. Um galho doente contamina todo o arbusto. Um órgão inflamado infecta o organismo todo. Ninguém pode proclamar-se isento desse contágio. O fecho desta reflexão aponta claramente para nossa responsabilidade individual sobre a vida da Igreja. Se a Igreja não é melhor, é porque nós não somos melhores. Parece, pois, que não tenho nenhum direito de reclamar das falhas e pecados cometidos por meus irmãos de fé&#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2012/01/espinho-no-pe.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6567" title="espinho no pe" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2012/01/espinho-no-pe.jpg" alt="" width="266" height="400" /></a></p>
<p>É muita conhecida a estatueta grega do “<em>Spinario</em>”, genial trabalho de artista anônimo, datado do período helênico, Séc. I d.C.: um adolescente inteiramente dedicado ao trabalho de extrair um espinho do pé. Apenas um dedo é que foi ferido, mas todo o corpo reage e se debruça sobre o órgão vulnerado. A genialidade do artista consegue reproduzir as tensões musculares de todo o organismo, concentrado na tarefa de atender à necessidade de um órgão em particular.</p>
<p>Seria difícil encontrar uma imagem mais realista daquilo que, na Igreja, chamamos de “comunhão dos santos”. Aquilo que atinge cada cristão atinge igualmente a todo o corpo eclesial. Vivemos &#8211; todos os batizados &#8211; envolvidos de modo inseparável em um processo de salvação e santificação que não deixa ninguém isolado.</p>
<p>Por outro lado, o fato de não existir uma torre de marfim para o cristão deixa-nos todos expostos às sequelas do pecado de toda a comunidade eclesial. Comungamos na Graça, sim, mas, de certa forma, também comungamos no pecado. Cada escândalo verificado no corpo da Igreja atinge a todos os membros. A dor é uma só. A vergonha também. Ninguém pode dizer: este pecado não é meu. No mínimo, nós temos a responsabilidade de ter rezado menos, de ter dado um testemunho ralo, sem convicção. Preguiça, rotina, pouco caso, indiferença: pecadinhos nossos de cada dia&#8230;</p>
<p>Ninguém negaria que os méritos de Jesus Cristo, da Mãe de Deus e da legião dos santos contribuíram para que a Graça da salvação atingisse a todos os nós. Da mesma forma, uma consciência reta não negaria que nosso pecado acaba resvalando sobre todo o pessoal da Igreja, escandalizando, desanimando, desiludindo&#8230;</p>
<p>As imagens tradicionais dos membros de um só corpo (cf. textos paulinos – <em>1Cor</em> 12,12ss, por exemplo) e dos ramos da videira (<em>Jo</em> 15) apenas confirmam esta verdade. Um galho doente contamina todo o arbusto. Um órgão inflamado infecta o organismo todo. Ninguém pode proclamar-se isento desse contágio.</p>
<p>O fecho desta reflexão aponta claramente para nossa responsabilidade individual sobre a vida da Igreja. Se a Igreja não é melhor, é porque nós não somos melhores. Parece, pois, que não tenho nenhum direito de reclamar das falhas e pecados cometidos por meus irmãos de fé&#8230;</p>
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		<title>Igreja: a ferida aberta</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Dec 2011 17:35:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antonio Carlos Santini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Religião]]></category>

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		<description><![CDATA[A Igreja é um corpo. Tem vida e pulsação. Mas pode ser ferido e sangrar&#8230; O livro de Giovanni Cucci e Hans Zollner, Igreja e pedofilia, Uma ferida aberta, Edições Loyola, 2011, 126 páginas, apresenta de forma sucinta e objetiva uma abordagem do tema sob os ângulos da psicologia e da pastoral. Sua intenção é oferecer uma visão mais realista da situação que, via de regra, aparece na mídia envolta em uma nuvem de escândalo e confusão, sem ir ao cerne da questão. As perguntas do cidadão comum parecem ser sempre as mesmas: como é que uma pessoa que se consagrou a Deus e ao serviço da Igreja chega a cometer crimes tão graves? Existe uma dinâmica psíquica por trás desse comportamento? Até onde chega a responsabilidade das autoridades da Igreja? Os autores não falam de modo teórico. Sua formação e experiência em psicoterapia dão a seu trabalho um peso considerável. Com o objetivo de ir além do alvoroço midiático, começam por perguntar se o DSM, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, teve razões para eliminar o termo &#8220;perversão&#8221; da lista de desvios de comportamento humano, sob a alegação de evitar conotação &#8220;moral&#8221; a um trabalho científico. Um ponto importante do estudo diz respeito à verdade das estatísticas. Alguns exemplos. Na Arquidiocese de Boston, EUA, nos últimos 50 anos, trabalharam cerca de 3.000 sacerdotes. Destes, 60 padres foram acusados de abuso sexual, o que dá um percentual de 2%. Na Arquidiocese de Filadélfia, desde 1950, prestaram serviço 2.154 sacerdotes. Foram apresentadas &#8220;provas confiáveis&#8221; contra 35 deles, ou seja, 1,4%. Na Arquidiocese de Chicago, foram apresentadas queixas contra 40 padres em um total de 2.200 em serviço pastoral: apenas 1,8% deles, página 26. Outro desvio do noticiário tem sido associar de modo causal a pedofilia no clero ao estilo de vida celibatário. A tese é esta: se os padres fossem casados, os desvios não aconteceriam. Ora, os dados da realidade desmentem a tese. Citando G. Merchesi, o livro informa que &#8220;a recorrência do fenômeno da pedofilia entre os &#8216;ministros do culto&#8217; nas comunidades protestantes dos EUA, mórmons, batistas, metodistas e episcopalianos, bem como entre ortodoxos, judeus e muçulmanos, estaria entre 3% e 5%, um dado alarmante, mas ainda inferior ao percentual da população adulta como um todo, onde o recurso à pedofilia giraria em torno de 8%&#8221;, página 39. Assim, vai transparecendo a evidência de que a própria sociedade está [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-6419" href="http://www.metro.org.br/antonio-carlos/igreja-a-ferida-aberta/ferida-aberta"><br />
<img class="aligncenter size-full wp-image-6419" title="ferida aberta" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2011/12/ferida-aberta.jpg" alt="" width="450" height="316" /></a></p>
<p>A Igreja é um corpo. Tem vida e pulsação. Mas pode ser ferido e sangrar&#8230;</p>
<p>O livro de Giovanni Cucci e Hans Zollner, <em>Igreja e pedofilia, Uma ferida aberta, </em>Edições Loyola, 2011, 126 páginas, apresenta de forma sucinta e objetiva uma abordagem do tema sob os ângulos da psicologia e da pastoral. Sua intenção é oferecer uma visão mais realista da situação que, via de regra, aparece na mídia envolta em uma nuvem de escândalo e confusão, sem ir ao cerne da questão.</p>
<p>As perguntas<strong> </strong>do cidadão comum parecem ser sempre as mesmas: como é que uma pessoa que se consagrou a Deus e ao serviço da Igreja chega a cometer crimes tão graves? Existe uma dinâmica psíquica por trás desse comportamento? Até onde chega a responsabilidade das autoridades da Igreja?</p>
<p>Os autores não falam de modo teórico. Sua formação e experiência em psicoterapia dão a seu trabalho um peso considerável. Com o objetivo de ir além do alvoroço midiático, começam por perguntar se o DSM, <em>Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, </em>teve razões para eliminar o termo &#8220;perversão&#8221; da lista de desvios de comportamento humano, sob a alegação de evitar conotação &#8220;moral&#8221; a um trabalho científico.</p>
<p>Um ponto importante do estudo diz respeito à verdade das estatísticas. Alguns exemplos. Na Arquidiocese de Boston, EUA, nos últimos 50 anos, trabalharam cerca de 3.000 sacerdotes. Destes, 60 padres foram acusados de abuso sexual, o que dá um percentual de 2%. Na Arquidiocese de Filadélfia, desde 1950, prestaram serviço 2.154 sacerdotes. Foram apresentadas &#8220;provas confiáveis&#8221; contra 35 deles, ou seja, 1,4%. Na Arquidiocese de Chicago, foram apresentadas queixas contra 40 padres em um total de 2.200 em serviço pastoral: apenas 1,8% deles, página 26.</p>
<p>Outro desvio do noticiário tem sido associar de modo causal a pedofilia no clero ao estilo de vida celibatário. A tese é esta: se os padres fossem casados, os desvios não aconteceriam. Ora, os dados da realidade desmentem a tese. Citando G. Merchesi, o livro informa que &#8220;a recorrência do fenômeno da pedofilia entre os &#8216;ministros do culto&#8217; nas comunidades protestantes dos EUA, mórmons, batistas, metodistas e episcopalianos, bem como entre ortodoxos, judeus e muçulmanos, estaria entre 3% e 5%, um dado alarmante, mas ainda inferior ao percentual da população adulta como um todo, onde o recurso à pedofilia giraria em torno de 8%&#8221;, página 39.</p>
<p>Assim, vai transparecendo a evidência de que a própria sociedade está pervertida, e tais desvios de conduta não são a marca registra de padres católicos e celibatários. Estamos vivendo uma cultura pedófila. Na Alemanha, por exemplo, Jan Carl Raspe, em seu <em>Kursbuch</em>, elogiou a Comune II, &#8220;onde os adultos incentivavam as crianças, apesar da resistência delas, a tentativas de relações sexuais. Entre os <em>Grüne</em>, ou Verdes, em 1985, houve a solicitação de descriminalizar o sexo com as crianças e, em l989, a célebre casa editora Deutscher Ärtzverlag publicou um livro que pedia abertamente que fossem permitidos os contatos pedossexuais&#8221;, página 48.</p>
<p>Na terceira parte do livro, trata-se da formação integral dos candidatos ao sacerdócio católico, com a busca de Deus, a necessária maturidade afetiva, o amor oblativo e a renúncia. E vem à luz o fato de que, hoje, os candidatos ao sacerdócio já não são privilegiados por um ambiente familiar onde sejam vivenciadas a religiosidade e a vida sacramental.</p>
<p>Na quarta parte, os autores realçam a importância do formador na seleção e discernimento, <em>screening,</em> dos jovens que se apresentam como candidatos. De fato, a má qualidade de muitos seminários e as falhas cometidas pelos formadores estão na raiz de grande parte dos desvios posteriormente verificados no clero.</p>
<p>No Apêndice da obra, o leitor encontra a Carta Pastoral de Bento XVI aos católicos da Irlanda, onde foram verificados graves episódios no seio da comunidade católica. O texto fala de erros cometidos e lições aprendidas, de graves feridas e desafios à fé, de sofrimento humano e confiança traída, de dor e culpa, mas também de encorajamento e esperança, de propostas concretas e de oração.</p>
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		<title>Os donos da terra</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Nov 2011 14:12:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antonio Carlos Santini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas Culturais]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando o europeu desembarcou no litoral hoje dito brasileiro, nossos indígenas não tinham terra. Na verdade, os íncolas nem imaginavam que fosse possível “ter” um pedaço de terra. O território é que os “tinha”, envolvendo-os com suas magníficas oferendas e suas perigosas ameaças&#8230; O europeu, já no início do processo de capitalização, chegou a estas plagas com um documento oficial que dividia previamente a terra entre portugueses e espanhóis. Se não fosse para tomar posse do solo, jamais teriam arrostado a fúria do oceano. E o sinal inegável da posse era o gesto de “dar nome” à terra. Nomear é possuir. O pai dá nome ao filho. A criança dá nome a seu cachorrinho: o cão é meu! Terra de Santa Cruz&#8230; Para registrar a posse, produzimos mapas. O índio brasileiro não tinha mapas. Mesmo convivendo com rios e montanhas, planícies e igarapés, jamais lhe passara pela cabeça a ideia de gravar em uma casca de coqueiro a imagem de seu hinterland. Já o europeu estava disposto a pagar alto preço por alguma carta geográfica, por mais tosca e arbitrária que ela fosse, rascunhada pelos primeiros exploradores do mundo austral. Após a tomada de posse, bandeiras erguidas no alto do poste como testemunho da autoridade, marcava-se no mapa uma cruz: este pedaço é meu. O passo imediato consistia em erguer uma cerca para traçar limites entre o próprio e o alheio, ainda que o muro e a cerca fossem o símbolo da alienação, roubando da terra a sua liberdade. Dentro do espaço cercado, inexiste a liberdade. O boi está preso. As galinhas estão presas. O dono está preso à sua posse: ele é o posseiro, sem perceber que a posse o fazia possesso&#8230; Fora da cerca, o indígena continua sua vida nômade, errante por todos os quadrantes, coletando o coco e a goiaba, caçando paca e tatu, pescando dourado e pacu. Mas já não é tão livre quanto antes, pois a alta paliçada vedou-lhe o acesso às áreas possuídas. Seu cosmo encolheu. Já em pleno século XXI, andam discutindo o direito de os indígenas possuírem alguns alqueires de terra. Parece que não é bem isso que eles desejam. Lá no fundo da alma, eles devem sonhar com outro universo, onde Tupã é o único dono da terra, mas generoso como é, partilha todas as suas riquezas com as numerosas tribos que erram pelo espaço físico, seja qual for o desenho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-6038" href="http://www.metro.org.br/antonio-carlos/os-donos-da-terra/donos-da-terra"><img class="aligncenter size-medium wp-image-6038" title="donos da terra" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2011/11/donos-da-terra-293x400.jpg" alt="" width="293" height="400" /></a></p>
<p>Quando o europeu desembarcou no litoral hoje dito brasileiro, nossos indígenas não tinham terra. Na verdade, os íncolas nem imaginavam que fosse possível “ter” um pedaço de terra. O território é que os “tinha”, envolvendo-os com suas magníficas oferendas e suas perigosas ameaças&#8230;</p>
<p>O europeu, já no início do processo de capitalização, chegou a estas plagas com um documento oficial que dividia previamente a terra entre portugueses e espanhóis. Se não fosse para tomar posse do solo, jamais teriam arrostado a fúria do oceano. E o sinal inegável da posse era o gesto de “dar nome” à terra. Nomear é possuir. O pai dá nome ao filho. A criança dá nome a seu cachorrinho: o cão é meu! Terra de Santa Cruz&#8230;</p>
<p>Para registrar a posse, produzimos mapas. O índio brasileiro não tinha mapas. Mesmo convivendo com rios e montanhas, planícies e igarapés, jamais lhe passara pela cabeça a ideia de gravar em uma casca de coqueiro a imagem de seu <em>hinterland</em>. Já o europeu estava disposto a pagar alto preço por alguma carta geográfica, por mais tosca e arbitrária que ela fosse, rascunhada pelos primeiros exploradores do mundo austral.</p>
<p>Após a tomada de posse, bandeiras erguidas no alto do poste como testemunho da autoridade, marcava-se no mapa uma cruz: este pedaço é meu. O passo imediato consistia em erguer uma cerca para traçar limites entre o próprio e o alheio, ainda que o muro e a cerca fossem o símbolo da alienação, roubando da terra a sua liberdade.</p>
<p>Dentro do espaço cercado, inexiste a liberdade. O boi está preso. As galinhas estão presas. O dono está preso à sua posse: ele é o posseiro, sem perceber que a posse o fazia possesso&#8230;</p>
<p>Fora da cerca, o indígena continua sua vida nômade, errante por todos os quadrantes, coletando o coco e a goiaba, caçando paca e tatu, pescando dourado e pacu. Mas já não é tão livre quanto antes, pois a alta paliçada vedou-lhe o acesso às áreas possuídas. Seu cosmo encolheu.</p>
<p>Já em pleno século XXI, andam discutindo o direito de os indígenas possuírem alguns alqueires de terra. Parece que não é bem isso que eles desejam. Lá no fundo da alma, eles devem sonhar com outro universo, onde Tupã é o único dono da terra, mas generoso como é, partilha todas as suas riquezas com as numerosas tribos que erram pelo espaço físico, seja qual for o desenho de urucum que traçam no seu corpo.</p>
<p>No fim, todos morrem. Todos devem abrir mão da terra. E a terra, sempre amiga, esquece que foi sequestrada e abre seu colo para envolver no abraço o índio e o europeu&#8230;</p>
<p>E a liberdade revive.</p>
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		<title>Escravos do século XXI</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Jul 2011 16:29:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antonio Carlos Santini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>

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		<description><![CDATA[Nestes tempos bicudos de generalizado relativismo, chega-se ao ponto de afirmar que “cada um tem a sua verdade”. E não percebem que duas verdades opostas se desmentem. No mínimo, uma delas é mentira. Cecília Meireles sabia disso: “Ou se tem chuva e não se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva!” Apesar da lição poética de Cecília – que se dirigia às crianças para corrigir os adultos &#8211; sempre que escrevo algo de modo categórico, alguém reclama que estou tentando impor meu ponto de vista. Uma ofensa às liberdades democráticas. Na geléia geral do pensamento burguês, ser definido incomoda&#8230; Estive relendo um pensador da primeira metade do século XX, o belga Joseph Schrijvers, que fala exatamente sobre nossa propensão à vida escrava. Eis o que ele diz: “Quanto mais o homem se acredita livre, tanto mais ele obedece, ainda que o não perceba. Ele obedece à opinião, aos costumes, às ideias dominantes, à moda, às suas paixões, a suas necessidades reais ou fictícias, à sua imaginação e a seus caprichos. Ele obedece a seus patrões e mais ainda a seus subordinados; ele obedece a seus semelhantes, a suas maneiras, a seus exemplos, ao seu sorriso.” Não é curioso? Alguém sorri para mim e eu me sinto obrigado a sorrir também. Logo, obedeço&#8230; Prossegue Schrijvers: “Todo homem, quer queira, quer não, é sugestionado pelos livros que lê, as apreciações que ouve, as críticas que sofre, os elogios que procura. Assim, a maior parte dos homens, acreditando serem livres, não são mais que escravos”. Então, não existem homens livres? Existem, mas são raros. Um deles foi o filósofo Diógenes, que abriu mão de todos os seus bens e reservou-se apenas um barril sem fundo, que lhe servia de casa e vestuário, e um caneco para beber água. Certo dia, na praça, viu um moleque que se aproximou da fonte e bebeu na concha da mão. Diógenes pegou seu caneco e atirou-o bem longe: ainda não era tão livre quanto imaginava&#8230; Outra vez, Diógenes tomava sol à beira da estrada, quando passou o séquito de Alexandre Magno. Alguém alertou o Imperador para a presença do filósofo. Alexandre, que apreciava a filosofia, desceu do cavalo, aproximou-se e perguntou respeitosamente em que poderia servir a Diógenes. Este respondeu: “Saia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-5313" title="Escravos-do-século-XXI" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2011/07/Escravos-do-século-XXI.png" alt="" width="306" height="219" /></p>
<p>Nestes tempos bicudos de generalizado relativismo, chega-se ao ponto de afirmar que “cada um tem a sua verdade”. E não percebem que duas verdades opostas se desmentem. No mínimo, uma delas é mentira.</p>
<p>Cecília Meireles sabia disso: “<em><em>Ou se tem chuva e não se tem sol</em></em><strong><em>, </em></strong><em><em>ou se tem sol e não se tem chuva</em></em><strong><em>! </em></strong><em>Ou se calça a luva e não se põe o anel,</em><em> ou se põe o anel e não se calça a luva!</em>”</p>
<p>Apesar da lição poética de Cecília – que se dirigia às crianças para corrigir os adultos &#8211; sempre que escrevo algo de modo categórico, alguém reclama que estou tentando impor meu ponto de vista. Uma ofensa às liberdades democráticas. Na geléia geral do pensamento burguês, ser definido incomoda&#8230;</p>
<p>Estive relendo um pensador da primeira metade do século XX, o belga Joseph Schrijvers, que fala exatamente sobre nossa propensão à vida escrava. Eis o que ele diz:</p>
<p>“Quanto mais o homem se acredita livre, tanto mais ele obedece, ainda que o não perceba. Ele obedece à opinião, aos costumes, às ideias dominantes, à moda, às suas paixões, a suas necessidades reais ou fictícias, à sua imaginação e a seus caprichos. Ele obedece a seus patrões e mais ainda a seus subordinados; ele obedece a seus semelhantes, a suas maneiras, a seus exemplos, ao seu sorriso.”</p>
<p>Não é curioso? Alguém sorri para mim e eu me sinto obrigado a sorrir também. Logo, obedeço&#8230;</p>
<p>Prossegue Schrijvers: “Todo homem, quer queira, quer não, é sugestionado pelos livros que lê, as apreciações que ouve, as críticas que sofre, os elogios que procura. Assim, a maior parte dos homens, acreditando serem livres, não são mais que escravos”.</p>
<p>Então, não existem homens livres? Existem, mas são raros. Um deles foi o filósofo Diógenes, que abriu mão de todos os seus bens e reservou-se apenas um barril sem fundo, que lhe servia de casa e vestuário, e um caneco para beber água. Certo dia, na praça, viu um moleque que se aproximou da fonte e bebeu na concha da mão. Diógenes pegou seu caneco e atirou-o bem longe: ainda não era tão livre quanto imaginava&#8230;</p>
<p>Outra vez, Diógenes tomava sol à beira da estrada, quando passou o séquito de Alexandre Magno. Alguém alertou o Imperador para a presença do filósofo. Alexandre, que apreciava a filosofia, desceu do cavalo, aproximou-se e perguntou respeitosamente em que poderia servir a Diógenes. Este respondeu: “Saia da minha frente, que você está fazendo sombra em mim!”</p>
<p>Homens livres são raros. Um deles foi São Francisco de Assis, que dispensa comentários. E houve também uma admirável mulher do século XX, Madre Teresa de Calcutá, que deixou a segurança de seu colégio, toda cercada de menininhas cheirosas, para mergulhar nas favelas imundas de Calcutá, onde pôde servir aos mendigos, aos hansenianos e às crianças abandonadas. Em 25 anos, Madre Teresa arrebanharia cerca de 5000 seguidores em todo o planeta. Parece que a liberdade atrai as pessoas.</p>
<p>Claro, nós não fazemos o mesmo porque ainda somos escravos&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Quem tem medo de Deus?</title>
		<link>http://www.metro.org.br/antonio-carlos/quem-tem-medo-de-deus</link>
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		<pubDate>Tue, 28 Jun 2011 19:41:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antonio Carlos Santini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Religião]]></category>

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		<description><![CDATA[A intimidade intimida. Aproximar-se é correr riscos. Ficar à distância é sempre mais seguro do que arriscar um contato&#8230; Não foi sem motivos que tantas vezes tenhamos sentido medo de Deus. Desde os tempos de Júpiter Tonante até o Deus do Sinai, o povo temia e tremia diante das vulcânicas manifestações da divindade. E o ditado latino o confirma: “Procul a Iove, procul a fulmine!” [Longe de Júpiter, longe do raio!] Assim sendo, quanto mais longe, melhor&#8230; Ao longo dos meandros da Bíblia, quando os mensageiros divinos vão ao encontro dos homens, sempre assustados, o diálogo começa habitualmente por uma frase tranquilizadora: “Não temas! Não temais!” Foi assim com o velho Abraão (Gn 15,1). Foi assim com a Virgem de Nazaré (Lc 1,30). Foi assim com os sonolentos pastores de Belém (Lc 2,10). É curioso como os vocativos que iniciam nossas preces acabam por denunciar nossa intenção de permanecer à distância: Senhor (vocativo dos servos e escravos), Deus (genérico inofensivo), Deus Todo-poderoso (título que mantém o “Tu” divino em território seguro, bem acima das constelações e das nebulosas). No polo oposto, o Filho encarnado chamava a Deus de “Abbá”, o termo aramaico típico da fala infantil, que traduzimos ordinariamente por Pai, Papai, mas aceitaria alguma versão ainda mais ingênua e intimista: Papi, Painho, Paioco&#8230; Coisas da linguagem tatibitate que os meninos mais crescidos fazem questão de evitar para demonstrar sua independência e autonomia&#8230; Os mestres espirituais – com especial destaque para a esperta Teresinha de Lisieux – não se cansaram de nos apontar o caminho da “infância espiritual”, onde não cabe nenhum laivo de jansenismo e a humana miséria é simplesmente afogada no oceano da divina misericórdia&#8230; Os pequenos se alegram com essa informação. Mesmo entre religiosos e membros do clero, tenho percebido as frequentes reações de defesa quando se propõe uma atitude de intimidade com Deus. Salvo melhor juízo, trata-se de uma doença da afetividade, tantas vezes recalcada, quando tememos que a inundação do amor nos roube o controle da própria vida, a começar pelos sentimentos e emoções. Ora, a Aliança de Deus – a nova e eterna Aliança – com os homens foi finalizada em plena Paixão. Não admira, pois, que o poeta lírico tenha escrito as palavras da letra que cantamos distraidamente em nossas celebrações: “Um Deus apaixonado busca a mim e a ti&#8230;” Quando Deus começa a rondar nossos passos hesitantes, sentimo-nos ameaçados e preferimos fugir. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-5140" title="Quem-tem-medo-de-Deus" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2011/06/Quem-tem-medo-de-Deus.jpg" alt="" width="642" height="768" /></p>
<p>A intimidade intimida. Aproximar-se é correr riscos. Ficar à distância é sempre mais seguro do que arriscar um contato&#8230;</p>
<p>Não foi sem motivos que tantas vezes tenhamos sentido medo de Deus. Desde os tempos de Júpiter Tonante até o Deus do Sinai, o povo temia e tremia diante das vulcânicas manifestações da divindade. E o ditado latino o confirma: “<em>Procul a Iove, procul a fulmine!</em>” [Longe de Júpiter, longe do raio!] Assim sendo, quanto mais longe, melhor&#8230;</p>
<p>Ao longo dos meandros da Bíblia, quando os mensageiros divinos vão ao encontro dos homens, sempre assustados, o diálogo começa habitualmente por uma frase tranquilizadora: “Não temas! Não temais!” Foi assim com o velho Abraão (<em>Gn</em> 15,1). Foi assim com a Virgem de Nazaré (<em>Lc</em> 1,30). Foi assim com os sonolentos pastores de Belém (<em>Lc</em> 2,10).</p>
<p>É curioso como os vocativos que iniciam nossas preces acabam por denunciar nossa intenção de permanecer à distância: <em>Senhor</em> (vocativo dos servos e escravos), <em>Deus</em> (genérico inofensivo), <em>Deus Todo-poderoso</em> (título que mantém o “Tu” divino em território seguro, bem acima das constelações e das nebulosas).</p>
<p>No polo oposto, o Filho encarnado chamava a Deus de “<em>Abbá</em>”, o termo aramaico típico da fala infantil, que traduzimos ordinariamente por Pai, Papai, mas aceitaria alguma versão ainda mais ingênua e intimista: <em>Papi, Painho, Paioco</em>&#8230; Coisas da linguagem tatibitate que os meninos mais crescidos fazem questão de evitar para demonstrar sua independência e autonomia&#8230;</p>
<p>Os mestres espirituais – com especial destaque para a esperta Teresinha de Lisieux – não se cansaram de nos apontar o caminho da “infância espiritual”, onde não cabe nenhum laivo de jansenismo e a humana miséria é simplesmente afogada no oceano da divina misericórdia&#8230; Os pequenos se alegram com essa informação.</p>
<p>Mesmo entre religiosos e membros do clero, tenho percebido as frequentes reações de defesa quando se propõe uma atitude de intimidade com Deus. Salvo melhor juízo, trata-se de uma doença da afetividade, tantas vezes recalcada, quando tememos que a inundação do amor nos roube o controle da própria vida, a começar pelos sentimentos e emoções.</p>
<p>Ora, a Aliança de Deus – a nova e eterna Aliança – com os homens foi finalizada em plena Paixão. Não admira, pois, que o poeta lírico tenha escrito as palavras da letra que cantamos distraidamente em nossas celebrações: “Um Deus apaixonado busca a mim e a ti&#8230;”</p>
<p>Quando Deus começa a rondar nossos passos hesitantes, sentimo-nos ameaçados e preferimos fugir. Jonas no deserto, tememos qualquer interação mais íntima, sem títulos e sem máscaras. Isaías no Templo, só a brasa de um serafim chegará a acender uma paixão em nosso interior.</p>
<p>Definitivamente, a intimidade intimida&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O mundo é uma bola</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Jul 2010 20:15:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antonio Carlos Santini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Futebol]]></category>

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		<description><![CDATA[Entra em campo a seleção da Alemanha: de uniforme branco, para a alegria de bávaros e berlinenses, perfilam-se o turco Özil, o ganês Boateng, o tunisiano Khedira, o brasileiro Cacau e os poloneses Klose e Podolski. O orgulho nacional entra em transe. Viva a Alemanha! Deutschland übber alles! Do lado oposto, trajando o azul do céu refletido nas águas plácidas do Sena, a gloriosa seleção da França: ao som dos acordes da Marselhesa, cantam emocionados os cidadãos Cissé, da Costa do Marfim, Govou, do Benin, e o trio Evra, Sagna e Diarra, todos estes do Senegal. Le jour de gloire est arrivé! O Atlas humano quebra todas as lógicas e atropela a geografia clássica. Graças ao futebol, o mundo é hoje uma bola&#8230; É bem verdade que as coisas seriam diferentes sem aquele capítulo da História que costumam chamar de colonialismo. Se os navegadores europeus tivessem ficado em sua terra, no máximo a pescar em seus mares vizinhos, como o Mediterrâneo e o Mar do Norte, não veríamos hoje a contramaré multirracial. Mais: se não existissem as atuais desigualdades sociais e econômicas entre três ou quatro mundos diferentes, ninguém deixaria as savanas idílicas da África, pontilhadas de zebras e leões, para dar caneladas em meio ao fog de Wembley. Não pense o leitor que estou a queixar-me dos soluços da História. Ao contrário, saúdo com entusiasmo a hipótese (ou seria a iminência?) de um planeta unificado, em que as diferenças regionais sejam mantidas como saudosismo folclórico, mas os anseios de unidade transnacional superem os bairrismos e os ufanismos patológicos que, ao longo dos séculos, nos levaram a tantos conflitos desnecessários e causaram inimaginável derramamento de sangue. Afinal, nem mesmo nós, os brasileiros descendentes de Caramuru e Paraguaçu, podemos exigir um atestado de brasilidade. Meu sobrenome italiano seria o primeiro a desmentir essa tese. No sobrenome dos antigos presidentes do Brasil se misturam o checo [Kubitschek], o alemão [Geisel] e o português [Silva]. Nossas cidades não conseguem ocultar a nostalgia das terras do imigrante: Nova Trento, Nova Granada, Novo Hamburgo, onde Itália, Espanha e Alemanha se abraçam comovidas. Por tudo isso – e agora, sim, devo lamentar-me – chega às raias da insanidade o projeto de associar nacionalismo e Copa do Mundo, quando os restos de amor à Pátria são usados e abusados pelo marketing sem mais pudores, que não pensa em outra coisa exceto induzir ao consumo e conquistar a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-3382" title="image001" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/07/image00115-e1280520886322.jpg" alt="" width="480" height="234" /></p>
<p>Entra em campo a seleção da Alemanha: de uniforme branco, para a alegria de bávaros e berlinenses, perfilam-se o turco Özil, o ganês Boateng, o tunisiano Khedira, o brasileiro Cacau e os poloneses Klose e Podolski. O orgulho nacional entra em transe. Viva a Alemanha! <em>Deutschland übber alles!</em></p>
<p>Do lado oposto, trajando o azul do céu refletido nas águas plácidas do Sena, a gloriosa seleção da França: ao som dos acordes da Marselhesa, cantam emocionados os cidadãos Cissé, da Costa do Marfim, Govou, do Benin, e o trio Evra, Sagna e Diarra, todos estes do Senegal. <em>Le jour de gloire est arrivé!</em><strong><em></em></strong></p>
<p>O Atlas humano quebra todas as lógicas e atropela a geografia clássica. Graças ao futebol, o mundo é hoje uma bola&#8230;</p>
<p>É bem verdade que as coisas seriam diferentes sem aquele capítulo da História que costumam chamar de colonialismo. Se os navegadores europeus tivessem ficado em sua terra, no máximo a pescar em seus mares vizinhos, como o Mediterrâneo e o Mar do Norte, não veríamos hoje a contramaré multirracial. Mais: se não existissem as atuais desigualdades sociais e econômicas entre três ou quatro mundos diferentes, ninguém deixaria as savanas idílicas da África, pontilhadas de zebras e leões, para dar caneladas em meio ao <em>fog</em> de Wembley.</p>
<p>Não pense o leitor que estou a queixar-me dos soluços da História. Ao contrário, saúdo com entusiasmo a hipótese (ou seria a iminência?) de um planeta unificado, em que as diferenças regionais sejam mantidas como saudosismo folclórico, mas os anseios de unidade transnacional superem os bairrismos e os ufanismos patológicos que, ao longo dos séculos, nos levaram a tantos conflitos desnecessários e causaram inimaginável derramamento de sangue.</p>
<p>Afinal, nem mesmo nós, os brasileiros descendentes de Caramuru e Paraguaçu, podemos exigir um atestado de brasilidade. Meu sobrenome italiano seria o primeiro a desmentir essa tese. No sobrenome dos antigos presidentes do Brasil se misturam o checo [Kubitschek], o alemão [Geisel] e o português [Silva]. Nossas cidades não conseguem ocultar a nostalgia das terras do imigrante: Nova Trento, Nova Granada, Novo Hamburgo, onde Itália, Espanha e Alemanha se abraçam comovidas.</p>
<p>Por tudo isso – e agora, sim, devo lamentar-me – chega às raias da insanidade o projeto de associar nacionalismo e Copa do Mundo, quando os restos de amor à Pátria são usados e abusados pelo <em>marketing</em> sem mais pudores, que não pensa em outra coisa exceto induzir ao consumo e conquistar a audiência dos brasileiros.</p>
<p>Não, a seleção não é “a pátria em chuteiras”. É apenas um grupo de profissionais regiamente remunerados que se exibem como artistas de um jogo altamente rentável para seus organizadores. Um cassino atlético, pois não? Esta última Copa do Mundo não economizou cenas em que o individualismo e a procura de brilho pessoal superou de longe o espírito coletivo e algum eventual amor pelas pátrias representadas na terra das <em>vuvuzelas</em>. As infernais <em>vuvuzelas</em>, diria Vovô Tunico!</p>
<p>Se o esporte inclui possibilidades pedagógicas e educativas – e as inclui, por certo, diria Dom Bosco -, é a sua prática, e não sua propaganda comercial, que pode fazer bem à juventude.</p>
<p>E tem mais: dá pena ver crianças chorando na derrota de alguma equipe esportiva. Lágrimas desperdiçadas, que seriam mais bem choradas pelas crianças que passam fome e morrem todos os dias nos conflitos programados pelos traficantes de armas.</p>
<p>Enfim, há algo mais em jogo além do futebol&#8230;</p>
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		<title>Tal pai, tal filho?</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Jun 2010 15:53:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antonio Carlos Santini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Tal pai, tal filho. Filho de peixe, peixinho é. Ditados antigos. E já fora de moda, ao menos no que se refere às profissões. Em tempos de autoafirmação, os jovens estão preferindo escolher o próprio caminho e traçar o próprio destino, ainda que isto signifique pagar um certo preço. Há 50, 60 anos atrás – o que não chega a ser muito tempo&#8230; -, os pais impunham aos filhos a sua atividade profissional. Autoritarismo? Não. Necessidade e bom senso. O agricultor, que já iniciara as crianças no cuidado da terra, teria dificuldade de entender que os filhos não assumissem o quinhão de sua herança. Até os ferroviários entendiam que o trabalho na “Rede” ficava bem nos filhos, o que dava origem a seguidas gerações de maquinistas, guarda-chaves, conferentes e agentes de estação. E o pequeno comerciante via no próprio negócio o caminho mais fácil e mais próximo para os filhos ganharem a vida. Lá na fachada da loja, orgulhosamente, o dono proclamava: “De pai para filho desde 1920”&#8230; Mas o coração tem suas razões&#8230; Mesmo ocultamente, o “negócio” do pai pode ter deixado marcas negativas ou feridas no coração dos filhos. Afinal, era a vendinha do interior (que não podia fechar nem nos domingos de manhã!) exatamente aquela que competia com as crianças, prendendo a atenção dos pais e sugando-lhes o tempo e as forças. Não raro, os filhos viam naquela profissão uma espécie de “intrusa”. Não admira, pois, que tenham preferido buscar outro caminho. Vi exatamente isto acontecer com um casal que abriu uma confecção e a ela se dedicou de corpo e alma. Já idosos, esforçaram-se para que um dos filhos (vários!) assumisse o negócio. Para seu espanto, nenhum deles aceitou a oferta. Precisaram fechar a confecção. Em uma entrevista de aconselhamento, acabaram por perceber – com surpresa! – que os filhos tinham aversão àquela empresa familiar que sempre lhes roubara pai e mãe&#8230; Enfim, vai longe o tempo em que um filho ouvia do pai: - Seu avô era arquiteto. Eu sou arquiteto. Tu serás arquiteto! Nestes tempos democráticos, livres e libertinos, a nova geração se arroga o direito de decidir o próprio futuro, o que inclui não só a profissão, mas o casamento e a religião, entre outras opções disponíveis. Os pais apenas se conformam, sem direito de interferir na vida dos filhos emancipados. Segundo os pedagogos, a mudança é positiva. O processo de educar consistiria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-3195" title="image001lnc" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/06/image001lnc.jpg" alt="" width="639" height="426" /></p>
<p>Tal pai, tal filho. Filho de peixe, peixinho é. Ditados antigos. E já fora de moda, ao menos no que se refere às profissões. Em tempos de autoafirmação, os jovens estão preferindo escolher o próprio caminho e traçar o próprio destino, ainda que isto signifique pagar um certo preço.</p>
<p>Há 50, 60 anos atrás – o que não chega a ser muito tempo&#8230; -, os pais impunham aos filhos a sua atividade profissional. Autoritarismo? Não. Necessidade e bom senso. O agricultor, que já iniciara as crianças no cuidado da terra, teria dificuldade de entender que os filhos não assumissem o quinhão de sua herança. Até os ferroviários entendiam que o trabalho na “Rede” ficava bem nos filhos, o que dava origem a seguidas gerações de maquinistas, guarda-chaves, conferentes e agentes de estação. E o pequeno comerciante via no próprio negócio o caminho mais fácil e mais próximo para os filhos ganharem a vida. Lá na fachada da loja, orgulhosamente, o dono proclamava: “<em>De pai para filho desde 1920”&#8230;</em></p>
<p>Mas o coração tem suas razões&#8230; Mesmo ocultamente, o “negócio” do pai pode ter deixado marcas negativas ou feridas no coração dos filhos. Afinal, era a vendinha do interior (que não podia fechar nem nos domingos de manhã!) exatamente aquela que competia com as crianças, prendendo a atenção dos pais e sugando-lhes o tempo e as forças. Não raro, os filhos viam naquela profissão uma espécie de “intrusa”. Não admira, pois, que tenham preferido buscar outro caminho.</p>
<p>Vi exatamente isto acontecer com um casal que abriu uma confecção e a ela se dedicou de corpo e alma. Já idosos, esforçaram-se para que um dos filhos (vários!) assumisse o negócio. Para seu espanto, nenhum deles aceitou a oferta. Precisaram fechar a confecção. Em uma entrevista de aconselhamento, acabaram por perceber – com surpresa! – que os filhos tinham aversão àquela empresa familiar que sempre lhes roubara pai e mãe&#8230;</p>
<p>Enfim, vai longe o tempo em que um filho ouvia do pai:</p>
<p>- Seu avô era arquiteto. Eu sou arquiteto. Tu serás arquiteto!</p>
<p>Nestes tempos democráticos, livres e libertinos, a nova geração se arroga o direito de decidir o próprio futuro, o que inclui não só a profissão, mas o casamento e a religião, entre outras opções disponíveis. Os pais apenas se conformam, sem direito de interferir na vida dos filhos emancipados.</p>
<p>Segundo os pedagogos, a mudança é positiva. O processo de educar consistiria não em oferecer modelos a serem imitados, mas acima de tudo em ajudar a criança a ter confiança em si mesma e, já crescida, bater as asas e voar. Claro que é só uma opinião. Muitas aves voaram e levaram chumbo em uma selva hostil e cheia de alçapões. O caminho mais livre era exatamente o mais perigoso.</p>
<p>Parte da mudança se deve ao desejo dos pais de ver os filhos “em uma situação melhor que a minha”. Não se leva em conta o fato de que as gerações que viviam juntas experimentavam mais segurança, mais apoio mútuo, mais presença afetiva. Coisas do individualismo moderno&#8230; Discípulos de Sartre, garantem que “o inferno são os outros”.</p>
<p>O que ninguém percebe é que não se tratava apenas de empurrar o filho para profissão do pai. Era muito mais. Junto com o “ofício”, vinha um “<em>savoir faire</em>” (hoje, dizem <em>know-how)</em>, uma visão do mundo, um universo de conceitos e de valores, o que poderia incluir honestidade, amor ao trabalho, justo orgulho no desempenho da profissão. Um autêntico “<em>kit</em>” básico com seus ritos e códigos, competências e habilidades, e mil-e-um detalhes que não se aprendem na escola.</p>
<p>Há pouco tempo, um amigo advogado me dizia ao telefone, falando de um de seus filhos, também advogado:</p>
<p>- Pois é&#8230; O W. está conseguindo na sua profissão aquilo que eu jamais consegui: ganhar dinheiro&#8230;</p>
<p>Aposto que meu amigo estava feliz!</p>
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		<title>Os Chineses estão Chegando &#8230;</title>
		<link>http://www.metro.org.br/antonio-carlos/os-chineses-estao-chegando</link>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 20:23:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antonio Carlos Santini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trabalho e Emprego]]></category>

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		<description><![CDATA[Leio a manchete fria do jornal: “Faltam engenheiros, eletricistas&#8230; Mão de obra é o principal gargalo”. [“O Globo”, 23 de maio.] A CBN repete a informação: “Professores da rede estadual estão em greve há 47 dias em Minas Gerais”. E o mesmo jornal insiste: “Apenas 25% dos brasileiros estão em condições de serem capacitados”&#8230; Será este o gigante que acordou? Será este o país que ganhará mais uma Copa do Mundo e, em conseqüência, tentará cobrir com um véu todo o nosso raquitismo social? As imagens do estádio mostram o torcedor uniformizado, bandeira na mão, boca sem dentes. Na portaria das fábricas, a tabuleta oferece vagas. Mas os candidatos não estão habilitados. Nem o serão, incapazes de ler um manual de operações&#8230; Lembrei-me de 1970, quando 90 milhões em ação celebravam a vitória sobre a Itália. Na época, eu lecionava e ajudava a coordenar um Curso Técnico de Química. O currículo original oferecia aos estudantes nada menos que 13 aulas semanais da disciplina principal, entre Química Orgânica, Inorgânica e práticas de análise qualitativa e quantitativa no laboratório. Aprendia-se Química de verdade. Aí, veio um decreto do Governo Militar, mandando incluir no currículo disciplinas aromáticas como Educação Moral e Cívica, Organização Social e Política do Brasil, Psicologia do Trabalho etc. Cada espaço ocupado pela propaganda do Governo roubava do aluno mais uma aula da Química que poderia prepará-lo para a vida profissional. Não admira que, passados 40 anos, faltem trabalhadores para a indústria, o que justifica o grande número de técnicos chineses importados por nossas empresas. O Clube de Engenharia protesta com a importação, mas devia, antes, avaliar a qualidade dos engenheiros formados em nossas baiúcas universitárias. Lembrei-me também das escolas profissionais mantidas pela EFCB – a Central do Brasil, até os anos 60. Veio a proibição governamental e os adolescentes já não podiam ser treinados nas oficinas que, até então, formavam fresadores e torneiros-mecânicos de qualidade. Os garotos aprendiam a trabalhar com polegadas, adquiriam disciplina e eram logo admitidos e bem remunerados. Com a proibição, voltaram para a rua&#8230; A história do ensino no Brasil é de fazer chorar. De tempos em tempos, um burocrata do Ministério da Educação decide mudar tudo, adotam-se teorias estrangeiras, importam-se métodos não testados que logo irão para o lixo. Ah! Que saudades das aulinhas de Dona Maria Conterni, que ensinava a ler e escrever, ditado e cópia, caligrafia (legível e estética!) e tabuada de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-3069  aligncenter" title="image001" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/06/image0012.jpg" alt="" width="140" height="180" /></p>
<p>Leio a manchete fria do jornal: “<em>Faltam engenheiros, eletricistas&#8230; Mão de obra é o principal gargalo</em>”. [“O Globo”, 23 de maio.] A CBN repete a informação: “Professores da rede estadual estão em greve há 47 dias em Minas Gerais”. E o mesmo jornal insiste: “Apenas 25% dos brasileiros estão em condições de serem capacitados”&#8230;</p>
<p>Será este o gigante que acordou? Será este o país que ganhará mais uma Copa do Mundo e, em conseqüência, tentará cobrir com um véu todo o nosso raquitismo social? As imagens do estádio mostram o torcedor uniformizado, bandeira na mão, boca sem dentes. Na portaria das fábricas, a tabuleta oferece vagas. Mas os candidatos não estão habilitados. Nem o serão, incapazes de ler um manual de operações&#8230;</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-3071  aligncenter" title="image002" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/06/image002-e1275509850859.jpg" alt="" width="480" height="320" /></p>
<p>Lembrei-me de 1970, quando 90 milhões em ação celebravam a vitória sobre a Itália. Na época, eu lecionava e ajudava a coordenar um Curso Técnico de Química. O currículo original oferecia aos estudantes nada menos que 13 aulas semanais da disciplina principal, entre Química Orgânica, Inorgânica e práticas de análise qualitativa e quantitativa no laboratório. Aprendia-se Química de verdade.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-3072  aligncenter" title="image004" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/06/image004-e1275509895732.jpg" alt="" width="480" height="360" /></p>
<p>Aí, veio um decreto do Governo Militar, mandando incluir no currículo disciplinas aromáticas como Educação Moral e Cívica, Organização Social e Política do Brasil, Psicologia do Trabalho etc. Cada espaço ocupado pela propaganda do Governo roubava do aluno mais uma aula da Química que poderia prepará-lo para a vida profissional.</p>
<p>Não admira que, passados 40 anos, faltem trabalhadores para a indústria, o que justifica o grande número de técnicos chineses importados por nossas empresas. O Clube de Engenharia protesta com a importação, mas devia, antes, avaliar a qualidade dos engenheiros formados em nossas baiúcas universitárias.</p>
<p>Lembrei-me também das escolas profissionais mantidas pela EFCB – a Central do Brasil, até os anos 60. Veio a proibição governamental e os adolescentes já não podiam ser treinados nas oficinas que, até então, formavam fresadores e torneiros-mecânicos de qualidade. Os garotos aprendiam a trabalhar com polegadas, adquiriam disciplina e eram logo admitidos e bem remunerados. Com a proibição, voltaram para a rua&#8230;</p>
<p>A história do ensino no Brasil é de fazer chorar. De tempos em tempos, um burocrata do Ministério da Educação decide mudar tudo, adotam-se teorias estrangeiras, importam-se métodos não testados que logo irão para o lixo.</p>
<p>Ah! Que saudades das aulinhas de Dona Maria Conterni, que ensinava a ler e escrever, ditado e cópia, caligrafia (legível e estética!) e tabuada de memória, frações e regra de três. Os moleques saíam para a vida com um “doutorado” que supera muitas faculdades deste início de século!</p>
<p>Hoje, proliferam faculdades que distribuem diplomas pagos e analfabetismo profissional, como essas escolas de Direito cujos alunos terão dificuldades em ser aprovados nos exames da OAB. Estudantes de Filosofia que não conseguem acertar a concordância do verbo com o sujeito. Engenheiros que vivem agarrados à maquininha de calcular&#8230;</p>
<p>Pobre Brasil! Triste Brasil! Lamentável Brasil! Os chineses estão chegando&#8230;</p>
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		<item>
		<title>Domingo: um dia para o homem!</title>
		<link>http://www.metro.org.br/antonio-carlos/domingo-um-dia-para-o-homem</link>
		<comments>http://www.metro.org.br/antonio-carlos/domingo-um-dia-para-o-homem#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 06 Apr 2010 16:32:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antonio Carlos Santini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Religião]]></category>

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		<description><![CDATA[No dia 24 de março, em Bruxelas, foi iniciada uma campanha pelo “domingo sem trabalho”. E não se trata de uma iniciativa de cunho “religioso”, inspirada por alguma Igreja. É apenas um grito que parte do coração do homem: não somos máquinas! Para o bem da família A campanha nasce de uma iniciativa do eurodeputado alemão Thomas Mann e da eurodeputada socialista italiana Patriza Toia junto ao Parlamento Europeu. Naturalmente, as ACLI, Associações Cristãs dos Trabalhadores Italianos, de pronto apoiaram a iniciativa, ao lado de numerosos sindicatos e representantes das Igrejas européias. No Facebook, no espaço de 24 horas, já se reuniam 13 mil pessoas das mais variadas nacionalidades apondo sua assinatura no audacioso projeto. Thomas Mann declara: “Nós exigimos um domingo sem trabalho para todos os cidadãos europeus”. Para ele, “garantir um domingo sem trabalho é de máxima importância para compatibilizar o trabalho com a vida de família. Em especial para ter tempo de estar com os próprios filhos”. Como comenta Gianluca Cazzaniga, do jornal “Avvenire”, trata-se de um primeiro passo em direção a uma nova norma para o Continente Europeu. Para László Andor, Comissário Europeu para o Trabalho, “é uma questão de subsidiariedade entre as questões sociais e a integração. Nada impede aos Estados membros de proteger o domingo, como já ocorre em dezesseis países da União Européia”.   Mais que religião&#8230; Segundo Sebastián Maillard, do jornal “La Croix”, uma proteção geral do domingo já foi reconhecida, por um tempo, pela legislação européia. As primeiras normas datavam de 1993, ao estabelecerem que o repouso semanal devia incluir em princípio os domingos. Contestada, porém, pelo Reino Unido – os mesmos capitalistas que acorrentavam crianças às maquinas, no século XVIII – perante a Corte Européia de Justiça, a regra foi abandonada em 1996. Se a dimensão religiosa de um domingo “sagrado” não escapa a ninguém, enquanto “dia do Senhor” e dia da celebração comunitária, outras dimensões estão incluídas na questão. Aliás, mesmo na Índia, onde os cristãos são ínfima minoria (em torno de 2,5% da população), o domingo é dia de repouso obrigatório. Para Francesco Riccardi, historiador e redator da revista “Cristiani nel Mondo”, a proposta de um Free Sunday, domingo livre, evitará o agravamento das rupturas no tecido social, tão visíveis em toda a Europa. “O domingo – diz Riccardi &#8211; não é simplesmente o dia do repouso, mas o tempo dos afetos, da atenção familiar, de estar junto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-2625  aligncenter" title="Domingo: um dia para o homem!" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/04/image001.jpg" alt="Domingo: um dia para o homem!" width="400" height="266" /></p>
<p><em>No dia 24 de março, em Bruxelas, foi iniciada uma campanha pelo “domingo sem trabalho”. E não se trata de uma iniciativa de cunho “religioso”, inspirada por alguma Igreja. É apenas um grito que parte do coração do homem: não somos máquinas!</em></p>
<h2><span style="font-weight: normal;">Para o bem da família</span></h2>
<p>A campanha nasce de uma iniciativa do eurodeputado alemão Thomas Mann e da eurodeputada socialista italiana Patriza Toia junto ao Parlamento Europeu. Naturalmente, as ACLI, Associações Cristãs dos Trabalhadores Italianos, de pronto apoiaram a iniciativa, ao lado de numerosos sindicatos e representantes das Igrejas européias. No <em>Facebook</em>, no espaço de 24 horas, já se reuniam 13 mil pessoas das mais variadas nacionalidades apondo sua assinatura no audacioso projeto.</p>
<p>Thomas Mann declara: “Nós exigimos um domingo sem trabalho para todos os cidadãos europeus”. Para ele, “garantir um domingo sem trabalho é de máxima importância para compatibilizar o trabalho com a vida de família. Em especial para ter tempo de estar com os próprios filhos”. Como comenta Gianluca Cazzaniga, do jornal “<em>Avvenire</em>”, trata-se de um primeiro passo em direção a uma nova norma para o Continente Europeu. Para László Andor, Comissário Europeu para o Trabalho, “é uma questão de subsidiariedade entre as questões sociais e a integração. Nada impede aos Estados membros de proteger o domingo, como já ocorre em dezesseis países da União Européia”.</p>
<p><strong> </strong></p>
<h2><span style="font-weight: normal;">Mais que religião&#8230;</span></h2>
<p>Segundo Sebastián Maillard, do jornal “<em>La Croix</em>”, uma proteção geral do domingo já foi reconhecida, por um tempo, pela legislação européia. As primeiras normas datavam de 1993, ao estabelecerem que o repouso semanal devia incluir em princípio os domingos. Contestada, porém, pelo Reino Unido – os mesmos capitalistas que acorrentavam crianças às maquinas, no século XVIII – perante a Corte Européia de Justiça, a regra foi abandonada em 1996.</p>
<p>Se a dimensão religiosa de um domingo “sagrado” não escapa a ninguém, enquanto “dia do Senhor” e dia da celebração comunitária, outras dimensões estão incluídas na questão. Aliás, mesmo na Índia, onde os cristãos são ínfima minoria (em torno de 2,5% da população), o domingo é dia de repouso obrigatório.</p>
<p>Para Francesco Riccardi, historiador e redator da revista “<em>Cristiani nel Mondo</em>”, a proposta de um <em>Free Sunday, </em>domingo livre, evitará o agravamento das rupturas no tecido social, tão visíveis em toda a Europa. “O domingo – diz Riccardi &#8211; não é simplesmente o dia do repouso, mas o tempo dos afetos, da atenção familiar, de estar junto com a comunidade. E ainda, da reflexão pessoal e da oração pelos que crêem. É um tempo especial, pois está sincronizado com o tempo dos outros. Tempo de festa, porque é tempo livre, no qual expressamos em profundidade aquilo de mais autêntico que nós somos.”</p>
<p><strong> </strong></p>
<h2><span style="font-weight: normal;">Luxo ou liberdade?</span></h2>
<p>O Eurofund &#8211; agência pública da União Européia para melhoria das condições de trabalho – assegura que o trabalho dominical obrigatório não deixaria de produzir efeitos negativos sobre o absenteísmo, a motivação do trabalhador e as doenças do trabalho.</p>
<p>Mas temos argumentos ainda melhores para preservar o domingo. Um domingo de trabalho é um domingo sem família. Sem biscoitos partilhados com as crianças, sem a macarronada com a turma reunida. Sim, o domingo pode ser <em>um luxo</em>, como dizem os vendilhões que pretendem vender também aos domingos. Esses vendilhões estão furiosos com nossa pretensão de não trabalhar aos domingos. Mas é este luxo que nos distingue dos escravos. E, no fundo, só a liberdade nos garante o domingo sem trabalho&#8230;</p>
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		<title>Imagens de Deus</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Mar 2010 16:31:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antonio Carlos Santini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Religião]]></category>

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		<description><![CDATA[Segundo o Gênesis, Deus criou o homem à sua imagem. Como quem dá troco, temos a tendência a recriar Deus à nossa própria imagem. Quase, sempre, são imagens que desmerecem a perfeição e a santidade do Deus verdadeiro Deus. Quando os navegadores espanhóis cruzaram o Atlântico, no ocaso do Séc. XV, e chegaram à América Central, viram com espanto as pirâmides escalonadas erguidas ao deus Xipe-Totec, cujos degraus estavam cobertos de crânios de jovens sacrificados à sede de sangue daquela divindade pagã. Que “deus” é este, que bebe o sangue de seus adoradores? Que se compraz com a morte de seu povo? Em um de seus livros, o consagrado autor Anselm Grün recorda as imagens divinas que ousamos desenhar: o deus juiz, o deus perfeccionista, o deus do rendimento, o deus do arbítrio ou o deus-guarda-livros. Poderíamos acrescentar o deus-amuleto, que fecha o corpo e imuniza contra todo problema e sofrimento da condição humana. Ou o deus-vingador, especialista em “acertar contas”, que invocamos contra aqueles que nos desagradam. Religião e poder Para Grün, estas imagens seriam criadas na intenção de dominar as pessoas, como fazem os pais que ameaçam as crianças com os castigos divinos por mau comportamento. Como aqueles bordões de nossa infância: &#8211; “Papai do Céu não gosta de menino que faz coisa feia!” Aliás, nada mais falso! Se o pastor – imagem bíblica de Deus – abandona 99 ovelhas “no deserto” para sair em busca da ovelha negra número 100 que se perdeu, não é sinal de que os transviados são alvo de uma atenção especial, um amor de predileção por parte do Senhor? De qualquer modo, as imagens falsas de Deus despertam sentimentos de medo e de culpa, de vergonha e de insegurança, de servilismo e de passividade. Está na moda a imagem do deus-investimento: você dá 10 e ele devolve 100; você dá 100 e ele devolve 1000. (Estou usando iniciais minúsculas para esse tipo de deus. Não merece a caixa alta!) De um lado, espertalhões explorando o povo com promessas que não podem cumprir: um caso de PROCON! De outro, um misto de ingênuos e de interesseiros, que ousam acreditam em uma divindade que se deixa usar e abusar para gerar vantagens materiais em favor de seus “investidores”. Dá nojo! Deus não é ópio&#8230; Divulga-se ainda o deus-anestesia: tomou Doril, a dor sumiu! Como se Cristo não fosse um Deus crucificado&#8230; Nas palavras de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-2517  aligncenter" title="Imagens de Deus" src="http://www.metro.org.br/wp-content/uploads/2010/03/image00114-e1269275389422.jpg" alt="Imagens de Deus" width="500" height="597" /></p>
<p>Segundo o Gênesis, Deus criou o homem à sua imagem. Como quem dá troco, temos a tendência a recriar Deus à nossa própria imagem. Quase, sempre, são imagens que desmerecem a perfeição e a santidade do Deus verdadeiro Deus.</p>
<p>Quando os navegadores espanhóis cruzaram o Atlântico, no ocaso do Séc. XV, e chegaram à América Central, viram com espanto as pirâmides escalonadas erguidas ao deus Xipe-Totec, cujos degraus estavam cobertos de crânios de jovens sacrificados à sede de sangue daquela divindade pagã. Que “deus” é este, que bebe o sangue de seus adoradores? Que se compraz com a morte de seu povo?</p>
<p>Em um de seus livros, o consagrado autor Anselm Grün recorda as imagens divinas que ousamos desenhar: o deus juiz, o deus perfeccionista, o deus do rendimento, o deus do arbítrio ou o deus-guarda-livros. Poderíamos acrescentar o deus-amuleto, que fecha o corpo e imuniza contra todo problema e sofrimento da condição humana. Ou o deus-vingador, especialista em “acertar contas”, que invocamos contra aqueles que nos desagradam.</p>
<h2><span style="font-weight: normal;">Religião e poder</span></h2>
<p>Para Grün, estas imagens seriam criadas na intenção de dominar as pessoas, como fazem os pais que ameaçam as crianças com os castigos divinos por mau comportamento. Como aqueles bordões de nossa infância: &#8211; “Papai do Céu não gosta de menino que faz coisa feia!”</p>
<p>Aliás, nada mais falso! Se o pastor – imagem bíblica de Deus – abandona 99 ovelhas “no deserto” para sair em busca da ovelha negra número 100 que se perdeu, não é sinal de que os transviados são alvo de uma atenção especial, um amor de predileção por parte do Senhor? De qualquer modo, as imagens falsas de Deus despertam sentimentos de medo e de culpa, de vergonha e de insegurança, de servilismo e de passividade.</p>
<p>Está na moda a imagem do deus-investimento: você dá 10 e ele devolve 100; você dá 100 e ele devolve 1000. (Estou usando iniciais minúsculas para esse tipo de deus. Não merece a caixa alta!) De um lado, espertalhões explorando o povo com promessas que não podem cumprir: um caso de PROCON! De outro, um misto de ingênuos e de interesseiros, que ousam acreditam em uma divindade que se deixa usar e abusar para gerar vantagens materiais em favor de seus “investidores”. Dá nojo!</p>
<h2><span style="font-weight: normal;">Deus não é ópio&#8230;</span></h2>
<p>Divulga-se ainda o deus-anestesia: tomou Doril, a dor sumiu! Como se Cristo não fosse um Deus crucificado&#8230; Nas palavras de Anselm Grün, “por vezes, Deus é usado como se fosse uma droga milagrosa. Eu só preciso entregar a Deus todas as minhas necessidades e preocupações, que então ele há de endireitar tudo, curar todas as minhas enfermidades, e eu não preciso mais me preocupar com nada. Não terei mais que enfrentar as consequências e os erros de minha vida passada. Posso passar por cima de tudo e ir diretamente a Deus, que magicamente fará desaparecer tudo quanto é negativo. Aqui a religião passa a ser uma droga”. Indico o livro “<em>Se quiser experimentar Deus”</em>, Editora Vozes, de 2001. Este tipo de “deus” não passa de caminho de fuga da minha realidade humana.</p>
<p>Mas ainda subsiste nas mentes o deus-policial, uma espécie de <em>big-brother</em> celeste, que tudo vê e registra em um grande livro de capa preta, cujo conteúdo será divulgado no juízo final, para vergonha dos réus e deleite dos espectadores. Como amar um deus assim?</p>
<p>Vendem a imagem de um deus perfeccionista que acolhe apenas os atletas espirituais, os alpinistas da alma, mas rejeita e frita no inferno qualquer fraqueza humana, como se o Criador não conhecesse os limites do barro humano, que Ele-mesmo amassou e modelou com as próprias mãos! Esses fariseus não conseguem ler no Evangelho a inclinação comovida de Jesus pelos mendigos e leprosos, pelos cegos e aleijados (naquele tampo, não se falava em deficientes&#8230;), pelos pecadores e pelas prostitutas que – segundo o próprio Mestre – nos precederão no Reino do Pai.</p>
<h2><span style="font-weight: normal;">Descobrir o Pai</span></h2>
<p>É hora de clamar bem alto: &#8211; Estão usando Deus! Estão abusando de seu Nome santo! Estão transformando Deus em mercadoria ao alcance de todos. E isto é um pecado terrível&#8230;</p>
<p>Precisamos divulgar, dia a dia, um Evangelho como o de São Lucas, onde as misericórdias de Deus escorrem como um grande rio de amor. Ou o Evangelho de São João, onde Deus é chamado de Pai nada menos que cem vezes!</p>
<p>Assim, quem sabe, chegaremos a falar de Deus como um filho amado se refere a um Pai amante. Assim, quem sabe, nos aproximaremos do modelo de Jesus, que nada pretendia de Deus, exceto cumprir a sua vontade.</p>
<p>O mais é crime, é fraude, é contrafação&#8230;</p>
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