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Herança

Publicado por Antonio Ângelo em Poesia
data: 30/08/2010

Uma pedra lhe deixarei de herança:

ovalada, lisa, opaca,

ao fundo do riacho colhida.

Nela, se bem a observa,

decifrará marcas de um tempo

que se perdeu nos vórtices

de inescrutáveis ampulhetas.

Contemple-a nos detalhes:

tons, sub-tons, delicados poros,

e a mancha acastanhada,

qual indelével tatuagem…

Tão lisa a superfície,

suave e agradável ao toque,

e a temperatura que nos remete

à frialdade das cavernas.

Decerto nos primórdios grande e angulosa,

por milênios imóvel, esquecida,

eis que, sob o limo das correntes,

foi sendo aos poucos lapidada.

Quem sabe se, oriunda de um vulcão,

Pela encosta desceu, incandescente lava?

Ou se – perdido meteorito –

dos céus veio em vertiginosa queda?

Mas o certo é que seja,

filha da mais trivial geologia,

igual às pedras do caminho.

Dela não se desfaça,

antes, numa gaveta a guarde,

para que um dia nela possa perscrutar

o código germinal dos milênios.

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