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A escravidão é carmim

Publicado por Antonio Ângelo em Poesia
data: 12/05/2017

 A escravidão é carmim

Carminha pega sua sacola
coloca algumas roupas, dinheiro curto
apenas o básico

Está cansada de tudo
de todos
vai partir

Chega de tia impertinente
sempre a exigir trabalho
mais e mais trabalho

Chega do avô neurastênico
que mal permite que chegue à janela
menos ainda que saia à rua

Arrumou um namorado
uma vez
gostava dele

Tanto fizeram e lhe encheram a paciência
que o namorado um dia lhe disse:
- Gosto de você, mas assim não dá

Carminha agora cansou
logo depois do almoço
lavou as louças e se foi

Disse apenas que iria visitar amiga
- Mas você não tem amiga – disse a tia
- Bobagens… – resmungou o avô

Decidida, ela nada respondeu
agora se acabara a paciência
que parecia infinda

Foi até a esquina, olhou para cima
olhou abaixo
sem saber que rumo tomar

A tarde já se anunciava
num quintal onde folhas de bananeiras
dançavam preguiçosamente

Um cachorro passou, passou o padeiro
que a cumprimentou
passou na carroça Seu Raimundo

Onde ir? O que fazer?
Realmente, pensou, nestes anos todos
sequer uma amizade para valer tivera

Tarde avançada Carminha volta para casa
vem devagar, cabisbaixa
medindo os passos

- O que esteve fazendo? perguntou o avô
- Fui até a padaria comprar pão
colocou o embrulho sobre a mesa

O alumínio das panelas refulgiam nas prateleiras
no arvoredo um assanhaço estalava
uma locomotiva fugia à distancia

Carminha olhou para o avô que começava a dormitar
era hora de pegar a bacia e ir para o tanque
onde a roupa suja aguardava suas mãos

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Antonio Ângelo -
2 Comentários
  1. Dulciméia de Oliveira

    Que belo, e triste!

  2. aminthas

    EU NÃO SOU SEU NEGRO NÃO M.LUTER QUING 13 DE MAIO . SOMENTE MEU UNICO AMIGO TERIA ESTA SENSIBILIDADE. GRANDE ABRAÇO

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