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Necrópoles, parques e jardins

Publicado por Antonio Carlos Santini em Religião
data: 29/01/2018

necropoles

Durante séculos, no mundo cristão, os cemitérios eram lugares sagrados. Eram cidades dos mortos – necrópoles -, mas tinham grande interesse para os vivos que, afinal, eram fiéis de passagem pela história, a caminho da eternidade. Se os corpos ficavam retidos no “campo santo” – outro sinônimo cristão para o cemitério! -, a alma espiritual permanecia viva e seguia para Deus. As catacumbas de Roma atestam claramente este aspecto da fé cristã.

Não admira que, em paralelo com o ritual das exéquias, as missas “de corpo presente” e os paramentos pretos, o espaço físico dos cemitérios ficasse bem próximo, quase anexo à igreja matriz de cada comunidade. O Dicionário Aurélio ainda registra a palavra “adro” como sinônimo de cemitério. Pia batismal, mesa eucarística e túmulo eram apenas três ângulos da caminhada cristã.

O aspecto sagrado dos cemitérios ficava evidente nos túmulos de mármore, a moda de altares, e na proliferação da estatuária com anjos, santos, cruzes etc., e de inscrições extraídas da Escritura ou da liturgia. Via de regra, o espaço era batizado com um título cristão: São João Batista, do Senhor do Bonfim, da Boa Viagem etc.

Veio a República e, inflada de anticlericalismo e irreligiosidade, sequestrou em definitivo o serviço da morte para o âmbito civil, com a obrigação de sepultar os mortos no cemitério comunal. Basta lembrar que os mosteiros e abadias, que até então possuíam seus próprios cemitérios intramuros, foram proibidos de ali enterrarem os corpos de seus monges e monjas.

Aliás, como comenta um dos biógrafos de Santa Teresinha do Menino Jesus, se a Pequena Teresa tivesse sido enterrada no cemitério do claustro carmelita, não teria acontecido o intenso movimento de devotos junto a seu túmulo, responsável pela rápida irradiação da devoção popular. Males que vêm para o bem…

Hoje, acentuado sempre mais o processo de secularização na sociedade laica, os cemitérios foram rebatizados com nomes neutros: Parque da Colina, Jardim da Saudade, Recanto de Paz. Assim – pensa o neopagão -, talvez seja possível arrancar da morte a lembrança do eterno. Sem mármores nem cruzes, sem legendas bíblicas nem alusões à vida de além-túmulo, tenta-se sepultar também o fato de que a viagem prossegue além do tempo. Sob o tapete da grama verde, tão natural quanto os corpos dos animais, oculta-se a tenda provisória dos filhos de Adão.

E, se ainda for pouco, logo teremos leis que tornem obrigatória a cremação… Como se o fogo que faz arder o corpo pudesse extinguir o fogo que faz arder a alma…

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Antonio Carlos Santini - Licenciado em letras – Português e Francês. Professor de Artes e Ciências Humanas. Evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia/ Licenciado en letras - Portugués y Francés. Profesor de artes e ciencias humanas. Es evangelizador católico, compositor de músicas religiosas, autor de varios libros de catequesis y poesía. Residente em Belo Horizonte MG
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